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O ponto final de Saramago
O escritor português José Saramago morre aos 87 anos deixando como legado muito mais do que livros, mas um fio de esperança na humanidade

Aina Pinto

"Quantas vontades recolheste hoje, Blimunda", perguntou o padre, assim mesmo, sem ponto de interrogação, à personagem de Memorial do Convento capaz de ver as vontades humanas, recolhidas em um pedaço de âmbar que faria voar a passarola. O livro, publicado em 1982, trazia essa parábola sobre o que move os sonhos, revertia a dura lógica da gramática e firmava no cenário literário o nome do autor, José Saramago, que muitas vontades avivou desde então. Porque a humanidade que ele retratou em seus livros é corrupta, exploradora e cruel, mas a doçura que dedicou às personagens que representavam a humanidade desejável (como Blimunda, ou a mulher do médico, em Ensaio sobre a Cegueira) fez crer que ela é, também, possível. Mas o escritor português se foi, morto após falência de múltiplos órgãos, na sexta-feira 18, aos 87 anos. E essa possibilidade ficou um pouco menor.

O senhor ranzinza, crítico, duro, ateu, lúcido e objetivo, o homem que não era pessimista "porque o mundo é que é péssimo", era também capaz de promover reflexões que deixavam a vida menos sem rumo. Garoto pobre nascido em Azinhaga, que teve apenas dois livros em sua casa durante a infância, rapaz que trabalhou como serralheiro mecânico, Saramago ganhou em 1998 o maior prêmio da literatura mundial, o Nobel. Foi uma celebração à carreira iniciada em 1947, mas que só teve o segundo livro, Manual de Pintura e Caligrafia, publicado nos anos 70. Em 1991, lançou O Evangelho Segundo Jesus Cristo, malvisto pela Igreja Católica e que levou o escritor a ter vetada sua candidatura ao Prêmio de Literatura Europeu. Por causa desse episódio, o escritor deixou Portugal para viver na ilha espanhola de Lanzarote.

Logo em seguida veio uma mudança de estilo, trazendo seus personagens de tempos passados para o presente, a partir de Ensaio Sobre a Cegueira. O que não mudou foi essa alquimia rara que encontrou, ao promover a inovação estética sem prejuízo do enredo. E uniu mundos, tornando-se popular no Brasil, feito também raro. O fato de estar sempre por aqui não se devia apenas ao "trabalho de divulgação" de seus livros. "Certa vez, fui com ele a Itanhaém (SP) e dei de presente a ele uma flauta indígena, dessas de feira, e ele ficou radiante. Queria aprender a tocar", conta Lygia Fagundes Telles. "Cantei uns versinhos populares e, toda vez que me encontrava, pedia: 'Lygia, diga aqueles versos para mim'. Eram: 'O rei mandou me chama / Pra casa com sua fia / O dote qu'ele me dava / Oropa, França e Bahia'."

Saramago estava doente há alguns anos. Quando completou 86 anos, fez uma reflexão sobre de que valia, afinal, escrever. E lembrou o avô, analfabeto, que antes de morrer abraçou-se a uma árvore e chorou porque sentiria falta dela. "Abraço-me pois às palavras que escrevi", registrou o autor, dizendo não haver resposta para sua pergunta. Mas ele devia, sim, conhecêla. Seus leitores conhecem.

 



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