Refúgio • Home• Revista 24/3/2008
A vida rural de Regina Duarte
A atriz mostra sua fazenda no interior de São Paulo, onde descansa, escreve, pinta quadros e, com a ajuda do marido, cria gado de elite

TEXTO ANA CAROLINA SOARES FOTOS MARCELO LISO/ AFBPRESS

De chapéu e bota, a estrela da Rede Globo posa com um dos 300 animais que cria em Barretos. “Gostaria de contagiar meus filhos pela simplicidade monótona da vida no interior, mas eles gostam mais da agitação, minha esperança é minha neta”

Regina Duarte tem um túnel do tempo na varanda de sua fazenda, a Minha Santa, em Barretos, a 450 quilômetros da cidade de São Paulo. Basta deitar na rede e observar o horizonte que a atriz é transportada para sua cidade natal, Franca, também no interior paulista. Vêm à tona o cheiro e a visão de cercas cobertas com trepadeira de flor de São João, as casas de cupim feitas de barro no meio do pasto, os animais parindo e os “causos” sobre almas de outro mundo que despertavam tanto terror, mas também uma extrema fascinação. Ali é o melhor repouso de Regina, como ela diz, o seu recarregador de baterias. “Sou uma pessoa do campo. Nasci em Franca, vivi em São Joaquim da Barra e Campinas. Fui para São Paulo aos 18 anos. Não me lembro de ter tido alguma vez saudade da cidade. Já saudade de uma boa temporada na fazenda, tenho sempre.”

Regina comprou a fazenda há cinco anos, fascinada com a criação de gado da raça Brahman, considerada boa para cruzamentos. Influência de Eduardo Lippincott, pecuarista há 35 anos, com quem a atriz está casada desde 2002. “Desde que conheci meu marido, pude retornar a esta vivência mais rural, que me faz um bem enorme”, diz. Esse bem não se restringe a resgatar as memórias do passado. Em 2002, o casal decidiu abrir em sociedade o criatório MAK Brahman, apontado no mercado como um dos melhores do País. Hoje, a empresa tem cerca de 300 animais, a maioria, de elite. No ano passado, eles comemoraram o primeiro lugar de um de seus touros, o Capitólio, no concurso da ExpoBrahman.

Quem a vê nos eventos rurais quase se esquece de que é uma das atrizes mais famosas da televisão brasileira. Conversa com os criadores e usa com naturalidade expressões como FIVs, matrizes e plantel, que soam como russo aos ouvidos leigos. A “namoradinha do Brasil” só ressurge em eventos maiores, quando os flashes disparados por funcionários, adolescentes e curiosos lembram que a pecuarista é uma estrela. Ela gosta dessa vida. Contratada da Rede Globo desde 1969 e de férias desde o final da novela Páginas da Vida, em julho do ano passado, ela tem estudado projetos de teatro na fazenda e prepara sua volta à tevê na próxima trama das sete, que tem o título provisório de Três Irmãs. “Quero um dia poder viver sossegada no interior, pesquisando e botando em prática o ‘to play’, o ‘faz-de-conta’ do ator, sem tantos compromissos na cidade grande.” Em entrevista por e-mail à Gente, Regina, mãe do empresário André, da atriz Gabriela e do câmera João e avó de Manuela, de 1 ano e meio, revela mais sobre a vida de sonho no campo:

De onde veio o nome da fazenda, Minha Santa?
Tem várias conotações dependendo da inflexão que se dê. Adolescente, eu lia as fantásticas biografias de santas, minha mãe era muito religiosa, acabei me ligando ao tema. Acredito em milagres, acho os santos seres humanos incríveis. Eram os super-heróis do meu tempo de menina.

Graças ao meu marido, retornei à vivência rural que me faz tão bem
REGINA DUARTE, QUE DIZ QUE EDUARDO LIPPINCOTT A ESTIMULOU A INVESTIR EM GADO

Como é a vida na fazenda?
Levo vida normal, bem rotineira: café com leite de vaca da casa, verduras e legumes da horta, arroz, feijão, carne moída, ovo caipira da gema amarelinha. Uma beleza. Vivo o chamado ócio criativo direitinho. Caminho todas as manhãs, podo e rego planta, olho as nuvens, tiro fotos, faço exercícios na piscina. Visito uma vizinha e peço receita de bolo, descubro com ela uma erva diferente para fazer chá para a hora de dormir. Também vejo um vídeo, respondo e-mail, durmo a sesta. A imaginação vai a mil.

A atriz chega à sua fazenda, batizada de Minha Santa. Lá, ela se lembra da infância em Franca, no interior de São Paulo

Exerce atividades paralelas, como pintar ou escrever?
Cometo pinturas, faço quadros, mexo com tinta a óleo, mesmo sem formação nenhuma para isso, por puro prazer de lidar com formas e tintas. Gosto de ler poesia, romance, ensaio, autoajuda, biografias. Sou louca de paixão por literatura, mas tenho lido menos do que gostaria e escrito menos ainda. Espero que isso mude. De repente, me jogo numa rede e leio sem parar o dia todo. Num outro momento, posso escrever um texto que envio rapidinho para meu blog (www.bloglog.com.br/reginaduarte).

Como é a convivência com os filhos e a neta na fazenda?
Gostaria de poder contagiar meus filhos com essa minha paixão pela simplicidade “monótona” da vida no interior. Mas eles resistem, gostam mais da agitação dos programas urbanos. Minha esperança é a minha neta. Ela ainda não teve oportunidade de conhecer a chácara, os pais andam ocupados e prometem a visita para breve. Quem sabe agora, na Páscoa?

A apresentadora Ana Maria Braga também é criadora de Brahman. Como é a convivência entre vocês?
Um dia nos encontramos num leilão. Ela gostou do nosso gado, comprou uma bezerra, a Caprichosa 287 MAK 12, fiquei supercontente. Ana agrega valor a tudo a que se dedica. Acima de tudo, gosto dela. É o máximo tê-la como colega também na pecuária. Ela é perfeccionista sem ser obsessiva, uma mulher sensível, inteligente.

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