“Não receber comentários sexuais na rua é um sonho”
Brasileiras contam como é viver nos países mais igualitários para as mulheres; Islândia, Finlândia e Noruega estão no topo do ranking
Uma mulher é vítima de violência a cada quatro horas no Brasil, segundo o levantamento "Elas vivem: dados que não se calam" feito pela Rede de Observatórios da Segurança. Os abusos físicos, psicológicos e sexuais, embora chocantes e proibidos por legislações, não saltam aos olhos como algo improvável por aqui. É quase inacreditável pensar que do outro lado do globo, sobretudo nos países nórdicos, a realidade das mulheres é bem diferente.
O estudo "Women, Peace and Security Index", criado pelo Instituto para Mulheres da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, traz dados que medem a inclusão das mulheres (econômica, social e política), acesso à Justiça e segurança em mais 170 países. Em 2022, lideraram o ranking três países europeus: Islândia, Finlândia e Noruega.
Em 2023, esses países continuaram entre os 10 primeiros, compartilhando o posto com Dinamarca, Suécia e Suíça. Para termos uma ideia, o Brasil ocupa a 115ª posição, atrás de nações como África do Sul (91), Equador (106), Ruanda (103) e Gana (108). O Afeganistão está no último lugar da lista.
A reportagem do Terra NÓS conversou com 10 mulheres que vivem na Islândia, Finlândia e Noruega e o que mais elas destacam é a segurança. “Sou livre, eu posso me vestir como eu quiser e sair à noite sem precisar apertar meu passo por conta de homem”, comentou Anna Kellen Bull, 31.
A jornalista especializada em marketing digital nasceu no Rio de Janeiro e, hoje, vive em Reykjavik, capital da Islândia. Ela também passou por Copenhague, na Dinamarca.
Yasmin Luisa Krug, 26, trabalha com marketing e se mudou de Florianópolis (SC) para Reykjavik também. Ela diz que se adaptar à cultura da segurança foi um processo.
“Quando morava no Brasil eu tinha o ‘celular do bandido’ – um aparalho mais velho como opção para caso seja roubada. Então, quando eu mudei para cá [Islândia], achava até que tinha alguma coisa errada. Não queria ir caminhando sozinha até a academia, por exemplo. Com o tempo, fui me adaptando à essa segurança”, conta.
Outros pontos citados pelas entrevistadas são salários mais equiparados, nenhum tratamento desigual em relação aos homens, poucos casos de assédio, serviços gratuitos de saúde e acompanhamento para gestantes – na Finlândia, por exemplo, existe uma espécie de bolsa-maternidade, custeando as necessidades básicas da vida de um recém-nascido e apoio às mães.
Elisa Nascimento, 36, teve seu primeiro bebê na Finlândia. Nutricionista e professora de danças urbanas, ela mora na cidade de Porvoo há cinco anos, após deixar Nova Iguaçu (RJ). Em conversa com a reportagem, Elisa comenta que o Estado concede licença-maternidade de até dois anos.
“É como um acompanhamento pré-natal, com visitas mensais à enfermeira ou ao consultório médico, no mínimo dois ultrassons, vários exames necessários para prever possíveis complicações, etc. Além disso, o governo fornece uma caixa-maternidade com enxoval para o bebê, auxílio-maternidade, um auxílio por criança”, descreve Elisa, sobre os serviços que recebeu.
Outra percepção dela é que o Dia das Mulheres, celebrado nesta sexta-feira, 8 de março, é um dia comum. “Não há distinção por ser mulher, e isso pode ser bom ou ruim. Por exemplo, no Dia das Mulheres você não vê muito 'auê' por aqui, como lojas enfeitadas ou distribuição de mimos para mulheres. É só mais um dia normal.”
Tássia Rebelo, 36, que trabalha com tecnologia, vive em Helsinque, na capital da Finlândia, e traz uma observação cultural de que ali as pessoas não tocam umas nas outras sem consentimento. O distanciamento é natural.
Além disso, a divisão de tarefas por gênero quase não existe, segundo ela. “Outra coisa que é muito comum, e que você não vê no Brasil, é um parquinho de crianças estar cheio de pais, homens levando os filhos para o trabalho, à escola, empurrando carrinho”, observa Tássia, que nasceu em Itacoatiara (AM).
Casos de assédio
Apesar da unanimidade no tópico da segurança, casos de assédio existem nesses países, ainda que numa escala menor que no Brasil. Gisele Pointis, 40, conselheira em administração e influencer, mora em Oslo, na Noruega, há 16 anos e relata que os casos de assédios são mais frequentes nos ambientes de trabalho.
