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'Gostaria de entender de onde vem tanta intolerância', diz entregador chamado de 'macaco' em Goiânia

Cliente barrou entrada de trabalhador em condomínio no último domingo por ele ser negro e pediu que o estabelecimento mandasse 'entregador branco'; polícia investiga racismo

28 out 2020
21h31
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SOROCABA - O entregador Elson Oliveira, de 39 anos, barrado por uma cliente e chamado de "macaco" quando tentava entrar em um condomínio de Goiânia, disse que vai "até o fim" para que a autora da ofensa racial seja punida. "Quero ser a última pessoa a passar por isso. Estou muito triste, mas não vou deixar passar. Vou levar até o fim", disse ao Estadão nesta quarta-feira, 28. Registros de um aplicativo de entrega de comida mostram frases ditas pela autora das mensagens, como "esse preto não vai entrar no meu condomínio", e um pedido para que fosse enviado um "entregador branco".

O caso aconteceu no domingo, 25, e teve grande repercussão. A mulher havia feito um pedido a uma hamburgueria por meio do aplicativo iFood e, quando a gerente da lanchonete, Ana Carolina Gomes, pediu que ela liberasse a entrada do entregador, enviando a foto dele, ela se recusou. "Esse preto não vai entrar no meu condomínio. Mandar outro motoboy que seja branco", escreveu. Em seguida, reforçou a ofensa. "Eu não vou permitir esse macaco", disse. A gerente reagiu dizendo que o pedido não seria entregue, pois não tolerava racismo. "Adeus. Não uso restaurante judaico", respondeu a mulher.

Inconformado com o gesto da cliente, o dono da hamburgueria, Éder Leandro Rocha, levou o caso a público, criando grande repercussão. Elson só tomou conhecimento das ofensas após ser informado pela gerente. Ele foi obrigado a retornar com a entrega. "Embora tenha ficado muito triste, eu até pensava em deixar para lá, mas ser chamado de macaco por causa da cor é muito forte, dói muito. Se não faço nada, o que minhas filhas vão dizer no futuro? Gostaria de olhar no olho dessa mulher e tentar entender de onde vem tanta intolerância."

O motoboy, a gerente e o dono da hamburgueria já foram ouvidos pela Polícia Civil. A delegada Sabrina Leles, da delegacia especializada em crimes cibernéticos, que investiga o caso, usou os dados fornecidos pelo app para chegar à possível autora das mensagens. Segundo ela, há a hipótese de o agressor ter usado um perfil falso. "Temos as informações técnicas da conexão, os dados do usuário que fez a encomenda e a conversa com a empresa fornecedora, da qual se depreende possível crime de racismo. No entanto, os dados são divergentes, podendo ter sido usado um perfil falso." Segundo ela, a investigação tenta identificar quem produziu as mensagens ofensivas.

Entregador há 12 anos, separado, pai de três meninas, Elson disse que nunca viveu uma situação assim. "Meu pai faleceu quando eu tinha 13 anos e, desde então, trabalhei muito para sustentar minha família. Acho que não mereço. Ninguém merece ser tratado dessa forma. Minha mãe ficou muito triste de saber que ainda tem gente assim e está me apoiando. Sou muito grato ao meu patrão estar me acompanhando em tudo e às pessoas que se solidarizaram comigo."

Categoria faz manifestação contra o racismo

Na noite de terça-feira, 27, cerca de 100 entregadores fizeram uma manifestação de protesto em frente a um dos portais de entrada do condomínio, gritando palavras de repúdio ao racismo e exigindo a punição da autora. A Polícia Militar deslocou viaturas para acompanhar o ato, que foi pacífico. A coordenadora nacional do Movimento Negro Unificado (MNU), Iêda Leal, participou e pediu que as pessoas reajam à violência racial, denunciando os agressores.

O iFood informou que a mulher foi identificada e retirada do cadastro de clientes da plataforma. O app entrou em contato com o entregador e ofereceu suporte psicológico, o que foi confirmado pelo rapaz. O nome da cliente que fez o pedido foi fornecido à polícia. O iFood informou que preza pelo respeito à diversidade e repudia qualquer discriminação, colocando-se à disposição das autoridades responsáveis pela apuração do caso.

A Sociedade Amigos do Aldeia do Vale (Saalva), responsável pela administração do condomínio, disse que a mulher que ofendeu o entregador não está nos quadros de moradores. Segundo a empresa, o nome da cliente fornecido pelo iFood não teria passado pelas suas portarias e que, possivelmente, se trata de um trote. Disse ainda ter se colocado à disposição das autoridades para esclarecer o caso. "A Saalva repudia qualquer ato de discriminação e racismo que ocorra dentro e fora de seu perímetro", declarou, em nota.

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Estadão
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