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Bisneta preserva casa centenária de imigrante italiano em São Paulo

'Guardiã' da Casa Amarela, Janice de Piero acaba de conseguir aprovação do tombamento da residência, uma das mais antigas da Vila Romana, zona oeste paulistana

27 nov 2021 17h07
| atualizado às 21h12
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Do alto de uma ladeira, uma casa centenária é uma das raras testemunhas remanescentes do início do arruamento e urbanização da zona oeste de São Paulo. A residência resistiu ao tempo, mas não sem viver a degradação e até ser alvo de boatos de mal-assombrada, situação que passou a mudar a partir dos anos 1990, com a chegada da "guardiã", que lhe trouxe um novo nome: Casa Amarela da Vila Romana.

O espaço hoje está recuperado e preservado. A arquitetura originalmente simples, com fachada neoclássica, tornou-se um dos motivos para que seja visto como uma joia do bairro, e da cidade. O reconhecimento não é apenas popular, mas também oficial, com o tombamento aprovado na última segunda-feira, 22.

Na decisão, o conselho municipal de patrimônio destacou o caráter "cultural, artístico e, em especial, afetivo" da casa para a população. A fim de garantir a visibilidade do imóvel, o terreno vizinho não poderá ter construções com altura superior a cinco metros, enquanto os demais estão liberados para a verticalização dentro dos limites legais.

A residência data de 1921, erguida em um sítio do imigrante italiano Angelo de Bortoli e familiares, a fim de ser residência de aluguel a conterrâneos. A propriedade foi passada de geração a geração até chegar à "guardiã", a artista Janice de Piero, de 63 anos, bisneta do primeiro dono e moradora da Vila Romana por praticamente toda a vida.

Ao se casar, Janice se mudou para o endereço, onde há duas residências, iniciando uma série de reformas paulatinas, com o trabalho braçal de parentes. O imóvel principal tem a fachada frontal amarela, com o topo triangular (de influência neoclássica), com esquadrias de madeira pintadas de verde. A porta de entrada e as janelas são abertas para a rua, sem haver muros ou outras barreiras.

Internamente, não há corredores entre os três cômodos: sala, quarto e cozinha. Há ainda um banheiro, originalmente externo. "Não tem nada que as casas hoje em dia têm, com grades, proteções. É de um outro tempo. Eu mesma, quando olho (para a residência), parece que entro para outra dimensão", descreve a artista.

A Casa Amarela foi, aos poucos, transformada parcialmente em ateliê. Com o restauro, passou a chamar mais atenção e tornou-se também uma referência local para atividades socioculturais, como rodas de conversa, clubes de leitura e exposições. "Todo mundo queria ver como é, então comecei a abrir para as pessoas", relata.

A verticalização do bairro também contribuiu para o destaque do espaço. "Várias casinhas lindas foram se perdendo. A minha passou a ser valorizada pelas pessoas. Começaram a manifestar apreço pela casa e me dando parabéns por conservar", comenta Janice. "Percebi que o meu trabalho tinha que estar relacionado a essa casa."

Ao longo dos anos, além de outras atividades, o espaço recebeu exposições e projetos artísticos relacionados com a vizinhança. Um deles reuniu, por exemplo, móveis e objetos antigos para remeter a como era a vida no espaço há quase 100 anos. Outro reuniu moradoras idosas do bairro para tratar sobre a relação com as próprias residências, a vizinhança e as transformações urbanas.

Ela descreve o trabalho como de "arte relacional", por envolver uma aproximação com a trajetória da casa e do bairro, com cunho também político, por se opor a um desenvolvimento urbano que ignore a memória e os afetos. "Esta casa não é só minha, tem a história de todo mundo, principalmente das pessoas mais velhas do bairro. Não é só para ser bonita. É uma casa de resistência."

Reconhecimento

Hoje, há ainda residências horizontais no entorno, mas a paisagem de edifícios e o enfraquecimento da memória operária causou desconforto em parte da vizinhança, especialmente a mais antiga. Hoje, na Vila Romana, há outros quatro tombamentos de bens da primeira metade do século passado: a Sociedade Beneficente União Fraterna, o conjunto da Igreja São João Maria Vianney (templo católico e sobrados geminados), a antiga Fábrica Companhia Melhoramentos e o conjunto de seis casarios da Rua Coriolano.

Foi neste contexto que Janice decidiu pedir o tombamento da casa, em 2017, acatado na última segunda após estudos do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH), da Prefeitura, e aval do conselho responsável (o Conpresp). A decisão deve ser celebrada em uma cerimônia mais simbólica, devido à pandemia, que também postergou a maior parte das atividades para 2022.

A abertura do pedido pela artista não enfrentou tantas dificuldades, pois ela já tinha um acervo próprio de fotos e documentos sobre o espaço, colhido por si e por familiares, incluindo um livro de quase 50 anos atrás, escrito por um tio-avô. "Como vivi no meio da família, todo mundo morando perto, tinha muita vivência, história, uma alegria de ser italiano. Sempre contavam muita coisa pra gente."

Do "bisnono", como diz, sabe que chegou ao Brasil no fim do século 19, com então 18 anos, sem dinheiro, analfabeto e às próprias custas, sem passar pelo serviço de imigração ou pela antiga hospedaria do Brás. "Olha que corajoso", orgulha-se. Ela conta causos de quando ele ficou horrorizado com a experiência com um frigorífico e o período em que foi chofer de tílburi (carruagem).

Janice também entrevistou ao longo dos anos antigos moradores que cresceram na residência. Da própria infância, lembra de entrar na Casa Amarela todo mês com a avó paterna, para colher o pagamento do aluguel, quando reparava na luz fraquinha de um tempo sem energia elétrica. "Quando resolvi morar nela, sonhava muito que faltava pedaço, que estava meio torta, era uma coisa meio fantasmagórica."

Hoje, contudo, considera a residência a sua maior obra enquanto artista, arte educadora, professora e cidadã. "As coisas giram em torno dela. Essa casa é importante pra minha vida. E pra cidade."

Como pedir um tombamento em São Paulo?

Qualquer pessoa pode abrir o pedido de estudo de tombamento de um bem na cidade de São Paulo, independentemente de ter a propriedade. É possível fazer o procedimento pelo site do 156, no qual é obrigatório o fornecimento de informações pessoais básicas (nome, contato etc.) e dados do imóvel (como endereço, justificativa e fotografias), além de ser opcional enviar documentação histórica ou bibliográfica. Não há cobrança de taxas.

Após o processamento do pedido no sistema, em até 60 dias, deve ser encaminhado para o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH), que poderá solicitar dados complementares. A divisão da Secretaria Municipal de Cultura enviará, então, o pedido de abertura de estudo de tombamento ao Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), para deliberação em reunião pública.

Se aprovada a solicitação, o bem receberá um tombamento provisório até a decisão final, enquanto o DPH fará um estudo técnico mais aprofundado. O resultado do novo levantamento dará origem a um parecer enviado novamente ao conselho, que designará um relator e colocará o tema em pauta, com a possibilidade de arquivamento. O prazo de tramitação varia. No caso da Casa Amarela, foram quatro anos de espera, mas há exemplos com duração inferior e superior. Entre os critérios avaliados, estão relevância histórica local, arquitetônica, cultural, arqueológica e/ou ambiental. O bom estado de manutenção pode influenciar, mas não é decisivo.

Estadão
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