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Geração pandemia: jovens reinventam vida pessoal e trabalho para contornar a crise 

Perda de emprego e dificuldade de pagar estudos afetam grupos nas faixas dos 20 e 30 anos; sair da casa dos pais também se torna um desafio

27 out 2020
18h01
atualizado às 19h41
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Sair da casa dos pais. Entrar na faculdade. Investir na carreira. Pagar todas as contas. Morar fora. Empreender. Casar. Começar uma família. Enfim, tornar-se independente. Tantas novas experiências em tão pouco tempo. Para a juventude, um semestre ou um ano é muito, ainda mais quando vem junto do distanciamento, do isolamento, do desemprego, das dificuldades financeiras, das incertezas, do temor e tudo mais que a pandemia traz.

Por aqui e lá fora, ganhou espaço o termo "geração pandemia", referente a esse grupo que nasceu cheio de expectativas para liderar um futuro melhor e agora se deparou com a maior crise de saúde do último século. No Brasil, as experiências vividas por jovens adultos em 2020 são influenciadas por desigualdades e outros tantos fatores. Vão de grandes dificuldades e planos congelados até redescobertas e mudanças que deram certo.

"Tinha planos de conseguir terminar a faculdade 'de boas' logo, arrumar estágio e me mudar. Mas a minha vida virou de cabeça para baixo", conta o estudante de Enfermagem Lucas Lino Pinheiro, de 21 anos, que vive em São Paulo. Demitido de um emprego em telemarketing em maio, não conseguiu recolocação profissional, trabalhos temporários, estágio remunerado ou acesso ao auxílio emergencial.

Ele teve de desistir da ideia de não morar mais com a mãe e a avó. "A minha perspectiva é que, no próximo ano, seja a mesma coisa, talvez pior", lamenta. "Minha mãe não sofreu os efeitos (econômicos) da pandemia. Se tivesse, nem sei onde estaria hoje." Ele continua na faculdade porque a matriarca passou a bancar a mensalidade.

Para não ficar parado, ampliar a experiência profissional e compensar a falta de aulas presenciais, Lucas começou a trabalhar de forma voluntária, há três meses, em um posto de saúde e, posteriormente, em um hospital público. "Entrei 'meio' em depressão por ficar em casa o tempo todo; estava ficando para baixo, sem ânimo. Foi uma forma de reagir", diz. "Sinto prazer em ajudar."

De app de entrega a marmita caseira, jovens procuram alternativa de renda

Também com 21 anos e da capital paulista, Luana Cyrillo viveu mudanças ainda mais intensas, especialmente há dois meses. "Para mim, a pandemia foi boa. Saí de um relacionamento que estava ruim, tomei uma liberdade grande, ganhei meu dinheiro e tive a possibilidade de conseguir um lugar para morar com a minha filha (Kerolayne, de 1 ano)", relata.

Luana conseguiu se mudar com o que recebeu em transmissões ao vivo pelo TikTok, aplicativo popular entre adolescentes e jovens e que permite que seguidores deem "gorjetas" pelo conteúdo. "Comecei a fazer bastante vídeo, peguei muitos amigos. Conversava (nas lives) sobre o meu dia a dia, a minha filha, respondia coisas que me perguntavam", explica.

Agora, a jovem obtém renda com a venda de bolos caseiros e a nova rotina como entregadora de aplicativo. "Tive essa ideia vendo o canal dessa menina (que exerce a mesma ocupação) no YouTube. Aí me falaram que dava para fazer de bicicleta."

Os primeiros meses deram resultado e ela até planeja comprar uma moto, para ampliar as entregas. "É bom que tem horário flexível, por causa da minha filha", comenta. "Trabalho de terça a sábado, às vezes de domingo a segunda. Normalmente saio às 10 (horas) e volto às 8, 9, às vezes 10, da noite. É o dia inteiro mesmo."

Com a mudança, ela viveu mais um momento marcante na vida de grande parte das mães: o de voltar a trabalhar fora. Por isso, agora convive menos com a filha, que agora passa os dias na casa de uma babá."Ela sempre ficou comigo até eu me separar. Foi o primeiro contato de ela ficar longe de mim."

