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Novo ministro tem 5 processos e patrimônio de R$ 26 milhões

Senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI) é alvo de duas denúncias e três inquéritos. "Se for condenado, afasto", afirma Bolsonaro

27 jul 2021 17h06
| atualizado às 17h22
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Quarta aposta do presidente Jair Bolsonaro para a Casa Civil, o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI) figura como alvo de duas denúncias criminais e três inquéritos que apuram suspeitas de suborno e distribuição de propinas. O histórico judicial do parlamentar tem paralelo com o perfil que Bolsonaro prometia expurgar ao ser eleito, em 2018, sob a promessa de acabar com a velha política e de romper com fiadores do PT. Nogueira é o presidente do partido que se sagrou como o mais implicado na Operação Lava Jato e ascendeu política e financeiramente durante os governos de Lula e Dilma Rousseff.

Ciro Nogueira
Ciro Nogueira
Foto: José Itamar / Futura Press

Desde que o presidente aprofundou sua ligação com o Centrão para se livrar de pedidos de impeachment e ter governabilidade, o passado de Nogueira foi considerado um mero detalhe pelo Palácio do Planalto. Com a fluidez política que lhe é característica, Nogueira foi de lulista a integrante do primeiro escalão de Bolsonaro e hoje vai se encontrar com ele, para acertar detalhes da posse.

Para evitar a completa contradição, o presidente desconversa dizendo que poderá abandonar Nogueira em caso de condenação. "Se (Ciro) for julgado e condenado, afasto do meu governo", disse Bolsonaro, nesta segunda-feira, 26.

Na esfera criminal há duas denúncias apresentadas pelo Ministério Público Federal (MPF) contra o senador, em casos ligados à Lava Jato, ainda pendentes de julgamento. A acusação mais recente é de 10 de fevereiro do ano passado. Nogueira teria recebido R$ 7,3 milhões da Odebrecht para patrocinar interesses políticos da empreiteira, o que a defesa nega. A peça é assinada pela subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo. Designada pelo Procurador-geral Augusto Aras para conduzir os casos da Lava Jato, Lindôra é considerada próxima do bolsonarismo.

Segundo o MPF, Nogueira chefiava uma organização criminosa instalada no Progressistas. No segundo semestre de 2014, por exemplo, teria pedido R$ 1,3 milhão à Odebrecht. O pagamento foi feito em duas parcelas e registrado no sistema de contabilidade paralelo da empresa sob o codinome de Ciro, que era Cerrado.

A outra denúncia é de junho de 2018, assinada pela então PGR Raquel Dodge. Neste caso, Ciro Nogueira é acusado, junto com outros membros do partido, de tentar subornar uma testemunha para que ela alterasse o depoimento prestado à Polícia Federal no caso conhecido como "quadrilhão do PP". A testemunha, um ex-motorista, teria "observado a prática de diversos crimes" por parte do senador, segundo o MPF.

Esta denúncia está sendo analisada pela Segunda Turma do STF. São dois votos para tornar Ciro Nogueira réu, dos ministros Edson Fachin e Cármen Lúcia. O julgamento está suspenso desde 2018, quando o ministro Gilmar Mendes pediu vista. O ministro devolveu o processo, mas não há data para que o julgamento seja retomado.

Além destas denúncias, a Lava Jato também resultou em três inquéritos contra Nogueira no STF, ainda sem denúncia apresentada. O mais antigo diz respeito a suspeitas de propina que teriam sido pagas a ele pelo Grupo J&F, detentor do frigorífico JBS, em 2014 e em 2016. As outras duas investigações são sigilosas e foram reveladas neste domingo pelo jornal O Globo. Uma delas diz respeito a suposto pagamento de propina de R$ 1 milhão da empreiteira OAS, em troca de apoio a uma medida provisória no Senado; a outra versa sobre a possível uma influência na Caixa para liberar um financiamento à construtora Engevix. O senador nega todas as acusações.

Patrimônio

Desde que foi eleito pela primeira vez para a Câmara, em 1994, ele nunca deixou de ter cargos eletivos em Brasília. O período também marcou o seu crescimento patrimonial. Ao fim do primeiro mandato como deputado, em 1998, Nogueira acumulava R$ 746,9 mil em bens. Em valores correntes, o montante representa um patrimônio de R$ 2,9 milhões. Segundo dados registrados no TSE, eram dois automóveis, metade de um apartamento, uma casa em construção, um terreno e parte de uma empresa.

Na disputa de 2018, quando foi reeleito para o Senado, Nogueira declarou à Justiça Eleitoral ter R$ 23,3 milhões em bens. A quantia corresponde a R$ 26,4 milhões em valores atuais. A maior fatia (R$ 18 milhões) vem da sua participação na CN Motors, concessionária de motocicletas com filiais no Piauí e no Maranhão. Além de senador, Nogueira e familiares atuam no ramo automotivo e imobiliário. Em Teresina, são conhecidos por serem proprietários de diversos imóveis. Em nota, a assessoria do senador destacou que o patrimônio dele é "rigorosamente auditado pelo TCU" e, além de o senador possuir empresas, herdou bens do pai, "todos devidamente declarados".

Esse patrimônio faz dele o sexto senador mais rico eleito em 2018. Filho do ex-deputado Ciro Nogueira de Lima e sobrinho do ex-deputado constituinte Etevaldo Nogueira, também manteve a família na política. A mulher dele, Iracema Portella, é deputada federal desde 2010. A mãe, Eliane, é a suplente dele e deverá substituí-lo quando for confirmada a nomeação no governo. A filha, Duda, 24, preferiu outros caminhos. A estudante de arquitetura e influenciadora nas redes sociais é habitué de festas como as que ocorrem no Copacabana Palace.

A ascensão e a consolidação de Ciro na política nacional se deu nos governos de Lula e Dilma. Em 2018, ele defendeu o voto em Fernando Haddad e concorreu na chapa do petista Wellington Dias, governador do Piauí. A boa relação com o governador rendeu espaço para aliados na administração regional.

O rompimento só ocorreu em meados do ano passado, mas os prejuízos políticos foram moderados. A secretária de Meio Ambiente do governo continua sendo Sádia Castro, irmã da deputada Margarete Coelho (Progressistas-PI), importante aliada de Ciro Nogueira na bancada piauiense.

Responsável pela defesa de Ciro Nogueira no STF, o advogado criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, nega as acusações. Segundo ele, a apuração envolvendo a Engevix é antiga, de 2016, embora o inquérito só tenha sido instaurado em 2019. Já o caso da OAS é fruto da delação do executivo Leo Pinheiro, e Kakay se queixa de nunca ter tido acesso ao inquérito."Isso só evidencia o abuso do poder investigativo do MP na condução da Operação Lava Jato e todos os excessos que foram praticados, razão pela qual a operação está tão desmoralizada", disse o advogado, em nota.

"As duas investigações têm algo em comum, demonstram a falência de uma operação criminosa e oportunista, alimentada por inúmeras delações inverídicas, a operação Lava Jato. Tais inquéritos tramitam há anos, sem nunca o Senador ter sido chamado a prestar depoimento e sem qualquer avanço, pois os fatos não são verdadeiros e não tem relação com o senador Ciro Nogueira", escreveu Kakay, em nota.

Estadão
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