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Líder do PCC ordenou morte de PM em Paraisópolis, afirma promotoria

Acusado, já preso, teria dado ordem pelo WhatsApp para que membros da facção criminosa "sumissem" com policial que bebia em bar na comunidade da zona sul

8 out 2018
13h17
atualizado em 10/10/2018 às 12h32
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A soldado da PM Juliane dos Santos Duarte, de 27, foi sequestrada, torturada e morta por ordem de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), segundo o Ministério Público de São Paulo (MP-SP). De acordo com a denúncia, a policial também teria sido obrigada a ingerir álcool e cocaína antes de ser executada com um tiro na cabeça.

Três pessoas foram denunciadas pelo MP-SP por suspeita de participação no crime, ocorrido em agosto, em Paraisópolis, na zona sul da capital. O trio está preso preventivamente, mas haveria ao menos outros dois envolvidos que ainda não foram identificados, segundo a promotoria.

Corpo foi encontrado durante a madrugada na Rua das Goiabeiras, em Paraisópolis
Corpo foi encontrado durante a madrugada na Rua das Goiabeiras, em Paraisópolis
Foto: Reprodução Google Street View / Estadão

Entre os alvos da denúncia, Everaldo Severino da Silva Felix, o "Sem Fronteira", ocuparia a função de "sintonia" do PCC em Paraisópolis, segundo as investigações. Para o MP-SP, ele teria liderado o crime contra Juliane e dado ordem para "sumir" com a PM.

Após o desaparecimento da policial, "Sem Fronteira" ficou escondido em um barraco da comunidade. No momento da prisão, ele teria tentado se desfazer de três celulares, jogando-os em um vaso sanitário, mas os aparelhos foram recuperados e apreendidos.

Neles, os investigadores encontraram mensagens de Whatsapp que indicariam a participação de "Sem Fronteira" no crime. "Tem que sumi, quanto mais rápido possível, falei po, po Tufão, o Tufão tá ligado aqui, digo ô mano, já tem que sumi daí, bye bye, pa bem longe, tá querendo sabe para onde que vai... já tá confirmado que é militar memo e pá suma, entendeu ô veinho", dizia uma mensagem enviada no dia 2 de agosto, data do desaparecimento de Juliane.

Também foram denunciados Felipe Oliveira da Silva, o "Tirulipa", e Elaine Cristina Oliveira Figueiredo, a "Neguinha" - esta última é apontada como liderança do tráfico em Paraisópolis e "dona" de uma biqueira do PCC. Eles respondem por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, recurso que impossibilitou defesa da vítima e praticado contra agente de segurança), além de cárcere privado, tortura e organização criminosa.

"O crime ocorreu porque a vítima Juliane encontrava-se armada, dentro de uma Comunidade controlada por uma organização criminosa, o que afrontou as suas lideranças", diz o promotor Fernando Cesar Bolque, na denúncia.

Crime. No dia 1.º de agosto, Juliane foi beber com amigas em um churrasco em Paraisópolis. À noite, foi buscar cerveja no Bar Litrão Novo, na Rua Melchior Giola, mas acabou ficando no local, onde foi identificada como policial militar.

Pouco tempo depois, quatro suspeitos apareceram no bar - entre eles estavam "Tirulipa" e "Neguinha", segundo o MP-SP. Eles teriam perguntado quem estava armado e rendido a PM Juliane. Laudos periciais apontam que ela foi vítima de dois tiros na região da virilha e levada do bar.

"Tirulipa" foi reconhecido por testemunha como um dos criminosos que renderam a PM. Ele também foi identificado após análise de imagens de câmeras de segurança como o responsável por abandonar a motocicleta de Juliane fora de Paraisópolis.

Já "Neguinha" teria ajudado o comparsa a se desfazer da moto do policial. Em interrogatório, ela teria confessado participação nesse ato, mas alegado "não saber do que se tratava". Segundo o MP, ela também teria sido delatada por uma testemunha protegida.

Ferida, Juliane teria sido levada para um cativeiro e mantida viva por pelo menos três dias. "Foi submetida a tortura mediante emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal", afirma a denúncia.

Lesões analisadas por peritos apontam que Juliane foi espancada e mantida em um local molhado. Exame toxicológico também detectou presença de droga no sangue da vítima, ingerida horas antes de ser morta. "Durante os momentos que ela estava sendo torturada, eles também a obrigaram ao uso de álcool e de cocaína."

O corpo da PM foi encontrado no porta-malas de um Honda Civic em Campo Grande, também na zona sul, com uma marca de tiro à queima-roupa na região do crânio. Nenhuma arma usada nos crimes foi localizada pela polícia.

O MP-SP não sabe se os três acusados participaram diretamente da tortura ou da execução da policial. Por isso, o trio foi denunciado por "concorrer" para que os crimes acontecessem. Para cada um, as penas máximas previstas somam mais de 50 anos.

O Estado não conseguiu localizar os advogados dos acusados.

Estadão

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