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Amazonas, provedor da vida, desencadeia a pandemia

O Rio Amazonas é a fonte de vida essencial da América do Sul, e mais uma vez ele também está trazendo doença, com o vírus atingindo fortemente a região amazônica e as pessoas que dependem da sua abundância há gerações

27 jul 2020
07h20
atualizado às 19h11
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O vírus tomou conta da região como as recentes pragas que atravessaram o rio com colonizadores e empresas. Ele se propagou com os barcos transportando famílias de cidade para cidade, os botes de pesca com seus motores ruidosos, os ferry-boats transportando mercadorias por centenas de quilômetros e repletos de passageiros dormindo em redes, lado a lado, durante dias.

O Rio Amazonas é a fonte de vida essencial da América do Sul, cortando o continente. É a artéria central de uma vasta rede de tributários que sustenta cerca de 30 milhões de pessoas por oito países e por onde trafegam mantimentos, pessoas e uma indústria nos recantos mais profundos da floresta com frequência não acessíveis por estrada.

Mas mais uma vez, num eco doloroso da história, ele também está trazendo doença. À medida que a pandemia do coronavírus toma de assalto o Brasil, com mais de dois milhões de infecções e mais de 84.000 mortes, o segundo país mais afetado depois dos Estados Unidos, o vírus está atingindo fortemente a região amazônica e as pessoas que dependem da sua abundância há gerações.

No Brasil, as seis cidades com a mais alta exposição ao coronavírus estão todas na região do rio Amazonas, de acordo com um amplo estudo feito por pesquisadores brasileiros que mediram os anticorpos na população.

A epidemia se propagou de modo tão rápido ao longo do rio que em comunidades de pescadores e agrícolas remotas, como Tefé, o número de pessoas que contraíram o vírus se equipara ao da cidade de Nova York, que foi foco de um dos piores surtos da doença no mundo.

"Foi tudo muito rápido", disse Isabel Delgado, de 34 anos, cujo pai, Felicindo, morreu por causa do vírus logo depois de adoecer, na pequena cidade de Coari. Ele nasceu na região, criou sua família e construiu sua vida fabricando móveis com a madeira das margens do rio.

Nos últimos quatro meses, com a epidemia acalmando em Manaus, a maior cidade da região amazônica, com seus arranha-céus e fábricas, e se alastrando pelos pequenos vilarejos aparentemente isolados mais ao interior, o frágil sistema de saúde se curvou. Cidades e vilarejos ao longo do rio registram os mais altos números de mortes per capita no País, com frequência sete vezes a média nacional.

O vírus vem fazendo um número alto de vítimas nas populações indígenas. Desde 1.500, ondas de exploradores viajaram pelo rio em busca de ouro, terra e convertidos e mais tarde em busca da borracha, uma commodity recurso que ajudou a impulsionar a revolução industrial, mudando o mundo. Mas com eles vieram também a violência e doenças como a varíola e o sarampo, matando milhões e destruindo comunidades inteiras.

"Este é um lugar que gerou muita riqueza para os outros", disse Charles C. Mann, jornalista que tem escrito extensivamente sobre a história das Américas, "e observe o que está ocorrendo ali".

Os povos indígenas têm seis vezes mais probabilidade de serem infectados com o coronavírus do que os brancos, de acordo com um estudo brasileiro, e estão morrendo nos distantes vilarejos onde não existe rede elétrica.

Mesmo em épocas melhores, o Amazonas estava entre as áreas mais negligenciadas do País, um lugar onde a mão do governo está distante, ou não existente.

Mas a capacidade da região de enfrentar o vírus ficou ainda mais debilitada sob o governo de Jair Bolsonaro, cuja rejeição pública da epidemia por vezes chegou à zombaria, mesmo tendo, ele próprio, testado positivo.

