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FHC: "Ideia da renda universal não sei mais se é absurda"

Para ex-presidente, a mudança da forma de produção, que aumenta sem a criação de emprego ou renda, levará à necessidade de políticas de distribuição de renda

17 nov 2019
00h40
atualizado às 10h37
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O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lançou recentemente o quarto último volume de seu 'Diários da Presidência'. Para ele, a crise das representações nos dias de hoje só será resolvida por meio da participação popular. O ex-presidente acredita ainda que a mudança da forma de produção - que aumenta sem a criação de emprego ou renda - levará à necessidade de políticas de distribuição de renda. Só assim seria possível reafirmar valores como os da liberdade e da igualdade, vindos da Revolução Francesa. Eis aqui a sua entrevista.

Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
Foto: Charles Sholl / Raw Image / Estadão Conteúdo

Presidente, a República completa 130 anos. Quais os valores o senhor pensa que devem ser reafirmados por todos e quais devem ser acrescidos aos que fundaram a nossa República?

Nós não sabemos ainda como vamos organizar a relação entre a população e o poder. A democracia organizou essa relação por meio dos partidos, da representação, das grandes discussões, Rousseau. Isso está em crise. O que está em crise é tudo o que foi construído desde o século 18. Mudou o quê? Mudou a forma de relação das pessoas e a forma de organização da produção. Qual vai ser a expressão política disso? Por que está em crise nos Estados Unidos, na Itália e no Brasil? Onde não está em crise? Onde tem ditadura, onde não tem liberdade. Onde tem liberdade, as pessoas não estão contentes com as organizações políticas. Eu não jogo fora os partidos e as representações. Estou simplesmente dizendo que nós temos de levar em consideração que os partidos e a representação foram postos em causa pela capacidade que as pessoas têm de reagir por elas próprias. E nós não temos solução pronta para isso.

A educação seria uma forma de resolver isso?

A educação faz parte desse processo de autonomização. O que nós estamos assistindo é a uma certa autonomização, apesar de haver uma certa personalização da política. Ao mesmo tempo você tem autonomização e personalização porque as estruturas organizadas intermediárias estão ficando bamboleantes, estão balançando. Qual era minha discussão geral até hoje? Muita gente não está percebendo é que nós estamos em outra época, na época da globalização. Escrevi minha teses de livre-docência sobre o empresariado nacional. Naquela época, em 1963, o livro foi publicado em 1964, naquela época você tinha a ideia de que íamos repetir a história da Europa. A burguesia que tinha interesses próprios e ia se aliar ao povo contra o imperialismo e o latifúndio. Quando fui fazer pesquisa, não tinha nada disso. Já havia um começo de integração muito maior do que se imaginava. Quando escrevi um livro mais tarde, no Chile, 'Dependência e Desenvolvimento', nós não sabíamos que estávamos escrevendo sobre globalização. Não havia a palavra. A palavra multinacional, que se usa banalmente hoje, foi criada em 1971. Eu escrevi o livro em 1967. Você estava tateando para entender o que estava acontecendo. Quando eu cheguei ao governo, a globalização era uma realidade, mas o pessoal achava que não era; a esquerda não entendia e dizia que isso era neoliberalismo.

O senhor está fazendo um diagnóstico. Reafirmar valores seria uma linha para enfrentar essa situação?

Sem valores você não faz nada, é preciso reafirmar.

Quais seriam esses valores?

No nosso quadro, é liberdade, eu acho que são os da Revolução Francesa, a liberdade e a igualdade. Agora, entenda-se, as pessoas vão ter de participar. Isso não era assim na Revolução Francesa. Como você vai assegurar liberdade e ao mesmo tempo diminuir a desigualdade dando voz? Ou você convence as pessoas ou não consegue avançar. Já no meu tempo era assim. Deixa eu dar um último exemplo: o Plano Real. Qual o avanço do Plano Real sobre o Plano Cruzado? Tecnicamente sabiam o que tinha de ser feito, tinha de organizar as contas públicas, mexe o câmbio etc. Não podia fazer o que o Collor tinha feito, segurar as posses das pessoas, mas a grande diferença é que nós resolvemos avisar com antecipação o que ia acontecer e dar algum grau de liberdade às pessoas sobre o que ia acontecer. O salário vai ser em que? Em URV ou na moeda corrente? Foram todos para a URV. A decisão não foi imposta. Houve convencimento. Por isso tem de manter os valores. Como conseguir mais igualdade e mais liberdade se você não convencer a população de que elas são instrumentos bons para a vida de forma concreta? Os instrumentos tecnológicos que permitem a comunicação mudaram e mudou a produção. Esta se faz crescentemente por meios tecnológicos. E não dá emprego. E concentra renda. A ideia, que parecia absurda, da renda universal, não sei mais se é absurda. Como é que vão viver as pessoas? Vai matar? Isso não é o Brasil. Mesmo que queira não vai conseguir. É preciso arrumar uma solução para isso. Há problemas que não há como resolver, pois não há solução histórica para isso. Eu acho que estamos atravessando uma tempestade desse tipo. O Bolsonaro é acidente nisso aí, assim como o Trump nos Estados Unidos. Por isso que eu uso a expressão: tem de ter paciência histórica, mas por que? Porque eu estou fora do jogo do poder. Quem está fora do jogo do poder não pode ter paciência, tem de ser rápido, dar solução. Quem está fora, como você, tem de analisar e aí convém ter paciência histórica.

Estadão
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