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Carolina Ignarra se tornou uma das principais vozes do ativismo anticapacitista no país  Foto: Divulgação/Talento Incluir

Carolina Ignarra diz que 'inclusão não pode ser só obrigação' e cita fadiga por acessibilidade: 'Cansativo ter que prever tudo'

Empresária e ativista, CEO da Talento Incluir participa do Tempo de Mulher e pretende levar ao palco uma reflexão sobre 'fadiga de acesso'

Imagem: Divulgação/Talento Incluir
  • Marcela Ferreira Marcela Ferreira
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25 mai 2026 - 04h59
Carolina Ignarra é fundadora da Talento para Incluir
Carolina Ignarra é fundadora da Talento para Incluir
Foto: Reprodução/Instagram

A vida de Carolina Ignarra mudou completamente há 25 anos. Aos 22, ela sofreu um acidente que causou uma lesão medular e passou a usar cadeira de rodas. O que poderia ter interrompido sua trajetória profissional acabou se tornando o ponto de partida para transformar o debate sobre inclusão no mercado de trabalho no Brasil.

Hoje, aos 47 anos, Carolina é CEO e sócia-fundadora da Talento Incluir, consultoria referência em inclusão produtiva de pessoas com deficiência, responsável pela empregabilidade de mais de 10 mil profissionais em mais de 700 empresas desde 2008. Também é cofundadora da Talento Sênior, voltada para profissionais acima dos 45 anos.

Carolina se tornou uma das principais vozes do ativismo anticapacitista no país. Colunista, autora e palestrante, ela volta ao evento Tempo de Mulher, do qual faz parte desde a primeira edição. Neste ano, pretende abordar justamente o esgotamento emocional provocado pela luta constante por acessibilidade e igualdade.

“Hoje em dia não está tudo bem, estou muito cansada. Estou muito fadigada. Esse cansaço tem a ver com a jornada. Trabalho para todo mundo é muito desafiador, mas ainda existe a questão de ser mulher e a barreira da falta de acessibilidade -- Carolina Ignarra ao Terra

Carolina conta que, antes do acidente, trabalhava atendendo empresas em diferentes regiões de São Paulo, utilizando transporte público diariamente. Após a lesão, acreditou que não conseguiria mais trabalhar. A volta ao mercado aconteceu apenas três meses depois, graças ao incentivo das antigas gestoras.

“Quando o acidente aconteceu, eu era recém-formada, jovem, começo de carreira. E quando pensei que não pudesse mais trabalhar por conta da lesão, tive a oportunidade de voltar porque minhas gestoras enxergaram potencial em mim muito antes de eu perceber”, relembra. “Quando voltei, percebi que eu era a mesma pessoa. O que mudou foi minha condição de caminhar”.

Foi justamente observando a dificuldade de inclusão de outras pessoas com deficiência no mercado que surgiu a ideia de criar a Talento Incluir. “A maior parte das pessoas que adquirem uma deficiência acaba perdendo as oportunidades de trabalho”, diz. “Eu tive muitos privilégios e oportunidades”.

“A fadiga de acesso vai pesando”

Ao falar sobre os desafios da carreira, Carolina afirma que o tema que mais tem ocupado seus pensamentos atualmente é o que chama de “fadiga de acesso”, um conceito usado para definir o desgaste constante provocado pelas barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência no cotidiano.

“É cansativo ter que prever tudo. Quando uma executiva viaja a trabalho, ela desce do avião e vai embora. Eu preciso esperar apoio, orientação, transferência. Esses minutos vão se acumulando” -- Carolina Ignarra

Até situações simples acabam se tornando desgastantes no cotidiano. “Eu ainda preciso ligar para hotéis para confirmar se o quarto realmente é acessível. Se eu não ligar, corro o risco de chegar lá e não ser”, revela.

A empresária também cita o peso emocional da exposição constante. “Quando não tem acessibilidade, você entra como um acontecimento. O restaurante inteiro olha para você. O bar inteiro olha. Isso também cansa. A gente vive num sistema de alerta o tempo todo, tendo que provar que consegue.”

