Isis Broken reflete sobre maternidade e carreira musical: 'Lancei meu disco com apoio do governo Bolsonaro'
Na indústria do audiovisual há alguns anos, ela é uma referência quando o assunto é arte e transgeneridade
A história de Isis Broken, de 29 anos, renderia um filme ou, no mínimo, uma saga de livros – daqueles bem volumosos que chamam atenção em qualquer estante. Nascida no menor Estado do País, o Piauí, ela entendeu logo cedo que teria que remar contra correntezas e romper barreiras caso quisesse ocupar os espaços que tanto figuravam em seus sonhos.
- Essa reportagem faz parte da série Nós Somos Potência, em que pessoas trans de destaque em diversos setores da sociedade contam suas histórias, vivências, dificuldades e conquistas
“Meu nome não é Isis à toa, né, meu amor, porque eu sou terrorista de gênero”, iniciou ela, em entrevista exclusiva ao Terra, fazendo referência ao grupo extremista para fazer jogo de palavras com o próprio nome.
O desejo de ser artista não foi semeado em sua mente ‘do nada’, houve inspiração familiar. “Meu avô era repentista e cordelista. Eu lembro da gente sentar, ouvir música, ele colocava vitrola pra gente ouvir. Minha mãe é professora, meu pai era gráfico. Então eu acho que eu vim de um lugar onde a arte pulsava muito”, disse ela, refletindo sobre sua veia artística.
Mesmo com a arte pulsando dentro do seio familiar, trabalhar com o segmento não era algo recebido com bons olhos, o fato de ser uma pessoa transgênero colocava tudo mais à margem.
“Esse receio de ser de Sergipe, de ser do menor estado do país, quando a gente fala que quer ser artista, as pessoas falam que a gente vai morrer de fome. E eu consegui, assim, com muita dificuldade e uma dupla dificuldade também por ser uma pessoa trans’ -- Isis Broken
‘Bolsonaro pagou meu primeiro disco’
Multiartista, Isis não permitiu que a opinião e o preconceito alheio lhe parassem. Ela tentou de tudo para atingir seus objetivos, se dedicou à música e estudou artes dramáticas. Seu primeiro disco, Bruxa Cangaceira, ela se orgulha de falar que foi ‘financiado pelo governo de Jair Messias Bolsonaro (2018-2022)’. Não que ela tenha afeição por políticas de direita, muito pelo contrário. Mas foi um projeto de captação que foi viabilizado neste período.
Avessa ao ex-presidente, na época, ela fez questão de protestar contra o governo em seu disco. “A Linn da Quebrada estava no Big Brother e ela falou em dois momentos sobre mim. Um foi sobre a minha carreira artística musical, o meu primeiro disco, que eu lancei com o auxílio do governo. Na época era o governo Bolsonaro. E aí [eu decidi] começar na introdução do meu álbum falando: ‘Morte ao governo que pagou esse disco’. Porque eu achei que era extremamente forte ter uma travesti e afro-indígena à frente disso”
Na mesma época, a artista já conquistava alguns espaços no mainstream, como participar de alguns programas do GNT, do Canal Brasil, entre outros canais do grupo Globosat. Mas ela começou a ganhar notoriedade nacional quando engatou alguns papéis seguidos na TV.
Ao contrário do que muitos podem pensar, nada lhe foi dado, tudo foi conquistado. Fazendo jus ao jogo de palavras da própria, Isis sempre fez questão de romper as barreiras, ‘quebrar tudo’, mostrar preparo. Claro, houveram propostas e convites no caminho, mas muitos lugares que ocupou foram cavados com as mãos e validados por seu estudo e talento.
“Depois de um curso eu consegui um teste pra minha primeira minissérie na Globo, que foi Histórias Impossíveis, que foi Falas de Orgulho, que foi super representativo. Foi quando eu fiz a Matheusa. Depois eles me deram um curso de mais duas semanas presencial lá na Globo e aí eu saí com a Corina Castelo [de No Rancho Fundo] e o outro [papel] foi sobre a nossa gestação, né?", comentou ela.
"‘Apolo’ foi um presente, veio nesse momento, assim, de transição também da minha vida, de carreira, de lançar disco novo então foi muito significativo” -- Isis Broken
‘Maternidade travesti é missão’
Se por um lado o especial Falas de Orgulho e a novela No Rancho Fundo (Globo) renderam à Isis visibilidade nacional. Por outro, o filme-documentário Apolo, que acompanha a atriz e seu marido que viveu uma gestação transgênero na pandemia, lhe rendeu prestígio.
Pela obra, onde conta os desafios e transformações que passaram, ela foi premiada no Festival de Cinema do Rio de Janeiro nas categorias Melhor Longa-Metragem Documentário e Melhor Trilha Sonora Original, realizada pelo músico Plínio Profeta
Com a maternidade veio também aprendizados e vontade de lutar por outra pesso além de si mesma.
“Maternidade travesti é missão. E vai totalmente nesse contraponto da ótica da cisgeneridade, de achar que nas famílias LGBTs, as crianças vão crescer deturpadas. [Apolo] é uma criança muito abençoada, de muita luz. Onde ele chega, as pessoas ficam: ‘Nossa, que criança linda, que criança educada’” -- Isis Broken
‘Representatividade importa’
Na indústria do audiovisual há alguns anos, Isis Broken é uma referência quando o assunto é arte e transgeneridade. Cotidianamente, ela lembra a importância de resistir nesse local. Na visão dela, todo papel que faz na TV, é uma barreira a menos para a próxima geração.
“Eu, quando eu era criança, não via pessoas trans na televisão e todas as vezes que a gente via eram em um lugar de chacota, no Zorra Total, na Praça Nossa, era o Pit Bicha, o Pit Bitoca, a Vera Verão. Óbvio que foram caras importantes, mas também era um lugar de muita repressão, porque a gente também sofria por isso”.
“Eu lembro que quando a gente tava gravando ‘No Rancho Fundo’, a gente tava vivendo um momento histórico da TV. Todas as novelas tinham pessoas trans atuando. Então foi um momento muito histórico, acho que foi a primeira vez que eu liguei a TV e vi pessoas trans em todos os horários. Só 0,1% dos personagens da TV e do cinema são pessoas trans, então assim, a gente tá no quase zero. Então é por isso que a gente tá sempre lutando e batalhando e pedindo pelo fim do ‘trans fake’.
Em um momento favorável profissionalmente, para o futuro breve ela visa unir cada vez mais suas duas paixões: o trabalho e o filho. “Se eu pudesse juntar as duas coisas, acho que eu seria muito feliz, se eu pudesse levar a pauta para o set… estou fazendo um filme com ele [Apolo], seria incrível, até porque ele já é artista, um dia desse ele falou: ‘Mamãe, quando eu crescer eu quero ser como você’, aí eu falei: ‘Vamos fazer um filme, filho’”.