Ela, que nasceu no Rio de Janeiro, se mudou com o marido por conta de melhores oportunidades de trabalho para estrangeiros. Outro aspecto de destaque é a representação política feminina da Noruega. “Nas eleições gerais de 2021, 76 mulheres foram eleitas para o parlamento. Isso dá uma proporção de aproximadamente 45%.”
Vale lembrar que, em 2019, a Finlândia chegou a ter a primeira-ministra mais jovem do mundo, com 34 anos. “Porém, nem tudo são flores. O país é muito avançado em questões de igualdade de gênero, mas não é 100%. Por exemplo, a mesma ministra foi duramente cobrada durante todo seu mandato, principalmente por coisas relacionadas à sua vida pessoal. Discutiu-se muito na época se um homem teria sido cobrado da mesma maneira”, relembra Elisa, em contraponto.
Voltando à Noruega, Juliana Linares Øverland, 49, conta ao Terra NÓS que os casos assédio no trabalho frequentemente aparecem nos jornais locais. No entanto, nos 11 anos que mora na cidade norueguesa de Stavanger, a advogada, atriz e criadora de conteúdo diz que foi assediada na rua uma vez, por um estrangeiro.
“Não receber cantadas e comentários sexuais na rua é um sonho. Isso eu adoro aqui na Noruega. Me sinto respeitada.” Natural de Belo Horizonte (MG), Juliana fala que os momentos de insegurança são quando precisa sair à noite e tem um grupo de jovens alcoolizados por perto.
Sobre mulheres em cargos de liderança, homens no setor do petróleo, inclusive, estão acostumados a ter chefes mulheres.
- “Aqui na Noruega existem incentivos para mulheres estudarem profissões tidas como masculinas e vice-versa. Muitas jovens integram o serviço militar hoje em dia. Os salários são equiparados na teoria, mas muitas vezes não vemos isso na prática. Apesar de ser um dos países mais igualitários do mundo, ainda não chegamos totalmente lá”, acrescenta.
Juliana comenta ainda sobre a experiência trabalhando em uma escola. “Um menino bateu em uma menina. Fui corrigi-lo, mas não pude dizer: ‘Não bata nela, ela é uma menina!’. Eu pensei um pouco e disse: ‘Não bata nela. Bater é errado.’ A gente se pega refletindo sobre as próprias crenças e cultura.”
Confira abaixo todos os depoimentos:
Anna Kellen Bull: Islândia
Tem 31 anos, jornalista especializada em marketing digital e criou uma agência de viagens e consultoria na Islândia. É do Rio de Janeiro (RJ) e vive em Reykjavik, Islândia.
Nunca fui assediada na Islândia. Já no Brasil, diversas vezes. Teve um um episódio muito triste que eu fui assediada no ônibus. Estava dormindo, indo para o trabalho às 5h da manhã, e um cara começou a se esfregar em mim. Por aqui, nem um olhar, nem um ‘psiu’.
@kellenbull quero contar pra vocês como tem sido todas as etapas do pré-natal na Islândia. essa é só a primeira parte. vou trazendo mais vídeos pra vocês com o tempo! me contem nos comentários se é parecido ou diferente do Brasil? :) #islandia #prenatal #gravidez #gravidadeprimeiraviagem #gravidasnotiktok ♬ original sound - Kellen | Islândia e Dinamarca
Eu engravidei na Islândia e fiz o pré-natal. Aqui quem atende são profissionais que atuam como parteiras. Não são médicas, mas são especializadas nisso. Muito legal também a importância que eles dão à saúde mental da mãe.
Uma coisa que eu achei diferente é que gestante não tem preferência em fila, assento no transporte público. Assim você fica igual. Além disso, você vê muitas mulheres em posições que geralmente são predominantemente masculinas, como na área da construção, por exemplo.
Yasmin Luisa Krug: Islândia
Tem 26 anos, trabalha na área de marketing. É de Itapema (SC) e vive em Reykjavik, capital da Islândia.
Um dos pontos decisivos para morar na Islândia foi a questão da segurança social. No início, eu me sentia culpada, por exemplo, de ir caminhando para a academia à noite, mas é seguro. As leis trabalhistas também fizeram uma grande diferença para mim. Aqui, tenho cinco semanas de férias, em dias úteis. O meu salário também é muito melhor do que no Brasil, não só pela conversão, mas pelo poder de compra também.
@elignawild #islândia #rotina #vinho #cervejaria #mercadonaeuropa #brasileirospelomundo #vidanaeuropa #vidananeve #frioooooooo🥶🥶🥶🥶🥶 #europa ♬ som original - Yasmin Luisa Krug
Por aqui, as pessoas têm suporte caso tenham filhos. Na empresa em que eu trabalho, por exemplo, a licença-maternidade é de 12 meses. Há muita flexibilidade em relação à constituição da família. E também tem licença-paternidade estendida, de seis meses. Achava que minha vida não poderia incluir um filho, se eu quisesse ter sucesso na minha carreira, sabe? Aqui é diferente.
