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As virtudes necessárias em 2020

Entender que não sabemos e estar pronto para reaprender e lidar com o mundo novo pode ser a saída menos dolorosa e mais útil para tempos pós-pandemia

28 jun 2020
03h11
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Na última semana, recebi várias mensagens de leitores sobre o tema "Coragem", que abordamos nesta mesma coluna. Muitos falaram sobre terem sentido uma certa dose de otimismo, um respiro que os fez bem em meio aos desafios diários que temos vivido. Sendo assim, e feliz em ter tocado de alguma forma os que aqui me acompanham, decidi trazer para nossas próximas conversas semanais virtudes que possam nos ajudar na trajetória de 2020.

Nesses dias, escutando um podcast de um excelente palestrante internacional, ouvi pela primeira vez a frase "the lost year", o ano perdido. Se olharmos por certos ângulos, é realmente o que pode parecer. No caso da indústria da moda, território no qual habito, tivemos viagens, desfiles, encontros cancelados, mais de três meses de lojas de rua e shoppings fechados. Um olhar mais profundo, no entanto, pode trazer uma nova reflexão. Quem já "perdeu" o ano na escola sabe disso, quem já passou por uma separação e parece ter tido um casamento "perdido" também.

Como alguém que já passou pelos dois momentos, posso afirmar: perder por um lado pode trazer um ganho em outro. Meu ano perdido no primeiro colegial foi aos 15 anos. Repetir de 11 matérias (de 12) foi mais do que uma adolescente, que se considerava popular, poderia suportar. Em desespero, tive depressão, pânico, crises de asma e dormia com balão de oxigênio ao lado da cama.

Durante a minha primeira separação, a palavra "perder" foi também ouvida constantemente. Anos perdidos em uma relação que não teve futuro e, além disso, um filho que teria também chances "perdidas" por não ter os pais juntos como a família que se imaginava na época. O que posso garantir da minha experiência pessoal é que, sempre que "perdemos", podemos ganhar a partir das nossas decisões - e que o futuro não é só o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece.

Meu ano perdido na escola me fez amadurecer à força, sofri o hoje chamado bullying (sim, não sabíamos na década de 1980 que esse era o nome), perdi amigos por ser repetente, fiquei "atrás" como me diziam. Separada com um bebê e com a necessidade de me sustentar por conta própria, enxerguei a dificuldade da vida de uma mulher no mercado de trabalho. Não foi fácil, mas aprendi algo nesses dois momentos que hoje tem contribuído muito para me readaptar novamente e entender esse ano chamado de "ano perdido": a humildade, virtude que, como as outras, deve ser constantemente trabalhada para fazer parte DAS NOSSAS VIDAS.

Acredito que a humildade não é a virtude mais popular, pelo menos não é se comparada à coragem, que certamente está no pódio das virtudes. A humildade também é, na maior parte das vezes, uma virtude mal compreendida. A humildade não é a falta de apreciação de quem somos, não é falta de valorização do que realizamos. A humildade é entender seus limites, suas impotências e fraquezas, conhecer-se e conhecer algo maior que nós. A humildade tira um véu de nossos rostos e nos mostra que nossa onipotência é sempre falsa. Mesmo sendo a adolescente que tem tudo ou tendo o casamento perfeito, ou o trabalho dos sonhos. A vida pode mudar, do dia para noite. A vida é maior que nós. A humildade de mudar de ideia, reavaliar e ter que alterar a rota é muitas vezes a virtude mais necessária. "A humildade é esse esforço, pelo qual o eu tenta se liberar das ilusões que tem sobre si mesmo", disse o filósofo francês André Comte-Sponville. Entender que não sabemos e estar pronto para reaprender e lidar com o mundo novo pode ser a saída menos dolorosa e mais útil para tempos pós-pandemia.

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Estadão
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