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Fala do papa sobre homoafetivos trata de dignidade e respeito, diz presidente de comissão da CNBB

Bispo diz que mensagem de Francisco transmite 'serenidade' aos membros da Igreja para lidar com temas complexos; pontífice defendeu união civil gay em filme

23 out 2020
14h10
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BRASÍLIA - O apoio do papa Francisco ao avanço da união civil de casais gays, revelado no documentário Francesco, recém-lançado em Roma, desperta uma reflexão sobre a forma como são tratadas as pessoas que sofrem discriminação e preconceito, avalia o bispo Dom Ricardo Hoepers. Presidente da Comissão para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ele diz que o papa mostrou estar de "coração aberto" aos sofrimentos de pessoas LGBT e transmitiu ao clero "serenidade", ao tratar de um tema tão complexo para a Igreja.

Dom Ricardo Hoepers, presidente da Comissão para a Vida e a Família da CNBB
Dom Ricardo Hoepers, presidente da Comissão para a Vida e a Família da CNBB
Foto: Divulgação/CNBB / Estadão

"É uma fala sobre dignidade e, acima de tudo, de respeito que devemos ter para com todas as pessoas", disse o titular da Diocese de Rio Grande (RS), em entrevista por escrito ao Estadão. "É para refletirmos sobre nosso nível de sensibilidade e humanidade em relação àqueles que sofrem discriminação e preconceito a ponto de serem excluídos de suas famílias e dos direitos sociais."

Leia entrevista a seguir

Como o senhor e demais bispos receberam o posicionamento do papa?

O papa Francisco é muito sincero, voltado às questões reais da vida cotidiana, e tem uma sensibilidade pastoral tão aguçada que nos impressiona com seu nível de humanidade. Trata-se de uma palavra em um documentário e, portanto, o papa fala com o coração aberto sobre os reais sofrimentos das pessoas de condição homoafetiva. Em uma sociedade que exclui com preconceitos e violência, é uma fala sobre dignidade e, acima de tudo, de respeito que devemos ter para com todas as pessoas.

O que essa frase do papa transmite para a Igreja?

Transmite muita serenidade em lidar com temas complexos. O papa é o homem do diálogo, ele sabe ouvir, porque conviveu com as pessoas nas periferias geográficas e existenciais, quando era bispo na Argentina. Seu olhar, em primeiro lugar, é de reconhecer a dor. Por isso, fala da misericórdia e compaixão e, nos chama, como na última encíclica (Fratelli tutti), a sermos todos irmãos.

Qual o significado de o papa ter reconhecido o "direito a ter família" de homossexuais?

Primeiro, por causa das condições que, em alguns países, muitas pessoas de condição homoafetiva se encontram: abandonadas pelas suas famílias, discriminadas pela sociedade e à margem dos direitos de terem uma cidadania respeitada. Em segundo, porque essa condição discriminatória pode levar à violência e à exclusão social. Portanto, diante desses perigos, o papa entende que a lei deve buscar garantir a seguridade que toda pessoa merece por ser cidadão de direitos.

Esse posicionamento ocorre no momento em que o papa é alvo de campanhas políticas contra si, inclusive de católicos identificados como mais conservadores. Pode despertar mais oposição a ele?

Não acredito que uma palavra dita, dentro de um contexto de um documentário, sobre direitos humanos, possa causar uma oposição. Ao contrário, o papa Francisco se tornou uma voz profética e de grande liderança. Graças ao seu humanismo e humildade, ele vem mostrando que o mundo precisa de diálogo e isso pode salvaguardar os mais vulneráveis do mundo inteiro, como no caso quando ele defendeu a minoria muçulmana no Myanmar.

Essa declaração abre discussão mais ampla na Igreja, com mudanças na doutrina ou dogmas em relação ao casamento em si?

Não, nada muda. Em nenhum momento o papa falou sobre esse assunto do ponto de vista doutrinal ou dogmático. Sobre família, ele já realizou dois sínodos e escreveu uma exortação apostólica pós-sinodal chamada Amoris laetitia. Esse documento afirma que continuamos a caminhar em pleno acordo com a tradição da Igreja sobre a sacralidade do matrimônio e sua dignidade no plano de Deus: "o matrimônio cristão, reflexo da união entre Cristo e a Igreja, realiza-se plenamente na união entre um homem e uma mulher, que se doam reciprocamente com um amor exclusivo e livre fidelidade, se pertencem até a morte e abrem à transmissão da vida, consagrados pelo sacramento que lhes confere a graça para se constituírem como Igreja doméstica e serem fermento de vida nova para a sociedade (Amoris laetitia, n. 292). Portanto, a frase do papa no documentário é para refletirmos sobre nosso nível de sensibilidade e humanidade em relação àqueles que sofrem discriminação e preconceito a ponto de serem excluídos de suas famílias e dos direitos sociais. Está falando, enfim, das nossas coisas humanas que temos de melhorar e acreditar em um mundo melhor, onde haja a globalização da solidariedade, sem discriminação e violência contra o ser humano. É tempo de cuidar, cuidar de todos!

Por que levantar tal discussão neste momento do pontificado de Francisco?

Não entendo como "discussão nova" ou diferente de tudo o que o papa já vem anunciando em seu pontificado. Tudo o que ele disse está em coerência com sua proposta e seu carisma. Desde o início, ele cita a globalização da indiferença e critica o modus vivendi na qual a sociedade está se desmanchando em seus valores. O papa nunca deixou de se pronunciar sobre aqueles que sofrem algum tipo de discriminação ou violência. Ele se tornou a voz dos que se tornaram invisíveis nas periferias geográficas e existenciais.

É uma frase que avança em posições anteriores do papa Francisco sobre o tema?

Não. Só confirma sua sensibilidade para as questões humanitárias de respeito à dignidade humana. Ao falar dos direitos das pessoas homoafetivas, dentro do contexto do documentário, quis confirmar que ainda existe, em muitos lugares do mundo, pessoas discriminadas, violentadas, abandonadas e até mortas por causa de sua condição homoafetiva. Isso fere diretamente o respeito à dignidade humana, ao mandamento do amor ao próximo e a fé que temos que todas as pessoas são amadas e queridas por Deus.

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