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O sacramento, realizado em uma igreja católica, rompeu barreiras simbólicas, a atriz compartilhou que foi uma boa experiência, momento de acolhimento e respeito com ela e com o filho.  Foto: Arquivo pessoal Isis Broken

"Entrar na igreja como mãe travesti e batizar meu filho foi um gesto de fé, proteção e amor", diz a atriz Isis Broken

O sacramento, realizado em uma igreja católica, rompeu barreiras simbólicas

Imagem: Arquivo pessoal Isis Broken
  • Luana Nunes
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18 mar 2026 - 04h57
O sacramento, realizado em uma igreja católica, rompeu barreiras simbólicas, a atriz compartilhou que foi uma boa experiência, momento de acolhimento e respeito com ela e com o filho.
O sacramento, realizado em uma igreja católica, rompeu barreiras simbólicas, a atriz compartilhou que foi uma boa experiência, momento de acolhimento e respeito com ela e com o filho.
Foto: Arquivo pessoal Isis Broken

Para a atriz e cantora Ísis Broken, de 31 anos, a maternidade não é um conceito estático, mas uma travessia de descobertas e enfrentamentos. Mãe de Apolo, de 4 anos, a artista sergipana vive hoje o desafio da maternidade solo, transformando o cotidiano em um ato de resistência e amor. Recentemente, um marco espiritual selou essa jornada: o batismo de seu filho na igreja católica.

A atriz falou sobre o significado desse momento, Isis é enfática ao descrever a conexão entre sua origem e sua crença. "Batizar o Apolo foi um momento muito importante pra mim. A fé sempre esteve presente na minha formação, na minha história nordestina, na minha relação com espiritualidade e proteção", afirma.

O sacramento, realizado em uma igreja católica, rompeu barreiras simbólicas, a atriz compartilhou que foi uma boa experiência, momento de acolhimento e respeito com ela e com o filho: "Em nenhum momento houve qualquer tipo de recusa ou questionamento sobre batizar o Apolo. Pelo contrário, o acolhimento foi muito respeitoso. Para mim foi importante viver essa experiência porque mostrou que a fé também pode ser um lugar de encontro e de cuidado".

O padre Paulo Sérgio Bezerra, que autorizou a realização do batismo, feita pelo Ministro Márcio, afirmou que não houve barreiras institucionais e nem da comunidade: “ Tenho apoio de toda a comunidade com suas lideranças".

Foto: Arquivo pessoal Isis Broken

Questionado sobre como a igreja define o papel de pais e padrinhos no contexto de famílias diversas, o padre deixou claro que, independente desse contexto, "a Igreja, por fidelidade ao evangelho, deve estimular pais e padrinhos a darem testemunho da sua fé, ensinando os afilhados a conhecerem a pessoa de Jesus Cristo através do evangelho e  do testemunho de fé pela prática religiosa", explica.

O caminho de Isis até até o sacramento do batismo foi mediado pelo MOPA, um grupo que desde 2018 atua na acolhida de católicos LGBTQIA+ e suas famílias. O processo seguiu o rito padrão da paróquia, sem distinções. O grupo faz parte da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, que reúne dezenas de grupos Brasil afora. É filiada do CNLB - Conselho Nacional de Laicato Brasileiro e reconhecida pela CNBB- Conferência Nacional de Bispos do Brasil.

A cerimônia contou com a presença de amigos e pessoas próximas, todos da comunidade LGBTQIA+, em um ambiente que já sinaliza mudanças internas.

Sobre o momento em que decidiu pelo batismo, ela revela que o desejo nasceu da necessidade de proteção que a maternidade impõe. "Entrar na igreja como mãe travesti e ver meu filho sendo batizado foi um momento de muita emoção. Batizar meu filho foi um gesto de fé, proteção e amor", declarou.

Assim como a realidade de muitas mulheres no Brasil, Isis também é uma mãe solo, pelo menos desde o ínicio deste ano: "Hoje sou eu e meu filho vivendo essa experiência cotidiana de família, sem nenhum apoio material ou financeiro de outras pessoas. É um desafio grande, mas também um lugar de muita força", desabafa.

Foto: Arquivo pessoal Isis Broken

Essa configuração familiar trouxe uma nova percepção sobre si mesma. Quando provocada a refletir sobre como a chegada de Apolo transformou seu "eu", Isis descreve o filho como um "espelho profundo". A maternidade a fez revisitar a menina nordestina que foi, e a responsabilidade de ser agora a referência afetiva de uma criança. Para ela, ser uma mãe travesti é, por definição, um ato político.

"A minha maternidade é transgressora simplesmente porque eu existo", pontua ela ao comentar sobre os moldes pré-estabelecidos pela sociedade. "A sociedade criou uma ideia muito rígida de quem pode ser mãe. Eu sou uma mulher travesti, artista, nordestina e mãe. Então minha existência já desmonta muitos desses moldes. Mas, ao mesmo tempo, minha maternidade é muito simples: é cuidado, presença, amor, limite, educação".

O cotidiano, contudo, ainda impõe barreiras. Ao falar sobre os maiores desafios burocráticos ou sociais, a atriz aponta desde formulários que ignoram sua existência até o preconceito velado que tenta deslegitimar sua capacidade afetiva. "O maior desafio é lidar com o imaginário social que tenta questionar a nossa capacidade de amar e cuidar. Como se a maternidade tivesse um tipo de corpo autorizado para existir", critica.

A resposta a esse estigma, segundo ela, é dada na prática. Ao ser questionada sobre como lida com essas barreiras no dia a dia, ela afirma que a educação e o carisma de Apolo são seus maiores argumentos. "No dia a dia, seja na escola, no médico ou em espaços públicos, o que desmonta o preconceito é a realidade".

Essa realidade ganha escala quando Isis ocupa as telas. Com passagens marcantes pela televisão, como na novela ‘No Rancho Fundo’, ela acredita que sua presença ajuda a normalizar famílias diversas. Ao refletir sobre a representatividade na tela, ela faz questão de agradecer aos profissionais que abriram caminhos.

"Estar em uma novela significa entrar diariamente na casa de milhões de pessoas e ampliar o repertório de histórias que o público conhece sobre quem somos", celebra. Para Isis Broken, sua arte e sua vida se fundem em uma ferramenta de proteção: "Quando eu falo sobre maternidade travesti, sobre afeto, sobre família, eu não estou falando só de mim. Estou abrindo caminhos para que outras pessoas também possam existir com menos medo".

Um documento de 2018, do Dicastério para a Doutrina da Fé, apoiado pelo Papa, afirma que pessoas trans podem receber o Batismo, desde que não exista risco de causar escândalo público ou confusão entre os fiéis.

Além disso, crianças de casais homoafetivos, incluindo aquelas nascidas de barriga de aluguel, podem ser batizadas, desde que haja esperança de que elas sejam educadas na fé católica. Assim, não há impedimento para que pais ou responsáveis trans realizem o batismo de seus filhos dentro da Igreja Católica, desde que atendam às condições estabelecidas.

Fonte: Terra
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