O vírus disparou sob o olhar desorganizado e medíocre do seu governo, avançando rapidamente pela nação. Desde os seus primeiros dias de governo, Bolsonaro deixou claro que a proteção do bem-estar das comunidades indígenas não era sua prioridade, cortando financiamentos, tirando suas proteções e incentivando as incursões ilegais em seu território.

A crise no Amazonas brasileiro começou em Manaus, cidade de 2,2 milhões de habitantes que se ergueu na floresta numa explosão de concreto e vidro, e as casas de madeira sobre palafitas às margens do rio.

Manaus, a capital do Estado do Amazonas, hoje é uma potência industrial, importante produtora de motocicletas com muitas companhias estrangeiras. Está intimamente conectada com o resto do mundo - pelo seu aeroporto internacional passam 250 mil viajantes por mês

O primeiro caso de covid-19 documentado de Manaus, confirmado em 13 de março, veio da Inglaterra. O paciente tinha sintomas leves do vírus e ficou em quarentena em casa, na área mais rica da cidade.

Mas logo o vírus já estava por toda parte. "Não tínhamos mais leitos nem cadeiras", disse o Dr. Álvaro Queiroz, de 26 anos, falando dos dias em que o hospital público de Manaus estava lotado. "As pessoas não paravam de chegar".

Gertrude Ferreira Dos Santos vivia num bairro perto da água. Costumava dizer que o que mais gostava no mundo era viajar de barco pelo rio. Com a brisa em seu rosto, ela dizia, sentia-se livre. Mas em maio, Gertrude, de 54 anos, caiu doente. Dias depois chamou seus filhos e pediu para eles prometerem que ficariam juntos. Ela parecia saber que estava à beira da morte.

Eduany, sua filha mais nova, de 22 anos, ficou ao lado da mãe naquela noite. Na manhã seguinte, quando fez uma pausa, sua irmã Elen pediu para ela voltar para casa. Sua mãe não conseguia respirar. As irmãs, desesperadas, tentaram fazer respiração boca a boca. Às seis horas da manhã, Gertrude morreu nos braços das filhas. Ela era mãe solteira. A vida nem sempre foi fácil para ela. Mas ainda sonhava, o que suas filhas admiravam. "Em tudo o que fazia, ela tinha prazer", disse Elen.

Do atestado de óbito da sua mãe constava várias doenças ocultas, como problemas de respiração. E também constava falência respiratória, sinal chave de que um paciente morreu por causa do coronavírus.

Mas suas filhas não acham que ela foi vítima da pandemia. Ela com certeza morreu de outras causas, afirmam.

Ao longo rio, as pessoas falam a mesma coisa, relutando em admitir um possível contágio, mesmo quando pais ou irmãos estão com a saúde debilitada. Muitos parecem achar que o diagnóstico, inversamente, de algum modo mancha uma vida digna.

Mas à medida que este estigma levou as pessoas a minimizarem os sintomas do vírus por medo de os médicos confirmarem o contágio, a pandemia se propagou rapidamente.

Em Manacapuru, mais de uma hora distante da capital, Messias Nascimento Farias, de 40 anos, levou sua mulher enferma de carro dirigindo em baixa velocidade por uma das poucas estradas da região para conseguir encontrar uma ambulância que a levasse ao hospital. Sua mulher, Sandra Machado Dutra, de 36, respirava com dificuldade. "O Senhor é meu pastor, nada me faltará", ele rezava até o momento em que a entregou nas mãos dos enfermeiros. Eles tiveram sorte. Sandra sobreviveu.

Mas para muitas pessoas que vivem ao longo do rio, a centenas de quilômetros de barco de Manaus, o meio mais rápido para chegar a um hospital é por avião.

Mesmo antes de o vírus chegar, as pessoas em comunidades distantes, numa emergência, telefonavam pedindo uma ambulância por avião que as levaria a um hospital na capital. Mas os pequenos aviões agora ficaram perigosos para pessoas com a covid-19, que às vezes têm os níveis de oxigenação do sangue perturbados quando a aeronave levanta voo. Poucos pacientes transportados por via aérea sobreviveram, disseram os médicos.

