Capa: Manoela Leão/Foto: Helder Ferrer


Uma Substância Perigosa e Inflamável
 

Por Renato L




Toda boa banda de rock é irregular. Quem toca sempre redondinho, quem grava discos com os arranjos sempre no devido lugar, quem nunca desafina nem nos agudos nem nos graves está incapacitado a merecer seu lugar na galeria dos lendários cowboys do rock and roll.

O Querosene me parece antes de tudo uma banda de rock, por mais que nas suas composições entrem influências de funk, baião ou sei lá mais o quê. É Rock sim, e irregular, às vezes perigosamente bêbado, às vezes disperso, mas em algumas noites capaz de fazer o menor palco parecer um templo dourado do pop qualquer, estilo Cavern ou CBGB.

Uma das últimas vezes em que eu assisti os caras tocarem foi num bar de beira de praia em Maracaípe, no litoral sul de Pernambuco. Chovia sem parar há umas três ou quatro horas, o mar rugia numa ressaca monumental, a água encharcava cada milímetro do ar e uma platéia de nativos dançava standards pop executados por um grupo cover qualquer. As clássicas "más condições de temperatura e pressão" para qualquer artista que se preze...

Pois bem, os caras rastejaram para o minúsculo palco, plugaram os instrumentos e...BOOM! umbigos queimados balançavam os seus piercings, hippies divagavam sobre o Tangerine Dream ( juro, aconteceu, e bem perto do meu ouvido esquerdo ) e o italiano dono do pedaço se apossou de uma percussão qualquer como um veterano músico convidado.

Nesse novo disco, essa energia do Querosene vem mais bem engarrafada do que no seu trabalho de estréia. Antes de tudo, a produção se preocupou em registrar com cuidado os tons mais graves, um velho defeito dos produtos que saem dos estúdios brasileiros. O resultado foi um das melhores texturas de bateria já extraídas na manguetown, uma pegada que me lembrou, guardando as proporções, as coisas que o Rick Rubin ( produtor do primeiro disco dos Beastie Boys e chefe do selo Def Jam ) fazia sampleando o batera do Led Zeppelin.

Portanto, brothers and sisters, consumam o Querosene como se o futuro não existisse. A vida é breve e combustíveis como esse é que dissipam o tédio nosso de cada dia.



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