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Bolsonaro quer Pazuello no Planalto para evitar "explosão"

Ao deixar o cargo, ex-ministro disse ter sido "jurado de morte" por contrariar interesses políticos

22 abr 2021
16h30 atualizado às 16h39
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O presidente Jair Bolsonaro quer o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello sempre por perto. General da ativa, Pazuello tem sido visto no Palácio do Planalto desde a semana passada e será contemplado com um novo cargo, nos próximos dias. A preocupação de Bolsonaro e dos militares é com o que o ex-ministro dirá na CPI da Covid, a comissão parlamentar de inquérito na qual o governo está em minoria. Ao deixar a Saúde, em março, Pazuello chegou a afirmar que havia sido "jurado de morte" por políticos insatisfeitos com a falta de "pixulé".

Bolsonaro e Pazuello participam de cerimônia no Palácio do Planalto
08/12/2020
REUTERS/Ueslei Marcelino
Bolsonaro e Pazuello participam de cerimônia no Palácio do Planalto 08/12/2020 REUTERS/Ueslei Marcelino
Foto: Reuters

Antes mesmo de sua instalação no Senado, marcada para a próxima terça-feira, 27, a CPI já tem farto material sobre omissões da gestão Bolsonaro na condução da pandemia do coronavírus. Mas, ao convocar Pazuello, integrantes da CPI vão perguntar quem "tentou empurrar pseudo nota técnica" em defesa de um medicamento - como ele disse em sua despedida -, qual era esse remédio, quem trabalhava para derrubá-lo e como funcionava o esquema, denunciado pelo próprio, dentro do ministério.

As acusações de Pazuello são muito graves e desnortearam a cúpula do governo, que tem apresentado falhas na articulação com o Congresso. Embora o general não tenha citado o Centrão, a referência não poderia ser mais direta. Na campanha eleitoral de 2018, Augusto Heleno Ribeiro, hoje ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chegou a mudar a letra de um samba para cantarolar "Se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão". À época, Heleno substituiu a palavra "ladrão" do verso original pelo nome do bloco. Dois anos depois, porém, Bolsonaro não só se aliou ao Centrão como depende do apoio desses partidos para sobreviver.

Em conversas reservadas, ministros militares dizem agora ter receio de que Pazuello não aguente a pressão na CPI e, no afã de defender o presidente, acabe "explodindo" e dando declarações bombásticas, como fez em seu discurso de despedida, há um mês, ao lado de seu sucessor, o médico Marcelo Queiroga. Na ocasião, Queiroga não escondeu a perplexidade. Agora, no governo, há quem defenda uma espécie de 'media training' para Pazuello - com treinamento de perguntas incisivas para testar seu poder de controle - antes do depoimento à CPI.

"Nós não podemos esquecer que o Ministério da Saúde é o foco, o alvo das pessoas políticas. Quem não sabe disso? A operação de grana com fins políticos acontece aqui", revelou Pazuello, naquele 24 de março. "Nós conseguimos acabar com 100%? Claro que não. 100% nem Jesus Cristo. Mas acabamos com muito". Logo depois, o general afirmou que toda a crise teve início quando ele se recusou a atender os pedidos feitos por uma "liderança política".

No vídeo, é possível ouvir Pazuello se aproximando de Queiroga para sustentar, quase que num cochicho, ter virado alvo após contrariar interesses. "(Disseram): Ele está jurado de morte", lembrou o ex-ministro, em voz bem baixa, como se imitasse o que os políticos descontentes diziam sobre ele. "Jurado de morte" foi a expressão usada pelo militar ao recordar que, sob pressão, estava com os dias contados à frente da pasta.

Integrantes da CPI resgataram a íntegra desse discurso de Pazuello e têm se debruçado sobre suas acusações. Na contraofensiva, o Palácio do Planalto prepara 'dossiês' sobre quanto o governo destinou para cada Estado e prefeitura no combate à pandemia. A ideia é mostrar que o dinheiro enviado para adversários de Bolsonaro foi desviado para outras finalidades.

Além disso, uma das linhas da defesa será jogar o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta no fogo, sob o argumento de que a maior parte das compras problemáticas teriam ocorrido na gestão dele. Filiado ao DEM, Mandetta é hoje um dos possíveis rivais de Bolsonaro na eleição presidencial de 2022.

A estratégia de culpar Mandetta já começou a ser adotada por aliados de Bolsonaro na comissão externa da Câmara de enfrentamento à covid-19, embora nem todos a aprovem. "O Palácio não procurou a própria base para conversar. Querem correr atrás do prejuízo", criticou o senador Marcos Rogério (DEM-RO), do mesmo partido de Mandetta. "O governo errou, deixou correr solto".

Ex-ministro da Saúde com destacada atuação na comissão da Câmara para monitoramento da pandemia, o deputado Alexandre Padilha (PT-SP) disse que municiará a CPI com informações. "Acho que a CPI terá uma grande oportunidade para investigar se a proposta que o governo faz da cloroquina para tratamento é só crença negacionista ou se há interesse financeiro por trás dela", observou Padilha. "Acredito que transformaram essa crença em um rio de fazer dinheiro, vendendo medicamentos sem eficácia comprovada. Muita gente lucrou com a falta de vacinas".

Ao Estadão, Mandetta afirmou que Bolsonaro começou a implicar com ele por não aceitar as recomendações científicas. "Quando a hora do trabalho técnico se revelou, não era o que ele queria. Queria, sim, o (trabalho) político, cuja consequência era a tragédia", argumentou. Hoje, já são mais de 380 mil mortes no País por covid-19.

Pazuello é investigado em inquérito sobre o colapso da saúde em Manaus e, por ter deixado o ministério, perdeu o foro privilegiado de julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). O general também está na mira do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Ministério Público Federal, que apura a ocorrência de preços superfaturados na compra de máscaras. Para o TCU, Pazuello deve ser punido por omissão no controle de estoques de medicamentos, insumos e vacinas.

Bolsonaro nunca quis demitir o general, mesmo porque ele sempre foi obediente. Quem não se lembra da célebre frase "É simples assim: um manda, o outro obedece", dita pelo então ministro após ser desautorizado na compra de 46 milhões de doses da CoronaVac?. Pressionado pelo Centrão e por empresários, no entanto, Bolsonaro cedeu. Agora, para que o amigo em apuros ganhe novamente foro privilegiado, é preciso abrigá-lo da "chuva". O problema é que a Secretaria Especial de Modernização do Estado, hoje o cargo "mais a mão", para o qual Pazuello pode ser transferido, não tem direito a prerrogativa de foro. A pasta é subordinada à Secretaria-Geral da Presidência.

Enquanto isso, o ex-titular da Saúde continua fazendo visitas ao Planalto. No fim de janeiro, quando a pandemia já dava sinais de recrudescimento, ele foi abordado por uma mulher durante café da manhã do Hotel de Trânsito do Exército, onde mora. "O senhor é o Pazuello, não é?, perguntou ela. "Não conheço nenhum Pazuello, minha senhora", respondeu o então ministro, fingindo não ser quem era. Será que na CPI o general também vai usar essa máscara?

Estadão
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