Numa manhã de maio, uma aeronave branca aterrissou no aeroporto em Coari, cerca de 370 quilômetros distante de Manaus. Na pista estava Delgado, o marceneiro, descalço, que respirava com dificuldade. O Dr. Daniel Siqueira e Walci Frank, enfermeira, exaustos depois de semanas de trabalho ininterrupto, colocaram Delgado na pequena cabine. Quando o avião decolou, seus níveis de sangue começaram a cair. A filha de Delgado, Isabel, disse ao médico, em pânico. "Meu pai é muito forte. Ele vai conseguir".

Quando Delgado finalmente chegou ao hospital em Manaus, Isabel ficou perplexa diante das cenas ao seu redor. Parentes desesperados cuidando dos entes queridos, desmoronados sob o peso da doença, em busca de tratamento.

Ao mesmo tempo, pacientes que conseguiram sobreviver à covid-19 surgiam, atônitos, sendo abraçados por familiares e amigos. Delgado faleceu alguns dias depois. Quando Isabel recebeu a notícia, o médico começou a chorar junto com ela.

Isabel não tinha nenhuma dúvida de que o rio que seu pai tanto amava também lhe trouxera o vírus. Logo depois, ela e outros membros da família adoeceram também.

Quando o coronavírus chegou nas Américas havia o temor generalizado de que ele devastaria as comunidades indígenas da região. Em muitos lugares, esses temores se tornaram verdade. Pelo menos 570 indígenas no Brasil morreram da covid-19, de acordo com uma associação que representa a população indígena do País. A grande maioria das mortes ocorreu em locais próximos do rio.

Mais de 18 mil indígenas foram infectados. Líderes comunitários reportaram que em vilarejos inteiros as pessoas confinadas em suas redes tinham dificuldade para se levantar até para alimentar seus filhos.

Em Tefé, cidade de 60 mil habitantes, situada ao longo do rio e cerca de mil quilômetros distante de Manaus, o vírus chegou como um vendaval. No pequeno hospital público, onde as autoridades inicialmente planejavam acomodar 12 pacientes, quase 50 se acotovelavam numa unidade improvisada para tratamento da Covid-19. A Dra. Laura Crivellari, a única especialista em doenças infecciosas do hospital, cuidava dos pacientes, fazendo o que podia com apenas dois respiradores, nenhuma unidade de terapia intensiva, com muitos colegas doentes e ninguém para substituí-los.

Num dos piores momentos, durante dois dias ela era a única médica em serviço, cuidando de dezenas de pacientes gravemente enfermos. As mortes constantes a levaram ao limite. Alguns dias mal conseguia parar para comer alguma coisa.

Em casa ela falava da sua angústia para seu parceiro. Pensava em abandonar a medicina. "Não consigo continuar", dizia a ele.

A pandemia tem sido brutal com os trabalhadores da área médica em todo o mundo e é particularmente difícil para médicos e enfermeiros que precisam se locomover por vastas distâncias, enfrentar cortes frequentes de comunicação e a enorme escassez de suprimentos médicos ao longo do rio Amazonas.

Sem treinamento adequado ou equipamento, muitos morreram. Outros infectaram suas famílias.

Crivellari sabia que sua cidade era vulnerável. São três dias de viagem de barco de Manaus para Tefé, com os ferry-boats frequentemente transportando 150 pessoas de uma vez. "Nosso medo era de que uma pessoa infectada contaminasse o barco inteiro. E foi o que acabou sucedendo", disse ela.

No início de julho, as mortes diárias em Tefé estavam diminuindo e Crivellari começou a festejar os pacientes que conseguiu salvar. Ela não pensa mais em abandonar a medicina.

Tefé, como um todo, respira, mas com cautela. O vírus, pelo menos no momento, mudou para um novo lugar ao longo do rio. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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