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Mosteiro de São Bento muda regra de visita de menores e vê saída de noviços após denúncias de abuso

Quatro religiosos foram alvo de denúncia de assédio sexual; agora adolescentes que têm vocação religiosa e desejam conhecer o local, por exemplo, só podem entrar acompanhados dos pais ou responsáveis

7 dez 2021 17h01
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As denúncias de assédio sexual contra quatro religiosos do Mosteiro de São Bento motivaram, após a intervenção do Vaticano, mudanças de regras na instituição. Adolescentes que têm vocação religiosa e desejam conhecer o local, por exemplo, agora só podem entrar acompanhados dos pais ou responsáveis. Em meio à crise, o local vê ainda a saída de noviços - 8 de 12 jovens religiosos deixaram o mosteiro desde 2019.

As acusações, como mostrou o Fantástico, são feitas por dois jovens, que teriam sofrido assédio sexual de religiosos quando ainda eram menores de idade. Os crimes teriam ocorrido entre 2016 e 2018. Os suspeitos foram ouvidos pela polícia e negam as acusações. Três deles foram afastados do mosteiro e um morreu de covid-19 no ano passado.

Em 2019, os 32 religiosos do Mosteiro foram surpreendidos com a notificação judicial por causa das denúncias. Em seguida, a entidade recebeu uma visita apostólica - um grupo de monges brasileiros designados pelo Vaticano se instalou no local. Com a pandemia, a intervenção, de fato, começou só em abril deste ano.

"Não foi um inquérito, mas todos foram ouvidos", disse ao Estadão o monge Hildebrando Brito, membro da direção espiritual do Mosteiro. Ele acompanha desde o início a ação dos interventores chefiados pelo Frei Evaldo Xavier, da Ordem dos Carmelitas. "O mosteiro ficou congelado desde o início da visita. Todas as áreas têm de passar suas informações. Estamos seguindo com fidelidade as orientações propostas pelo Vaticano."

Embora não sejam tão frequentes, principalmente na pandemia, as visitas estão controladas em um protocolo trazido pelo interventor. Além de irem acompanhados dos pais, agora os jovens são recebidos por um monge específico, designado para recebê-los. Antes, podiam ser recebidos por diferentes religiosos. Houve também mudanças na hierarquia e trocas de cargo.

Já a rotina dos monges, segundo Brito, pouco mudou. Ele diz também que os casos de assédio são "pontuais" e destaca que as saídas dos noviços foram por vários motivos. "Alguns pensaram que a investigação ia demorar muito, por exemplo. Mas todas aconteceram nesse período de visita apostólica e intervenção", disse. "As pessoas não podem confundir o Mosteiro de São Bento, em sua totalidade, com os acusados", defendeu. "Vamos ficar com essa ferida, um corte, que vai cicatrizar, mas o corpo está saudável. Não existe erro de vivência na casa."

Pandemia atrasou investigação, diz monge

Brito afirma também que a crise da covid-19 atrasou a investigação e eventual punição. "As pessoas podem achar que demorou muito, mas nós não estávamos enrolando, como diz a linguagem popular. A pandemia atrasou o processo." Mesmo assim, ele diz que novos casos, se ocorrerem, serão tratados com mais rapidez. "Se acontecer de novo, seremos mais rápidos", disse o monge. "Além disso, precisamos olhar sempre para as vítimas", continuou.

Entenda o caso

Após mais de um ano de investigação, quatro religiosos (dois noviços e dois monges) do Mosteiro de São Bento foram acusados de abuso sexual pelo Ministério Público em junho do ano passado. Entre os denunciados por dois jovens, estão Rafael Bartoletti, conhecido como irmão Hugo; Marcílio Miranda Proença, chamado de Dom Francisco, que faleceu no ano passado de covid-19, além de João Baptista Barbosa Neto, conhecido como Dom João Batista.

Uma das vítimas, que contou que os abusos começaram quando ele tinha 16 anos, disse que o primeiro a assediá-lo teria sido Rafael Bartoletti. Outro rapaz, que trabalhava como alfaiate no mosteiro, afirma que foi vítima dos abusos aos 17 anos. O jovem entregou à polícia uma série de mensagens trocadas também com Rafael Bartoletti.

A vítima contou ainda que os religiosos costumavam abraçá-lo e descer as mãos até quase tocar suas nádegas. Ele alegou que pediu ajuda ao monge Marcílio Miranda Proença. Mas, segundo o rapaz, o sacerdote também passou a assediá-lo.

Em primeira instância, o processo foi extinto pela 8ª Vara Criminal da capital, que entendeu que o caso estava prescrito, pois as vítimas não haviam denunciado o crime à polícia no prazo de seis meses, como prevê a lei. Por outro lado, o MP avalia que a prescrição não se aplicava porque as vítimas eram menores de idade na época em que os crimes ocorreram. Neste caso, o prazo de prescrição só começa a contar após elas completarem 18 anos.

O Tribunal de Justiça acolheu o entendimento do MP e determinou o prosseguimento da ação penal. Ainda não há data para esse julgamento ocorrer.

Estadão
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