Sheik Tosado: Hardcore e Gilberto Freire.
por Adelson Luna



Sheik era um cachorro olindense muito rebelde que odiava ser tosado. Para cumprir essa ardorosa missão, seu dono tinha sempre que dopar a peluda criatura. Foi se baseando nesse pitoresco episódio que, em 1996, os irmãos China (vocal) e Bruno Ximarú (guitarra), juntamente com o percussionista Oroska, batizaram a sua banda com o nome de Sheik Tosado.

Apontado como a grande revelação do Abril Pro Rock 98, o grupo acaba de lançar seu primeiro disco intitulado "Som de Caráter Urbano e de Salão", pelo selo Matraca, da gravadora Trama. O contato com a empresa surgiu via Carlos Eduardo Miranda - o descobridor de talentos do pop brasileiro. "Depois do nosso show, no Abril, ele entrou no camarim dizendo que havia gostado muito do que viu. Semanas depois, nos telefonou falando que queria contratar a gente. Apareceram outras propostas, mas a da Matraca foi realmente a melhor", conta China.

China também não esconde a satisfação com o trabalho que a gravadora vem fazendo: "Até agora, eles estão cumprindo tudo o que prometeram", comemora. Som de caráter urbano e de salão (explicação para a palavra frevo, encontrada num dicionário de folclore), além de ser o nome do disco, é a melhor definição para o som do Sheik, segundo seu vocalista. Ele foi produzido por Carlo Bartolini (Ira!, Pavilhão 9) e Pupilo, batera da Nação Zumbi, e mixado pelo americano Bill Kennedy - que já emprestou seus serviços ao Alice in Chains, Nine Inch Nails e Danzig.

Alguns jornalistas com problemas de audição ou preguiça de ouvir todo o disco se apressaram em dizer que o Sheik é uma cópia do Raimundos. Apesar de terem em comum doses de crossover (mistura de hardcore e metal tipo S.O.D ou D.R.I - grupos americanos), as bandas em questão seguem em direções diferentes, tanto musicais quanto conceituais. Sobre as características dos brasilienses, todo mundo já conhece. Quanto aos pernambucanos, suas letras exploram temas ligados ao folclore de Pernambuco e temas sociais sem pedantismo (vide "Toda Casa tem um Pouco de África", inspirada no sociólogo Gilberto Freire; e "La Ursa", uma brincadeira do carnaval do Estado). Na música em si, os garotos "tosados" agregam ao som pesado ritmos brasileiros como bossa-nova, frevo, embolada e capoeira sem exagerar na dose. Enfim, o impacto sonoro das apresentações ao vivo do grupo foi transposto de maneira competente para o CD.

Zimbo Trio - Apesar dessa ascensão meteórica e da pouca idade dos integrantes (média de 20 anos), a rapaziada do Sheik sabe que o trabalho está apenas no início e já planeja fazer vários shows pelo sul e nordeste com a intenção de divulgar o disco. "Ainda não fizemos nenhuma apresentação em capitais nordestinas fora Recife", explica China. E o que eles têm escutado ultimamente? Mutantes, Jorge Ben, Stooges, Dead Kennedys, Prodigy, Chemical Brothers e até Zimbo Trio, segundo o vocalista.