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Muro centenário ao redor da árvore mais antiga de São Paulo é demolido

Figueira das Lágrimas, que teria feito sombra a dom Pedro I no Dia da Independência, ficará desprotegida

12 jul 2019
14h32
atualizado às 15h14
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SÃO PAULO - Um muro histórico, que protegia a árvore mais antiga de São Paulo, foi demolido nesta quinta-feira, 11. Prestes a completar 100 anos, ele cercava a Figueira das Lágrimas, no Ipiranga, e teve a derrubada autorizada para obras de requalificação na praça.

Tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp), a figueira ganhou renome por ter feito sombra a figuras ilustres. A Estrada das Lágrimas, que a árvore margeia, é citada por estudiosos como o trajeto usado por Dom Pedro I no dia 7 de setembro de 1822. O grito de independência, às margens do Riacho Ipiranga, teria ocorrido pouco depois de passar pela árvore.

Calcula-se que tenha ela nascido em 1780. O muro foi construído em 1920 pelo então prefeito Firmiano Pinto para proteger o patrimônio. A inauguração colocou ali uma placa de bronze com a inscrição de um poema do historiador Eugênio Egas, de 1920, sobre a "árvore das lágrimas e das saudades". A placa foi furtada há algumas décadas.

A demolição, aprovada pela Prefeitura, espantou a moradora Yara Rodrigues, de 63 anos, que liderava uma iniciativa para a restauração do muro. Yara mora no local há cinco décadas e é proprietária de parte do terreno que estava cercado.

"A gente pedia a restauração, e não o que fizeram", diz Yara. Ela foi informada por engenheiros contratados pelo município que, com a demolição do muro, a praça agora ficará aberta à população. A mudança gera preocupações com a preservação do espaço e da figueira, com o risco de invasão e depredação. "Já vieram fazer barracos aqui dentro e eu não deixei, tive que enfrentar as pessoas fazendo barraco lá", conta a moradora. "Durante todos esses 50 anos, fui eu que cuidei."

Fotos publicadas nas redes sociais pelo arquiteto e biólogo Ricardo Cardim mostram que o gradil foi feito de rampa para um carrinho de construção. As obras também danificaram as raízes da árvore, conforme a reportagem constatou no local.

"A partir do momento em que um carrinho de mão passa por cima de uma grade histórica, no mínimo não tem ninguém orientando esses funcionários a tomarem uma postura de cuidado com o material histórico", diz Cardim. "É um material nobre, tem uma grade artística de uma outra época, uma base de pedra granita lapidada a mão."

Requalificação

A Prefeitura Regional do Ipiranga informou que o processo para a requalificação da praça teve início em abril e que a obra visa "preservação da memória da população local e da história da urbanização de São Paulo". A Prefeitura diz que a intervenção foi aprovada pelos órgãos de preservação do patrimônio. "Em 3 de julho, foi autorizado o início do serviço de conservação do muro lateral e a requalificação do local, já iniciados e com prazo total de 120 dias", informou a gestão municipal, em nota.

Estadão
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