Todos os dias, quando as duas voltam para casa, é a hora do banho e de colocar todas as roupas para lavar - sem contar a desinfecção dos acessórios da bicicleta. Desse jeito, o entretenimento fica reservado aos domingos. "O lazer é só da minha filha. Levo para praças que não têm tanta gente ou trago na minha mãe, que sei que é mais seguro."

Ela diz que se encontrou e percebeu talentos na pandemia, como o da comédia, que explora nos vídeos no TikTok, e até aperfeiçoou as próprias receitas de bolos. "Tem sido tranquilo. Acho que a gente tem que tirar esse tempo para refletir sobre nós mesmos. Às vezes, a gente fica muito na bagunça, pela idade, o que é normal."

A frase de Luana também resume o momento da maquiadora e designer de sobrancelhas Karimã de Souza Santos, de 25 anos, e da arquiteta Marina Silva da Fonseca, de 26 anos, de São Paulo, que descobriram um novo ofício, criando a marca Cumbuka, de refeições em cumbucas. "Somos de áreas totalmente diferentes, não imaginávamos nem por um pouco parar na gastronomia", conta Karimã.

Elas investiram na nova empreitada após Marina ficar desempregada e Karimã ver a procura de clientes minguar. Além disso, com o início do distanciamento social, decidiram passar o período juntas, após oito meses de namoro. "Fomos casadas pela pandemia."

Após começar a fazer terapia, para lidar com as consequências da pandemia, a maquiadora se descobriu na gastronomia. Ela, que antes dizia não cozinhar bem, começou a se envolver e até a criar pratos. "A Cumbuka ainda não supre a gente para pagar todas as contas. Mas já fizemos vários planos. A gente começou a sonhar mais."

Os clientes vieram com um empurrãozinho de amigos, familiares e das redes sociais. Mesmo com a flexibilização da quarentena e a retomada de alguns trabalhos como freelancer, elas querem seguir com a marca. "Agora, a gente não consegue alugar um lugar, pelo custo muito alto, mas talvez com Cumbuka crescendo mais… A gente já pensou como seria, despojado, com a nossa cara."

O produtor de eventos Wil Amiden, de 31 anos, passou por experiência semelhante. Demitido em março, foi obrigado a trocar a rotina profissional de até quatro festas por semana por dias inteiros dentro de um apartamento. "Esse ano, já tinha a agenda cheia de eventos. O meu setor foi o primeiro a fechar e vai ser o último a voltar", destaca.

"Nisso, fiquei um mês, um mês e meio, muito mal, sem chão, sem saber o que fazer. Ninguém estava contratando. Estava ganhando bem e, do nada, acaba tudo", lembra. "Tranquilidade eu não vi. Tive medo de perder tudo o que tinha conquistado. Eu me senti sozinho. Juntou com o meu pai tendo de fazer uma operação, precisei começar terapia."

Também pela pandemia e para ajudar no aluguel, Wil passou a morar com o namorado (além do irmão, com quem já dividia um apartamento) e recebeu uma amiga temporariamente. Aí veio a ideia de fazer marmitas saudáveis para vender, que virou a Mango Rosé. "Primeiro teve a insegurança. O 'startar' demorou muito. Pensei no início da pandemia, mas só tive coragem depois de três meses."

Com o aumento da demanda, ele já pensa em se dedicar em tempo integral ao projeto, mesmo após a pandemia, com a criação de uma dark kitchen (cozinha exclusivamente para entregas). "A gente nunca imaginou que estaria em uma pandemia, que o mundo iria virar de cabeça pra baixo. Querendo ou não, ela me transformou. Tive uma trajetória de sofrimento, mas, através de toda dor, vem a transformação. Me tornei uma nova pessoa."

Outro que se debruçou sobre o empreendedorismo foi o ator Junior Cabral, de 35 anos, de São Paulo, que tinha acabado que idealizar a marca de roupas Die Vibe (com tingimento artístico a tinta, que segue uma tendência que ganhou espaço pandemia) quando viu todos os espetáculos em que atuaria serem suspensos. "De repente, tudo virou outra coisa." "Me propus a aprender do zero. Não sabia fazer nada, não sabia costurar, não sabia absolutamente nada. Perguntava para uma pessoa, para outra, assisti muitos vídeos no YouTube. Hoje, (cada peça) é quase como se fosse um filho."

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Estadão
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