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As pessoas querem algo para sonhar, diz estilista da Gucci

Após completar 100 anos, grife apresenta coleção com ícones marcantes

18 abr 2021
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Estar frente a frente, ou melhor, frente à tela, com um dos mais aclamados diretores criativos do mundo exige atenção redobrada. Foi com essa atenção - e com a intenção de trazer para esta reportagem todas as informações que pudéssemos descobrir sobre um gênio da atual cena fashion mundial - que entrevistamos Alessandro Michele, nome criativo à frente da Gucci desde 2015. Fomos recebidos para uma reunião virtual em sua casa, em Roma, e encontramos Alessandro sentado em frente a uma lareira, com longos cabelos negros, vestindo óculos de grau modelo aviador, com as mãos e os braços cobertos de anéis e pulseiras como sempre aparece em fotos.

Alessandro é a personificação do personagem que construímos quando pensamos em um grande designer da atualidade. A mítica imagem, palavras, aliás, que foram usadas por Alessandro algumas vezes durante a conversa, fazem também parte do show da moda. Ao longo da conversa de mais de uma hora, Alessandro apresentou os canais que ele utiliza para construir coleções que são sonhos de consumo em todo o mundo e que fazem dessa marca - que acaba de comemorar 100 anos - símbolo reluzente de um dos maiores grupos de moda e luxo europeus. A Gucci é uma das marcas do conglomerado francês Kering, dona também da Saint Laurent, Balenciaga e Bottega Veneta. A receita de todo o grupo no ano passado chegou à cifra de 13 bilhões de euros.

A primeira constatação é quase óbvia: a moda para Alessandro, além de ser a grande paixão da sua vida, é a manifestação física de seus desejos e de suas referências que tem como origem histórias individuais, tudo combinado a uma porosidade para sentir manifestações e comportamentos mundiais. "Talvez ninguém precise de mais uma bolsa, mas precisamos de algo que nos faça sonhar", diz, ao explicar a pequena bolsa de coração. Acessório que já nasce hit, mas que para o criador representa um poderoso símbolo que, em seu desfile, passa de pessoa para pessoa e finalmente é devolvido ao universo em uma cena poética do filme que mostra a coleção Gucci Aria. "Devolvemos o coração à natureza, porque ela saberá o que fazer", conclui.

Alessandro se mostra em sintonia com seu tempo, preocupado com "o conflito entre o humano e a natureza, que tem que encontrar a paz". Seu discurso principal passa longe de modelagens e tecidos, mas transpira reflexões. "Não sou a mesma pessoa que era antes da pandemia e a moda também não é. O mundo quer novos diálogos e precisamos de uma nova fundação para a moda que acontece dia após dia em mudanças, em intensos encontros e descobertas."

As palavras de Alessandro fazem sentido quando vemos a colaboração inusitada que ele criou nessa coleção entre a italianíssima Gucci e a emblemática Balenciaga. Os logos icônicos das duas marcas cobrem, lado a lado, blazers, saias e botas de cristais. Colocar tais logos lado a lado seria uma imagem inimaginável em outros tempos da moda. Alessandro deixa clara sua admiração e respeito por Demna Gvasalia, diretor criativo da Balenciaga, e conta que encontros criativos trazem um nível experimental importante para a moda e que essa colaboração nasce com verdade, pois é só dessa forma que a regeneração que tanto precisamos pode acontecer. A moda para Alessandro é um enigma, mas é também simples: "a coisa mais perto do ser humano, onde ele acorda, dorme e vive diariamente envolto".

Do seu amor por Hollywood e pelos grandes astros, ele traz o brilho que sempre permeia suas coleções. Nesta temporada, os ternos de veludo trazem cintilância para o trabalho e para o dia. "Coloquei em meu desfile um corredor cercado pelos flashes dos paparazzi de outros tempos, aquele brilho das luzes que faziam a entrada mais triunfal", diz, com nostalgia. "Hoje, com nossos celulares, somos todos paparazzi." Alessandro admite que inveja a imprensa de moda que pode viver o sonho pronto, sentar no corredor, assistir ao espetáculo, ver as luzes e as criações passarem. E ele não tem razão?

Estadão
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