Tássia Rebelo: Finlândia
Tem 36 anos, trabalha com tecnologia. É de Itacoatiara (AM) e vive em Helsinque, na Finlândia.
Subestimei muito a minha adaptação. Percebi que a vida no país mais feliz do mundo não significa uma vida abundante de alegria. Na rua, as pessoas não te olham e ninguém se encosta. Tanto que, na época da pandemia, as pessoas até brincavam: 1,5 metro de distanciamento era pouco para o finlandês, porque na verdade ele já está acostumado a ficar bem mais distante.
O contato físico não é comum. Nas aulas de tecido acrobático, a professora, quando precisava ajustar a posição, sempre pedia licença para tocar no meu corpo. Respeitar o espaço do próximo, é um valor muito importante para os finlandeses.
E a Finlândia é um país lindo. Parece que você mora no Pinterest. Mas, é difícil fazer amizades. Pensando nisso, criei uma comunidade internacional de mulheres. Se chama Secret Club. A gente faz encontros, para tomar café ou brunch, sair para jantar. Inclusive, neste Dia das Mulheres teremos um evento em um restaurante.
Maria Julia Aguiar: Finlândia
Tem 29 anos, medievalista e doutoranda em estudos medievais em universidade de Portugal. É de Florianópolis (SC) e vive em Oulu, na Finlândia.
É um país muito seguro. Tem vezes que eu saio na rua meia-noite, 1h da manhã, tem gente levando cachorro para passear de madrugada. Então, nunca fiquei com medo de andar sozinha. A única preocupação, sendo uma mulher, são os bêbados porque a Finlândia tem um problema sério de alcoolismo.
@maajuks Um dia normal no inverno finlandês #fy #brasileirospelomundo #foryou #imigrantesbrasileiros #vidanoexterior #morandofora #finlandia #relatosdeumamoradora #polonorte #imigrante #rotina #curiosidades #escuridão #inverno #vlog ♬ Twinkling Lights (Reimagined) - Auni
Quanto aos serviços para mulheres com filhos, nas escolas você não precisa gastar nada. O governo dá material e comida. E, geralmente, colocam as escolas perto das casas das famílias. Em alguns casos, você quer continuar naquela escola, às vezes o táxi do seu filho é pago.
- Outro ponto é que o aborto é legal na Finlândia [foi um dos primeiros países da Europa a legalizar o procedimento]. E é bem assistido e acolhido, sendo um processo muito seguro. Tem esse cuidado todo com a mulher.
Elisa Nascimento: Finlândia
Tem 36 anos, nutricionista e professora de danças urbanas. É de Nova Iguaçu (RJ) e vive em Porvoo, na Finlândia.
Já fui assediada verbalmente apenas por imigrantes. De homens finlandeses já recebi olhares apenas, mas nada muito invasivo. No geral, são acontecimentos raros, me sinto bem segura nesse quesito. Por exemplo, quando saio à noite, tenho que voltar para casa por um caminho bem deserto, e me sinto segura.
@lisa.black.fi TD QUE GANHEI GRÁVIDA NA FINLÂNDIA 🇫🇮 Com o intuito de combater a baixa natalidade e as altas taxas de mortalidade infantil, o governo Finlandês criou a lei de subsídio de maternidade em 1937, e desde 1949 a caixa maternidade é distribuida gratuitamente para as mães de qualquer classe social. A caixa contém atualmente 38 itens, entre eles roupas para o bebê (de variados tamanhos), roupas de cama, itens de higiene e outros. Cada ano a caixa passa por atualizações, porém o benefício é sempre mantido como parte da tradição do país. Obs: Além da caixa maternidade do governo, tbm trouxe como "informação bônus" outros mimos que as mães conseguem de graça aqui na Finlândia. Me conte nos comentários o que vc achou!! 🥰😍 #maternidadereal #gravidez #finlandia #vidadeimigrante #fy ♬ som original - Lisa.Black.Fi
De pontos positivos em morar na Finlândia eu destacaria a segurança, sem dúvida em primeiro lugar. Depois, a educação gratuita e acessível, do ensino fundamental até o superior. O poder de compra, mesmo num país com um custo de vida elevado, te possibilita pequenos luxos, vivendo com um salário mínimo.
Gisele Pointis: Noruega
Tem 40 anos, formada em psicologia, conselheira em administração e influencer nas horas vagas. É do Rio de Janeiro (RJ) e vive em Oslo, capital da Noruega.
O assédio sexual na Noruega existe. 1 em cada 5 mulheres já sofreram assédio no lugar onde é mais comum deste tipo de coisa acontecer por aqui: no ambiente de trabalho. Porém, eu nunca presenciei nenhuma mulher sofrendo assédio ao caminhar nas ruas de Oslo. Aprecio a sensação de liberdade e segurança como mulher.
