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Grupo católico Arautos do Evangelho recusa intervenção do papa Francisco

Investigações vaticanas tiveram início há dois anos, quando um vídeo mostrava o fundador dos Arautos, João Clá, citando um suposto interrogatório de um demônio

23 out 2019
05h11
atualizado às 05h38
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Acuados por denúncias dentro e fora da hierarquia religiosa, os Arautos do Evangelho informaram não reconhecer a intervenção determinada pelo Vaticano. Em nota oficial, no dia 19, a associação diz não reconhecer como delegado pontifício de sua instituição o cardeal Raymundo Damasceno Assis, nomeado pelo papa Francisco.

Segundo o presidente dos Arautos, Felipe Eugênio Lecaros Concha, existe "absoluta invalidez e inteira ilegalidade de tal decreto", que apresenta "erros fundamentais". Em comunicado assinado pelo presidente, a associação admite ter recebido d. Damasceno e d. José Aparecido Gonçalves, bispo auxiliar de Brasília, na sexta-feira, 18. "Nós lhes reverenciamos como bispos da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, e como tais ambos são objeto de nossa consideração, mas devemos declarar que não reconhecemos Vossa Eminência enquanto 'comissário' da Associação Privada de Fiéis Arautos do Evangelho, da qual eu sou o presidente legitimamente eleito."

Concha alegou que os documentos apresentados pelos emissários do Vaticano se dirigem a uma "associação pública de fiéis", enquanto a associação tem fins privados. "A diferença de natureza entre uma e outra é essencial, eminência. É como se um oficial de justiça se apresentasse na residência de 'Antônio da Silva' com uma notificação para 'Pedro Rodrigues'. O Sr. Antônio não deveria receber tal notificação judicial, pois houve um erro de pessoa. De modo semelhante, os Arautos do Evangelho não podem receber um decreto dirigido a outra associação."

Os Arautos alegam ainda que a determinação de um comissário para a instituição "infringiria o direito sacro e inviolável dos fiéis de associarem-se na Igreja com os próprios estatutos e as próprias autoridades". O texto chega a citar uma decisão do Tribunal de Relação de Coimbra, em Portugal, de 17 de maio de 2011, que por votação unânime, decidiu que "as associações privadas de fiéis estão sujeitas à vigilância das autoridades eclesiásticas competentes, porém não pode a autoridade eclesiástica competente, a coberto desse dever de vigilância, designar comissários que representem a Associação." Eles também afirmam que d. José teria acolhido as queixas, que seriam levadas ao Vaticano.

As investigações vaticanas tiveram início há dois anos, quando um vídeo divulgado nas redes sociais mostrava o fundador dos Arautos, João Clá, citando um suposto interrogatório de um demônio, no qual alegava ter poder sobre o papa Francisco. Clá deixou as atividades na associação.

Pesam ainda sobre os Arautos denúncias de pelo menos 40 pessoas de abuso psicológico, humilhações, assédio e estupro - na sede oficial, em Caieiras. Segundo a TV Globo, que divulgou o caso, haveria também investigações do Ministério Público a respeito.

Na nota oficial, os Arautos dizem ter tratado do assunto com os bispos e afirmam ser vítimas de perseguição pela mídia. O texto fala em "linchamento moral, eivado de preconceitos antirreligiosos", "da parte de certos veículos de comunicação, visceralmente seduzidos pela tentativa de comissariado". "Tal campanha tem causado danos morais irreparáveis."

Associação nega as denúncias de supostos abusos

Representantes da Associação Arautos do Evangelho negam as denúncias de supostos abusos sexuais, lavagem cerebral e torturas psicológicas. Um porta-voz da instituição recomendou que ao Estado assistir a um vídeo da entrevista dada à reportagem do Fantástico por seus representantes, em que todas as denúncias são rebatidas pelo padre Alex Barbosa de Brito, membro e conselheiro da instituição.

No vídeo gravado por eles, o padre afirma que as denúncias de abusos psicológicos feitas por ex-alunos são genéricas e não correspondem à verdade. "Quando alguém faz algo errado, a gente chama e corrige. O capítulo de faltas é um regramento interno da instituição, mas consiste em discutir com os alunos os pontos que devem ser melhorados. É uma advertência que é dada dentro dos limites cristãos, e isso apenas para os alunos maiores de idade."

Sobre o caso de suposto assédio em que uma aluna teria sido beijada na boca pelo religioso fundador do Arautos, denunciada à Polícia Civil de Francisco Morato (SP), o padre Alex afirmou que a denúncia é caluniosa. "Boletim de ocorrência é um primeiro passo, um ato unilateral de alguém que vai na delegacia e faz uma denúncia." Segundo ele, a denúncia é falsa e, quando a investigação for concluída, será comprovada a denunciação caluniosa.

Já sobre um vídeo em que um interno aparece sendo exorcizado, o padre afirmou houve a exploração de um vídeo que não era para ser exposto. Segundo ele, o exorcismo privado pode ser feito por qualquer sacerdote. "A Igreja reconhece a existência do demônio e sabe que ele é o inimigo a ser combatido. A Igreja tem a obrigação de atender uma pessoa que se diz tomada por um espírito maligno, mas tem de usar o bom senso. O que é dado é uma bênção para a libertação dessa pessoa."

Padre Alex chegou a lembrar o caso da Escola Base, em que os donos de uma escola foram injustamente acusados de abuso sexual contra alunos, com grande acompanhamento da imprensa. Depois de a escola ter sido obrigada a fechar, em razão da revolta da opinião pública, ficou provado que eles eram inocentes. "Estamos diante de uma campanha de difamação da instituição, feita por desafetos, onde a Igreja Católica está no foco e nossa instituição em particular", disse.

A Associação Arautos do Evangelho é uma sociedade de vida apostólica aprovada pelo Vaticano, que chama a atenção pelo visual de seus membros. Homens, mulheres e adolescentes calçam botas de cano longo e vestem túnicas de estilo medieval, com uma cruz desenhada no peito.

Estadão
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