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Todas as mulheres do autor
Manoel Carlos fala da infância cercada de irmãs, tias e primas; da novela Viver a Vida e dos momentos de superação pessoal

Aina Pinto fotos Luciana Avellar/Ag. IstoÉ

O novelista conta que tem a cabeça aberta, falou sobre cigarro com os filhos e, apesar de ter experimentado drogas, espera que eles não usem

Manoel Carlos é um sedutor. Casado pela terceira vez, é do tipo que se lembra do dia em que conheceu a mulher, há 32 anos. Já foi reconhecido na rua pelo perfume. Ele conta ser Gió, de Giorgio Armani, mas diz que mulheres não devem revelar o que usam. Tem a conversa fácil, diz ter mais amigas que amigos. Lembra a infância cercada de mulheres, hoje personagens centrais de suas novelas.

Numa tarde atípica, cinzenta e chuvosa no Leblon, bairro carioca onde se passam suas tramas e onde vive há 30 anos, ele ri, conta de momentos difíceis de sua vida, como quando perdeu o filho em decorrência de Aids, e fala de Viver a Vida. Logo no capítulo inicial da novela, o primeiro galanteio de Marcos (José Mayer) foi oferecer uma caneta de pena a Helena (Taís Araújo). No dia desta entrevista, foi o último gesto de Manoel Carlos, que sacou uma caneta igual para anotar no bloquinho da repórter de Gente seu endereço de e-mail.

Ele e as mulheres

"Tenho uma relação muito fácil com elas. Fui criado por mulheres. Minha mãe era muito mais presente do que meu pai. Passei a infância com duas irmãs mais velhas, tias, primas, avós. Fico mais amigo das mulheres dos meus amigos do que deles próprios, porque me relaciono bem com elas. Fui mimado na infância, mas não me entregava ao mimo, porque era muito levado, uma pessoa problemática. Saía e voltava de madrugada. Fui praticamente aprisionado num internato, aos 11 anos, fiquei lá até os 15. Eram padres espanhóis agostinianos duríssimos. Apanhei muito no colégio."

Escrita emocionada

"Sei quando escrevo algo que vai emocionar. Eu choro junto, escrevendo. A relação das duas irmãs, a Sandrinha e a Helena, me comove. Sandrinha não teve uma profissão como a irmã, não se resolveu bem como a irmã, é dependente e se apaixonou por um marginal. Escrevi ontem (quarta-feira 23), um diálogo em que Helena questiona, dizendo que as duas tiveram as mesmas oportunidades. E ela responde: "Eu nunca tive sorte". É uma palavra mágica. As pessoas falam o tempo todo, como se viver fosse ganhar na loteria. Ela não tem mais justificativa e diz aquilo. É uma coisa impossível de rebater. Quem sabe, foi sorte mesmo. Isso me dá muita pena dela."

Casamentos e filhos

"Tenho um filho de 17 e um de 57 anos. Como minha atividade sempre foi artística, a gente tem a cabeça mais aberta. Então, não tive dificuldade na educação dos meus filhos (cinco). Uma vez, conversamos sobre cigarro. Contei a eles que comecei a fumar com 10 anos. Como é que posso me surpreender que um filho meu, com 17, fume? Parei há quase 15 anos e drogas, a única que experimentei foi maconha.

Na minha geração, as drogas eram maconha, lança-perfume e álcool. Mas nunca tive uma relação com drogas e espero que meus filhos não tenham. Acho que não têm. Sempre tive uma estrutura familiar forte, em meus três casamentos. Fui um homem muito feliz com minha primeira mulher, muito feliz com a segunda e sou muito feliz com a terceira. Quando acabou, acabou. Não houve traumas, todas se conheciam e se visitavam, e todos os filhos são muito amigos e amorosos uns com os outros."

''Fui mimado na infância, mas não me entregava ao mimo, porque era muito levado. (...) Fui praticamente aprisionado num internato, aos 11 anos''

Começo de namoro

"No domingo (27), faz 32 anos que conheci a Beth (Almeida). Eu estava na Globo, ela estava lá com a irmã, que ia fazer um teste de locução. Eu passei por elas algumas vezes e elas continuavam esperando. Perguntei se podia ajudar. A Beth falou o que era e conversei com o pessoal para que fossem atendidas. Ia jantar com um filho e perguntei se as duas estavam de carro. A Beth pensou que eu estava cantando ela ou a irmã e disse que sim. Respondi: "Então, vocês vão me dar uma carona". Fui para casa do meu filho, pedi para a Beth me ligar, ela só fez isso uns dias depois. Logo começamos a namorar. Passamos a viver juntos uns seis meses depois e, em seguida, eu me casei com ela."

Superação

"Perdi minha primeira mulher e meu filho. Ela morava em uma casa nossa, no Pacaembu (bairro paulistano) e estava saindo para ir ao supermercado. Se arrumou, desceu a escada de salto alto, tropeçou, bateu a cabeça e morreu. Eu estava no Rio e, quando cheguei lá, ela estava em coma. Duas horas depois, o médico disse que não tinha mais jeito. Eu já estava casado com outra, mas é doloroso perder uma pessoa assim, minha amiga, mãe dos meus filhos, com quem tinha uma ligação tranquila e amorosa. Isso foi em 1972. Em 1988, perdi o meu filho. Ricardo teria hoje 55 anos. Considero morte de filho uma coisa insuperável.

Não choro mais, mas não esqueço. Estou cercado de fotos dele, tenho uma relação amorosa com a memória dele. Fiz um cálculo assim: ele morreu com 32 anos, parou ali; quando meu filho, que tem 17, tiver 33, Ricardo vai ser meu filho mais novo. Ele terá 32 sempre. Ele tinha a mesma profissão que eu: escrevia, era ator de teatro. Escrevemos juntos duas minisséries para a Manchete, uma delas, chamada Viver a Vida. E fizemos uma novela para a tevê argentina e outra para a colombiana. Além de filho, era um parceiro, um amigo."

Viver a vida

"Não me matei por causa do que aconteceu. Superar não é esquecer, renegar, colocar em segundo plano. É continuar vivendo, perseguindo metas, tendo anseios, mesmo sendo vítima de uma grande dor, de uma tragédia, como a perda de um filho. Como de alguém que não pode andar mais. Essas pessoas passam pela depressão, consideram a vida perdida e, depois de algumas etapas, renascem. Certamente algumas se matam, mas vamos falar de quem continua. E é o seguinte: não existe beco sem saída na vida. Sempre há um jeito de se safar."

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