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Lira reúne Bolsonaro e Alexandre de Moraes em jantar oferecido a Gilmar Mendes

Evento não constava da agenda oficial do chefe do Executivo e foi organizado em homenagem aos 20 anos de Mendes no STF

22 jun 2022 23h45
| atualizado em 23/6/2022 às 22h26
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BRASÍLIA - O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), reuniu na noite desta quarta-feira, 22, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no mesmo ambiente. Moraes e Bolsonaro conversaram a sós, na residência oficial de Lira, antes do jantar oferecido pelo deputado em homenagem aos 20 anos do ministro Gilmar Mendes no Supremo. O encontro foi uma tentativa de distensionar a relação entre o Palácio do Planalto e a Corte.

O jantar, que não constou da agenda oficial de Bolsonaro, contou com a participação também do ministro do STF, Alexandre de Moraes, desafeto do chefe do Executivo. Foto: Andressa Anholete/Bloomberg

Logo que chegou ao jantar, Bolsonaro cumprimentou Moraes sob o olhar dos convivas e fez piadas sobre os times de futebol de ambos, Palmeiras e Corinthians. Depois, Lira levou os dois pelo braço até um local mais reservado e os deixou para uma conversa privada. O diálogo ocorreu num pequeno gabinete de trabalho do presidente da Câmara, usado para entrevistas e audiências, ao lado da sala de estar.

"Foi um encontro de distensionamento. O País vive uma escalada em ano eleitoral e isso não é prudente", disse o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), um dos idealizadores da homenagem ao decano do Supremo.

O próprio Gilmar discursou e mandou recados a Bolsonaro, que não fez uso da palavra. O presidente parecia cansado, chegando até mesmo a bocejar. O magistrado relatou a experiência que viveu em governos passados, como os de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, e disse que mesmo adversários se sentavam à mesa com o objetivo de discutir temas de relevo para o País. Em seguida, dirigindo a Bolsonaro, ele afirmou: "Acompanho as suas críticas, e o senhor tem direito de fazê-las, mas é importante ouvir e dialogar também".

Gilmar reiterou sua ofensiva à Lava Jato e defendeu a atividade política, no momento em que bolsonaristas e o Centrão preparam uma emenda à Constituição para rever decisões da Corte, sob o argumento de "ativismo judicial" e interferência no Legislativo e no Executivo.

"O Supremo devolveu aos políticos a atividade política. A política tinha sido expropriada. Quem estava fazendo política eram juízes", afirmou o ministro à mesa.

Em um momento de descontração, ao ironizar o fato de magistrados do STF serem acusados de defensores da esquerda, Gilmar disse que um comunista havia sugerido a recepção em sua homenagem. "Você, Alexandre, é acusado de ser comunista também", brincou ele, falando com Moraes.

Foi por sugestão de Orlando Silva que Lira convidou integrantes dos três Poderes para o jantar. Estavam lá ministros de Estado e do Supremo e líderes de partidos na Câmara e no Senado. O ministro Ricardo Lewandowski fez menções à democracia e cobrou respeito às instituições. Bolsonaro costuma atacar magistrados e questionar, sem apresentar provas, a segurança das urnas eletrônicas. Moraes será presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante as eleições de outubro.

Oração

Lira serviu pratos com carne e peixe com alcaparras, acompanhados de taças de vinho tinto. Um dos presentes, no entanto, disse que o cardápio principal era mesmo o "mal estar". Mesmo assim, a noite transcorreu em clima ameno, segundo ministros e deputados de diversos partidos, da situação à oposição. O "terrivelmente evangélico" André Mendonça pediu a palavra para uma oração.

O encontro entre Bolsonaro e Moraes ocorreu quatro dias após o presidente dizer que o ministro teria descumprido um acordo firmado entre os dois, em setembro do ano passado, para que pusesse um ponto final no inquérito das fake news. A investigação tem como alvo o presidente, seus filhos e aliados.

Bolsonaro já havia tocado no assunto no último dia 7, mas foi desmentido pelo ex-presidente Michel Temer, que o ajudou a escrever a "Declaração à Nação" após a crise causada pelos atos antidemocráticos de 7 de setembro do ano passado. Naquela carta, Bolsonaro -- que havia chamado Moraes de "canalha" em discurso na Avenida Paulista -- recuava dos ataques e, em sinal de trégua, afirmava que suas palavras haviam sido ditas no "calor do momento".

Em nota oficial, divulgada logo depois, Temer destacou que não tinha sido apresentado qualquer "condicionante" na conversa entre Bolsonaro e Moraes.

O último encontro entre o presidente e o magistrado havia ocorrido rapidamente em 19 de maio. Na ocasião, Bolsonaro cumprimentou Moraes, com aperto de mão e "tapinhas nas costas", em solenidade de posse de ministros no Tribunal Superior do Trabalho (TST). O cumprimento deixou transparecer o desconforto da situação.

No jantar de homenagem a Gilmar, na noite desta quarta-feira, também estiveram presentes o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e os ministros do STF Kassio Nunes Marques e André Mendonça. Do governo participaram os ministros Ciro Nogueira (Casa Civil) e Anderson Torres (Justiça), além do ex-titular da Defesa Walter Braga Netto, assessor especial de Bolsonaro e cotado para vice na chapa da reeleição. Da oposição estiveram presentes, além de Orlando Silva, os deputados Reginaldo Lopes (MG), líder do PT na Câmara; Renildo Calheiros (PCdoB-PE) e Odair Cunha (PT-MG).

O jantar, que não constou da agenda oficial de Bolsonaro, ocorreu em meio à ofensiva do governo sobre a Petrobras. A estratégia foi desenhada para ameaçar a empresa com a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e afrouxar a Lei das Estatais. No mesmo dia do jantar, Bolsonaro sofreu mais um desgaste, após a prisão do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro no âmbito das investigações sobre o chamado "gabinete paralelo" de pastores no MEC. O caso foi revelado pelo Estadão.

Estadão
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