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As dores de mães da etnia yanomami: a morte dos bebês e o sumiço de seus corpos

Órgãos oficiais não entram em acordo sobre onde os corpos podem estar enterrados nem de quem é a responsabilidade pelo sepultamento

29 jun 2020
10h11
atualizado às 16h47
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BOA VISTA - Na morte de uma criança indígena da etnia yanomami, o ritual de luto passa por várias etapas. Primeiro, a comunidade nomeia duas pessoas, um homem e uma mulher, que ficam responsáveis pela movimentação do corpo, levado para a floresta cerca de 400 metros da aldeia, onde ficará por 15 dias. Outras comunidades são chamadas para participar da cerimônia.

Em outra data, os ossos são cremados e as cinzas são depositadas em uma urna que fica guardada por meses ou até anos - alguns processos demoram até 20 anos. Após isso, as demais comunidades são novamente convocadas para a finalização do ritual: as cinzas dos ossos são enterradas próximo ao local onde a vítima nasceu. Em Roraima, duas mães da etnia yanomami são atravessadas por muitas dores: a de ver seus bebês morrerem, a de não saberem onde estão seus corpos e, por isso, de não poderem realizar as despedidas como indica sua cultura.

As duas mulheres, uma brasileira e outra venezuelana, aguardam há mais de um mês pelos corpos dos filhos recém-nascidos vítimas da 'xawara' - ou do novo coronavírus. As crianças foram levadas para Boa Vista para atendimento médico. A suspeita é de que os corpos tenham sido enterrados em cemitérios da Capital.

Uma das mães é Lucita Sanumã, da comunidade Selipe, localizada próximo à fronteira do Brasil com a Venezuela. O filho de Lucita nasceu no dia 22 de maio e foi removido para o Hospital Infantil Santo Antônio, administrado pela Prefeitura de Boa Vista, às 16h30 do dia seguinte. Ele foi diagnosticado inicialmente com pneumonia grave e sintomas de cansaço. Às 12h45 do dia 25 de maio, registrou-se a morte.

A outra mãe é Taisa Sanumã, da comunidade Flexal, no município de Uiramutã, também próximo à divisa dos dois países. A filha de Taisa nasceu na madrugada do dia 23 de maio. Por estar muito debilitada, a criança foi levada ao Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazaré, administrado pelo governo estadual. Às 07h30 da manhã do dia 25 de maio, a criança não resistiu.

Ambas as mulheres estão alocadas na Casa de Saúde Indígena (Casai), de administração do Ministério da Saúde em Boa VIsta. "Essa questão de voltar sem o corpo é muito difícil. É difícil demais para mim. Eu cheguei aqui com o meu bebê e preciso de ajuda para levar ele de volta", lamentou Lucita, que deve retornar à comunidade na próxima semana.

A reportagem conseguiu contato com a indígena por intermédio de Júnior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi) do Distrito Sanitário Especial Yanomami e Ye'kuana (DSEI-Y). Júnior traduziu a dor da mãe. Taisa, ele conta, somente chora, sem conseguir falar. "As mães estão muito tristes. Querem o corpo das crianças. Querem levar para fazer o ritual de luto na sua comunidade", afirmou ele.

O Condisi reuniu o relato das mães e vai encaminhar nesta segunda-feira, 29, documentos aos órgãos responsáveis cobrando explicações. Segundo a liderança indígena, a Casai é responsável pelo translado dos corpos dos bebês indígenas até as funerárias, mas afirma que nos casos de óbitos por covid-19, a tratativa é feita pelo Estado e pela Prefeitura de Boa Vista. "Quando é de covid, quando morre é a responsabilidade do Estado e do Município", disse.

Os órgãos oficiais não entram em acordo sobre onde os corpos das crianças podem estar enterrados nem de quem é a responsabilidade pelo sepultamento. Em nota oficial, a Prefeitura de Boa Vista defende que em caso de óbito, o Distrito Sanitário Indígena é acionado pela unidade hospitalar e que o encaminhamento dos óbitos passa a ser de responsabilidade do órgão federal, com o acompanhamento dos familiares.

Apesar disso, a gestão municipal informou que realizou um levantamento junto às funerárias da cidade e das certidões dos óbitos e identificou que a criança indígena que faleceu no Hospital Santo Antônio (filho de Lucita) foi sepultada pela Funerária Boa Vista. "Cuidamos das crianças no hospital e depois disso não podemos definir o que acontece por se tratar de questão indígena, de responsabilidade do DSEI. Estou querendo respostas", afirmou a prefeita de Boa Vista, Teresa Surita (MDB), nas redes sociais.

Em nota oficial, o Governo de Roraima informou que o acompanhamento dos enterros de pessoas que morreram em consequência da covid-19 é realizado pelo Município, independentemente da unidade hospitalar que a vítima tenha falecido. "Para garantir que sejam seguidas todas as regras de biossegurança neste momento de pandemia, o acompanhamento dos enterros é feito pela Vigilância Sanitária Municipal. Esta é uma ação pactuada e independe de onde o óbito ocorreu, ou seja, se foi em hospital estadual ou municipal."

Também nas redes sociais, o governador de Roraima, Antonio Denarium (PSL), reforçou que a tratativa é de responsabilidade do Município. "O Governo do Estado não tem participação nesta situação, mas se solidariza com a perda das crianças."

O Ministério Público Federal em Roraima disse, em nota de esclarecimento, que foi informado de três óbitos de bebês por covid-19, sepultados no cemitério Campo da Saudade em Boa Vista, e um outro óbito, não relacionado à doença, que aguarda liberação para retorno à comunidade de origem junto com os pais. A instituição, porém, não esclareceu de quais etnias eram os bebês e se algum dos óbitos se tratava de uma criança yanomami. "O MPF/RR segue acompanhando todas as notícias de óbitos, para garantir a identificação do corpo e posterior retorno à terra indígena quando for sanitariamente seguro e se assim desejar a comunidade de origem."

O Estadão entrou em contato com a Funerária Boa Vista. O estabelecimento disse que, por ordem de contrato, as informações sobre sepultamento não poderiam ser repassadas. A reportagem também procurou a Coordenação Regional da Fundação Nacional do Índio em Roraima (Funai) e da Casai, mas não obteve retorno.

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