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Milicianos e traficantes entram em confronto em Santa Cruz, no Rio

Doze suspeitos foram presos e quatro pessoas ficaram feridas

8 out 2018
09h44
atualizado em 9/10/2018 às 17h02
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RIO - Um confronto entre traficantes e milicianos aterrorizou moradores do bairro de Santa Cruz, na zona oeste do Rio, na manhã desta segunda-feira, 8. Pelo menos quatro pessoas ficaram feridas. Outros dois baleados que deram entrada em um hospital na Barra da Tijuca estão sob investigação. Doze suspeitos foram presos.

O tiroteio impediu que muitos moradores do bairro saíssem para trabalhar. O confronto interrompeu a passagem de veículos na Avenida Cesário de Melo, uma das principais vias da região, na altura da Avenida Antares, informou o Centro de Operações da Prefeitura do Rio. A circulação de ônibus do corredor expresso BRT também foi temporariamente suspensa.

Policiais estão no entorno da Comunidade do Rola,em Santa Cruz, a fim de estabilizar a situação de confronto entre traficantes e milicianos
Policiais estão no entorno da Comunidade do Rola,em Santa Cruz, a fim de estabilizar a situação de confronto entre traficantes e milicianos
Foto: Reprodução Google Street View / Estadão

Imagens flagradas por um helicóptero da TV Globo mostravam cerca de 40 milicianos usando fardas parecidas com as da Polícia Militar e portando armamento pesado.

Segundo o delegado Claudio Ferraz, que foi chefe da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas, nomeado em 2007 com o intuito de combater as milícias, a tática de invadir territórios dominados por quadrilhas rivais usando uniformes tem pelo menos mais de uma década.

"A primeira vez que tive conhecimento dessa tática foi em 2006, usada por uma milícia que atuava em Campo Grande (bairro vizinho a Santa Cruz, onde ocorreram os confrontos)", contou Ferraz. "Eles faziam rondas, usavam uniformes. Eles replicam essa disciplina policial na milícia. Até porque policiais participam da milícia. Isso não é novidade", acrescentou.

Alertado sobre o confronto entre quadrilhas rivais, policiais do 27º Batalhão da Polícia Militar (BPM) fizeram uma operação nas comunidades do Rola e do Antares, em conjunto com agentes do 14º Batalhão e de unidades do Comando de Operações Especiais (COE), como Batalhão de Ações com Cães (BAC), Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e Grupamento Aeromóvel (GAM).

Até o fim da tarde, além dos doze suspeitos presos, quatro feridos tinham sido levados ao Hospital Municipal Dom Pedro II, no mesmo bairro. Foram apreendidos dez fuzis, três pistolas e quatro granadas, além de munições. Os policiais recuperaram na comunidade seis veículos: três vans, duas picapes e um carro de passeio.

Segundo informações da Polícia Militar, outros dois feridos deram entrada no Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, também na zona oeste, e estão sob investigação. Um deles carregava munições, o outro tinha mandado de busca e apreensão em aberto.

A Polícia Militar não informou se algum miliciano estava entre os presos. O delegado Claudio Ferraz lembra que a milícia é uma organização criminosa formada a partir de braços do Estado, por isso é tão perigosa, argumentou.

"Não tem como combater com a delegacia distrital ou com comandante de batalhão", defendeu Ferraz.

Segundo o delegado, os milicianos estão ignorando a intervenção federal na segurança do Rio. "São agentes do Estado", declarou. "Eles não temem, porque fazem parte do Estado, logo fazem parte dela."

"Desfilando às dezenas pelas ruas de um bairro populoso, os milicianos mostram que não temem repressão ou reação significativa das autoridades de segurança. Por cenas menos chocantes uma intervenção na segurança foi decretada no Rio, em fevereiro", disse Silvia Ramos , cientista social, coordenadora do Observatório da Intervenção da Universidade Candido Mendes.

Guerra entre milícia e tráfico em Santa Cruz entra em discurso de candidatos no Rio

A disputa por território entre milicianos e traficantes em favelas de Santa Cruz, na zona oeste do Rio, na manhã desta segunda-feira, foi abordada pelos dois candidatos ao governo do Estado que passaram para o segundo turno, Wilson Witzel (PSC) e Eduardo Paes (DEM). Ambos disseram ser necessário intensificar o combate às milícias, que vêm avançando nos últimos dez anos em comunidades antes dominadas pelo tráfico de drogas e também naquelas onde não havia este tipo de ação criminosa.

A investida de milicianos nas favelas do Rola, Antares, Cesarão e Aço contra traficantes foi filmada pelo helicóptero da TV Globo. Nas imagens, é possível ver 18 homens vestidos de preto, como se fossem policiais, portando fuzis e caminhando pelas ruas. Não há moradores à vista - eles estavam dentro de casa, apavorados, sem poder sair para o trabalho nem para levar os filhos à escola.

"Se fosse no meu governo, (a milícia) não estava entrando, não estava desfilando de fuzil na rua. Vamos investigar a lavagem de dinheiro, identificar quem está comprando armas e drogas e alimentando o crime organizado. Vamos tirar o dinheiro deles e agir com rigor", disse Witzel, em agenda de campanha na Central do Brasil.

"Tem que prender todo mundo, do tráfico e da milícia. E tem que olhar com mais calma a interferência desse jogo de milícias no processo eleitoral", afirmou Paes, caminhando por Belford Roxo, na Baixada Fluminense. "Ambos têm que ser combatidos no meu governo. Não tenho medo de bandido, de cara feia. Foi assim na prefeitura do Rio. Não tem negócio de endurecer, como gestor já provei que sou duro o suficiente. Vou respeitar o direito das pessoas e proteger os cidadãos. Estou há 25 anos na vida pública, já fui ameaçado algumas vezes e nunca fugi correndo".

Estadão

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