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Barroso reclama de 'déficit de civilidade' no Brasil ao ser interrompido durante palestra em Oxford

Ministro falava de ataques ao sistema eleitoral durante sua passagem à frente do TSE quando foi interrompido por críticos: 'viramos um país de ofensas', afirmou

25 jun 2022 - 17h00
(atualizado às 19h11)
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O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Luís Roberto Barroso foi interrompido enquanto defendia o sistema eleitoral brasileiro durante sua participação no Brazil Forum UK, evento realizado neste fim de semana em Oxford, na Inglaterra.

O ministro classificou a possibilidade de retorno do voto impresso como um "abominável retrocesso" quando uma das participantes gritou ser uma "mentira" que os apoiadores da medida defendam a contagem manual dos votos. "Esse é um dos problemas que nós estamos enfrentando no Brasil, um déficit imenso de civilidade", reclamou o magistrado, após ser interrompido pela segunda vez.

Barroso participou da abertura do fórum, organizado desde 2016 por estudantes da Universidade de Oxford. Ele mencionou discussões que disse considerar fundamentais para o desenvolvimento do País, como a reforma política, investimento em Educação, liberdade de imprensa e a adoção de regras claras sobre mídias sociais para combater a desinformação.

"Na minha passagem pelo TSE, tive que lidar com a pandemia, oferecer resistência aos ataques contra a democracia e impedir esse abominável retrocesso que seria a volta ao voto impresso com contagem pública manual, que sempre foi o caminho da fraude no Brasil", explicava Barroso, quando foi interrompido pela participante e por um homem que estavam na plateia. O ministro disse que as informações contestadas por eles poderiam ser encontradas facilmente na internet.

Deputados Filipe Barros (PL-PR) e Bia Kicis (PL-DF) lideraram movimento pela aprovação de PEC que tratava sobre o voto impresso Foto: Dida Sampaio/Estadão - 05.08.2021

"O discurso oficial era, abro aspas: 'voto impresso com contagem pública manual' ponto, fecho aspas", respondeu o ministro, antes de ser interrompido novamente.

Substitutivo apresentado pelo deputado federal Filipe Barros (PL-PR) à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da deputada Bia Kicis (PL-DF) previa "que a apuração seja feita nas sessões eleitorais pela mesa receptora de votos após o encerramento do pleito". A PEC foi rejeitada em votação na Câmara dos Deputados em agosto de 2021.

Após o incidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (União Brasil-SP) foi às redes sociais defender a PEC. O parlamentar postou um link para a proposta original de Bia Kicis, apresentada em 2019 e anterior ao substitutivo, e disse não haver menção à contagem manual.

Diversidade

Após pedidos de outros participantes por mais respeito ao palestrante, Barroso seguiu com ponderações sobre a necessidade de aumento da diversidade na política e da implementação de um sistema distrital misto. O ministro ainda comentou sobre o desgaste da imagem internacional do Brasil, mencionando a situação da Amazônia e a polarização no debate público. "Precisamos resgatar a civilidade, que é a capacidade de divergir com respeito e consideração pelo outro. Nós viramos um país de ofensas", afirmou.

Após a fala do ministro, os dois participantes voltaram a questioná-lo sobre a proposta de voto impresso, mas a transmissão do evento foi interrompida instantes depois. Em nota, a organização do Brazil Forum UK classificou como "abrupta e ríspida" a interrupção à fala de Barroso.

"Felizmente o episódio foi pontual e rapidamente resolvido", afirma o comunicado.

Participaram do primeiro dia de discussões no fórum o ex-governador de São Paulo, João Doria e o pré-candidato à Presidência da República, Ciro Gomes (PDT). No domingo, participam o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), e o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (PSDB).

Estadão
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