Quando se tem um filho na Noruega, os pais recebem a licença parental de 12 meses, que pode ser dividida entre o pai e a mãe. O pai tem de tirar, no mínimo, 15 semanas de licença paterna, permitindo que a mãe volte para o trabalho, se ela assim preferir. Caso ainda esteja amamentando o bebê, ela pode deixar o trabalho por uma hora, sem que isso reduza o salário.
A Noruega prioriza o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, e isso é uma das coisas que mais amo no país. Como mãe, me sinto acolhida por poder, por exemplo, deixar o trabalho um pouco mais cedo para buscar as crianças na escola, além de ter 20 dias por ano (divididos com o pai) para ficar em casa, caso a criança adoeça, sem a necessidade de apresentação de licença-médica.
Juliana Linares Øverland: Noruega
Tem 49 anos, advogada, atriz, empresária, escritora e criadora de conteúdo. É de Belo Horizonte (MG) e vive em Stavanger, na Noruega.
No integral de uma escola, tanto as mulheres como os homens fazem comida para as crianças. No meu antigo trabalho não tinha essa coisa de os homens carregarem o mais pesado ou abrirem a porta para as mulheres. As minhas colegas carregavam caixas pesadas. O tratamento de homens e mulheres é de igual para igual.
O outro lado dessa moeda é que ninguém segura a porta para uma mulher entrar. Nem se ela estiver grávida ou empurrando um carrinho de bebê. Isso raramente acontece. Em parte, as mulheres norueguesas preferem assim.
Como imigrante, sei que as oportunidades profissionais não são as mesmas. A gente tem que mostrar que fala norueguês fluentemente para chegar a uma entrevista de emprego, por exemplo. Muitos imigrantes trocam de sobrenome e, assim, aumentam as chances de chegar a uma entrevista de emprego.
Eu senti na pele a dificuldade de adaptação, de aprender o idioma. Também escrevi o livro “Alegria Blindada” sobre as ferramentas para evitar a depressão de inverno, pela qual passei.
Erinice Eversvik: Noruega
Tem 38 anos, coordenadora em escola municipal. É de Paranaguá (PR) e vive em Bergen, na Noruega.
Aqui na Noruega não acontece de você sair e os homens ficarem mexendo com você no caminho. Não conheço histórias de assédio como as que temos no Brasil.
Trabalho em uma escola pública aqui e na área da educação somos em maioria mulheres. Todas os cargos de liderança são ocupados por mulheres. Minha experiência é positiva. Posso dizer sem problemas que vou faltar no trabalho por causa de cólicas fortes ou filho doente e serei bem atendida.
Aqui, meninas e meninos brincam de carrinho, casinha ou bonecas juntos. Eles montam lego e não escutam que isso ou aquilo é brincadeira de um ou outro gênero. Elas não sofrem tanto preconceito quando escolhem jogar futebol. E isso faz com que aprendam que podem, sim, ser o que quiserem, dirigindo um caminhão, cuidando dos filhos ou liderando o país.
- A Noruega tem um sistema mais igualitário que o Brasil. Nem por isso posso dizer que o sistema é perfeito. Existe ainda muito preconceito em relação a imigrantes, principalmente por causa de raça ou religião.
Jéssica Haugen: Noruega
Tem 30 anos, criadora de conteúdo digital. É de São Vicente (SP) e vive em Ålesund, na Noruega.
No caso de assédio, eu nunca vivenciei aqui. Me sinto super segura. Às vezes, a gente tem que fazer as coisas à noite e não tem iluminação na rua. Tem que usar lanterna até. Mesmo muito escuro, em nenhum momento eu me sinto com medo.
Em casos de maus-tratos contra a mulher, em que a mulher é fragilizada, tem um órgão aqui que a gente pode acionar a qualquer momento. Eles pegam a mulher com a criança e colocam no abrigo, pagam aluguel, arranjam um emprego para essa mulher, ajuda com creche, etc. Se foram parceiros abusivos, eles não têm acesso à mulher nem à criança. Esse é um exemplo de respaldo em casos de abuso.
Tatiana Michels: Islândia
Tem 37 anos, chef de cozinha. É de Ivaiporã (PR) e vive em Reykjavik, capital da Islândia.
Em cinco anos aqui, uma única vez algo aconteceu de um carro passar com homens e mexerem comigo. Me sinto segura mesmo ao sair de noite, ando pelas ruas sem medo. E sobre representação feminina na política, conheço várias políticas influentes em seus partidos aqui, inclusive mulheres trans. Outro ponto de destaque é o salário igualitário para homens e mulheres.