Segundo Carolina, as barreiras vão muito além da arquitetura. Existem barreiras metodológicas, comunicacionais, mas a que mais pesa é a barreira das atitudes. “O tempo todo a sociedade faz a gente provar capacidade”, explica. Esse desgaste afeta diretamente a saúde mental e até o desempenho profissional, já que a exigência é pela performance igual a dos outros, mas o cansaço para chegar no mesmo ponto de partida é maior.

Mulher, empresária e pessoa com deficiência

Foi justamente observando a dificuldade de inclusão de outras pessoas com deficiência no mercado que surgiu a ideia de criar a Talento Incluir
Foi justamente observando a dificuldade de inclusão de outras pessoas com deficiência no mercado que surgiu a ideia de criar a Talento Incluir
Foto: Divulgação/Talento Incluir

Carolina também falou sobre o peso das múltiplas jornadas enfrentadas pelas mulheres, especialmente pelas mulheres com deficiência. “Hoje acordei com a ajudante avisando que não vinha e toda a rotina muda”, conta. “Mesmo com um marido parceiro, ainda existe uma pressão social muito grande em cima da mulher”. Ela afirma que frequentemente se sente cobrada por priorizar a carreira.

“Existe uma sensação de que eu deveria estar mais em casa, mais disponível para a família. São cobranças que deixam a gente ainda mais cansada. Parece que a gente se questiona o tempo todo se escolheu certo.”

Apesar disso, ela considera que encontros com outras mulheres ajudam a fortalecer essa caminhada. Para a empresária, é importante para as mulheres encontrarem força umas nas outras, abrindo caminhos para futuras gerações.

Inclusão não pode ser “só obrigação”

Na avaliação da empresária, muitas empresas ainda enxergam a inclusão apenas como obrigação legal. “A maior parte das empresas contrata por obrigação”, afirma. “Mas inclusão sustentável acontece quando existe equilíbrio entre obrigação, conveniência e convicção”, defende.

A diversidade e inclusão também são pautas estratégicas para os negócios, na visão de Ignarra, mas ela alerta para o risco de limitar o tema apenas ao impacto financeiro. “É bom para o negócio, mas também é essencial para as pessoas que movem os negócios”, pontua dizendo que as pessoas devem ser sempre prioridade.

Segundo Carolina, o capacitismo ainda é pouco compreendido dentro das organizações. Dados de uma pesquisa realizada pela Talento Incluir mostram que 86% das pessoas com deficiência afirmam sofrer capacitismo no ambiente de trabalho. “Enquanto a sociedade não conhecer o capacitismo, esses indicadores não mudarão. São microagressões sobrepostas durante uma vida inteira.”

Ela também destaca que muitas pessoas com deficiência acabam não se candidatando a oportunidades de crescimento porque não se sentem pertencentes àquele espaço. “Falta representatividade. Muitas vezes a pessoa acha que aquele lugar não é dela.”

“Se estiver cansada, descansa e volta amanhã”

O apoio coletivo e a construção de redes de apoio é fundamental na visão de Ignarra, ao falar sobre mulheres com deficiência que estão começando a carreira.

“Hoje praticamente todas nós somos as primeiras. A primeira da empresa, da faculdade, do curso… Quando nos unimos, nos fortalecemos” -- Carolina Ignarra

Aprender a respeitar os próprios limites é a chave para ter sucesso na jornada, segundo Carolina. “Se estiver cansada, descansa e volta amanhã”, aconselha. “Recebi esse conselho de uma candidata cadeirante que empregamos e nunca mais esqueci”.

Ela diz que continuar ocupando espaços ainda é fundamental para transformar a cultura da sociedade. “Qualquer mulher com deficiência em um lugar de produtividade e reconhecimento ajuda a acelerar a mudança.”

“A gente precisa continuar para que as próximas gerações encontrem uma sociedade mais inclusiva, mais evoluída e mais justa”, finaliza.

Fonte: Portal Terra
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