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'Na questão ecológica, temos de legar um planeta sustentável para as futuras gerações'

Recém-escolhido para comandar a arquidiocese da capital federal, bispo afirma que está pronto para dialogar com os poderes da República: 'tenho o pressuposto de que diálogo implica que do outro lado existam pessoas pensantes'

27 nov 2020
13h11
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Ao longo de 40 minutos de conversa, via Skype, d. Paulo Cezar Costa repete em três ocasiões que o papa Francisco tem sido "muito generoso" com ele. Refere-se às nomeações recentes. No início deste ano, o sumo pontífice fez do bispo brasileiro de 53 anos membro de duas organizações do Vaticano: a Comissão para América Latina e o Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. E, agora no fim de outubro, Francisco nomeou-o novo arcebispo de Brasília.

Graças a esse apreço do chefe, Costa assume no dia 12 de dezembro a arquidiocese que carrega o peso de estar na capital federal do País. Troca a interiorana diocese de São Carlos, onde está desde agosto de 2016, que abrange uma área de 1,2 milhão de habitantes, pela de Brasília, com 3 milhões de habitantes, endereço da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e toda a proximidade com o governo federal.

Nascido em Valença, no Rio de Janeiro, Costa é padre desde 1992. Durante cinco anos estudou teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, onde obteve os títulos de mestre e de doutor. De volta ao Brasil, lecionou na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio). Integrou diversas comissões também da CNBB — atualmente preside duas, o Grupo de Análise de Conjuntura Eclesial e o Setor Universidades.

Em 2010, tornou-se bispo-auxiliar do Rio de Janeiro. Foi junto ao d. Orani João Tempesta, aliás, que ajudou a organizar a Jornada Mundial da Juventude de 2013, evento que teve a participação de papa Francisco, na primeira viagem internacional do atual pontificado. Houve sintonia. "Tivemos possibilidade de dialogar", recorda-se Costa. "Lembro-me de um almoço em que conversamos com liberdade. Ele é de um diálogo muito fácil, das coisas simples de um cafezinho até as mais complicadas da política e da teologia. A conversa flui. E sobre alguns temas eu disse 'eu penso assim e assim'. E ele respondeu: 'eu também'."

Como estão suas expectativas em assumir a arquidiocese de Brasília, importante também politicamente?

Eu ouvia dizer que o papa Francisco ia me nomear arcebispo. Mas uma coisa é ouvir dizer, outra é receber a nomeação. Receber a nomeação impacta. Estou aqui no centro do Estado de São Paulo, uma região boa, onde entrei, fui amado e aprendi a amar. Mas agora o papa me pede para sair. Busquei fazer aqui o que podia, tornar a igreja em São Carlos uma igreja em saída, missionária. Estamos também organizando toda a parte administrativa da diocese. Mas há uma experiência toda que a gente leva. Entro na igreja de Brasília com muito respeito, buscando conhecer a cidade, as pastorais, os movimentos, buscando encontrar as forças vivas da Igreja e buscando também encontrar o mundo cultural e o mundo político, os três poderes ali, estabelecer diálogos com ele. Fazer aquilo que o papa Francisco pede: promover a cultura do encontro, que acho que é o grande desafio hoje. O mundo está se tornando cada vez mais intolerante, cada vez mais se radicalizando e deixando o diálogo. Isso infelizmente acontece também no Brasil. As pessoas vão se enrijecendo em suas posturas e o diálogo vai ficando minado. Meu grande desafio vai ser levar e tentar implantar essa cultura do diálogo, tentar mostrar que o diálogo é o caminho para a vida da sociedade e é o caminho também para a relação entre as religiões. A cultura do diálogo.

O senhor fala do diálogo mas é preciso lembrar também que em Brasília haverá mais visibilidade para seus posicionamentos. Holofotes são inevitáveis na capital do País e será inevitável que o senhor esteja mais exposto a questões nacionais, muitas vezes tendo de responder ou mesmo se posicionar sobre elas, sendo a voz da Igreja. Como ser a voz da Igreja na Brasília de hoje?

É uma grande responsabilidade. Mas foi o que o papa me incumbiu: ser o arcebispo da capital federal, sabendo que ali está o governo, a CNBB… Porém, levo comigo uma grande experiência. E irei me posicionar a partir do que eu sou, ou seja, sou bispo e como bispo tenho de falar sempre a partir da Igreja, do evangelho, do que pensa a Igreja Católica, do rico patrimônio da doutrina social da Igreja. É a partir daí que eu tenho de falar e me posicionar. Sobres as questões complexas de hoje, às vezes é preciso parar um pouquinho, tomar pé da questão, ver os diversos ângulos, perceber as nuances. Sempre há uma percepção do fenômeno mas também uma percepção da fé, da doutrina social da Igreja, a partir da tradição milenar da Igreja, do que a Igreja Católica tem a dizer sobre essa questão e qual deve ser o posicionamento mais justo sobre essa questão. Aí deverá residir minha habilidade: no sentido de buscar sempre uma palavra com conteúdo, balizada, que possa iluminar as questões do momento.

Em Brasília será inevitável que o senhor dialogue com os poderes da República. Há vários temas de governo que também entram nas pautas da Igreja. Como conduzir esses debates, principalmente quando as posições são divergentes?

Sempre partirei da posição da Igreja Católica, da palavra de Deus, do magistério e do rico patrimônio da doutrina social da Igreja. Claro que eu tenho o pressuposto de que diálogo implica que do outro lado existam pessoas pensantes. Quando essa racionalidade é quebrada, aí se perde a condição do diálogo. O diálogo parte de uma visão bonita, do outro, da outra, das instituições. É preciso ter respeito pelo outro, pela outra, pelas instituições, aí existem condições de diálogo. Vou com essa perspectiva alta: a perspectiva da racionalidade, do respeito às instituições constituídas e às instituições democráticas, do respeito às pessoas. A grande habilidade de um bispo é esta. Lembro uma vez, quando era bispo auxiliar no Rio, recebi um general para dialogar comigo. Servi um cafezinho e o diálogo fluiu com tranquilidade.

Infelizmente, nem sempre a racionalidade permeia as discussões no polarizado contexto atual… Por exemplo: todas as vezes que o papa Francisco se posiciona a respeito de dois temas que lhe são caros, a preservação da Amazônia e o desarmamento, ele acaba sendo alvo de posts agressivos nas redes sociais e recebe muitas críticas de determinado setor da sociedade. O senhor estará no centro dessas discussões a partir do mês que vem…

O magistério da Igreja vem se pronunciando, muito antes do papa Francisco, sobre a questão ecológica, a importância do cuidado da casa comum. Sobre este tema, terei de ter firmeza. No diálogo você tem de escutar, mas há certas horas em que é preciso ser firme, mostrar com delicadeza que o caminho é esse, o caminho que a fé aponta, que a grande ciência aponta, o caminho que os homens lúcidos apontam. A gente tem de ter firmeza também na condução. Um bispo tem de ter ideias claras e em certas horas precisa ser inflexível em seu diálogo, com delicadeza e sem ofender o outro. Ser inflexível em sua posição, porque tem consciência de que ali está o bem, ali está o caminho para a humanidade. Consciência de sua responsabilidade social. Inclusive na questão ecológica: de legar um planeta sustentável para as futuras gerações. Essa é a nossa responsabilidade hoje. É preciso ser inflexível e não se pode ceder. Assim vou conduzir tanto a questão ecológica e tantas outras questões que estão em pauta hoje, sempre com o olhar a partir do magistério da Igreja, o magistério atual principalmente. Papa Francisco é um homem dialogante, é o homem que vai ao encontro das minorias, quer uma Igreja em saída, a inclusão dos mais pobres. Isso não por ideologia, não por opções políticas. Mas por opções evangélicas. É o que o evangelho pede de nós, é o que a doutrina social da Igreja pede de nós.

Aos 53 anos o senhor assume uma arquidiocese que é considerada, por tradição, sede cardinalícia. Já parou para pensar que, se for nomeado cardeal em breve, pode vir a ser o mais jovem cardeal da Igreja?

Já disse e repito: papa Francisco foi muito bondoso comigo este ano. O cardinalato é uma coisa do papa. Pode ele dar com liberdade onde percebe que um bispo tem condições de ajudá-lo mais de perto no governo da Igreja e ajudar depois também até na escolha do papa. Isso é coisa da liberdade dele. A nós, bispos, cabe fazer bem o nosso papel, buscar exercer bem o nosso ministério. Mas é a liberdade do papa. E o papa Francisco neste aspecto é muito livre.

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