Sucesso • Home• Revista 24/3/2008
Tudo e mais um pouco para Lázaro
Disposto a conquistar sua independência profissional, ator cria produtora em parceria com a mulher, a atriz Taís Araújo, se prepara para estrear como cineasta e conta como enfrentou de cabeça erguida o preconceito racial

TEXTO JOÃO BERNARDO CALDEIRA FOTO LUCIANA WHITAKER/ AGENCIA ISTOÉ

O ator comprou uma casa no Catete, no Rio, onde pretende montar uma produtora em parceria com sua mulher, a atriz Taís Araújo, sua produtora. “Quando se consegue empreender, se faz o que quer”

É num casarão antigo no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, que o ator Lázaro Ramos está depositando boa parte de seus sonhos. Ali, em meio ao movimento frenético de pedreiros que trabalham nos últimos retoques da obra feita na construção de dois andares, datada de 1915, o baiano fala de seus projetos. O herói romântico da novela das oito quer mais. “Eu quero é tudo, e que venha mais um pouco. A vontade de experimentar é sempre presente”, diz, sem despejar em suas palavras qualquer tom de arrogância. Instalado na sala decorada com os troféus que abocanhou desde que estourou no cinema com Madame Satã, há seis anos, ele revela que pretende abrir seu leque de opções no ofício que abraçou. Ao lado da mulher, a atriz Taís Araújo, e com outros sócios, vem dando vida à Lata Produções, sua mais nova empreitada. “Não sei se vou agüentar ser ator para o resto da vida porque tenho agonia de ficar estacionado no mesmo lugar. Sempre dou um jeito de mudar”, ressalta, justificando sua inquietude profissional.

Lázaro Ramos não gosta de misturar seu casamento com a carreira. Mas nesse caso, admite, é diferente. Ao lado de Taís, ele quer construir a imagem do casal empreendedor que batalha junto a realização de projetos em comum: “Como ator você fica refém do convite e das idéias dos outros. Quando se consegue empreender, se faz o que quer”, diz. Lázaro pretende se aventurar na produção e direção de cinema e já tem na manga alguns projetos. Quer dirigir um longa, mas, para não errar na receita, vai fazer um “jogo treino” com o curta Um Real, escrito pelo cineasta Sérgio Machado. Aí sim, sonha levar para as telas seu próprio roteiro sobre a história de uma avó e uma neta que entram em conflito em decorrência da diferença de valores entre gerações. “Sei que vai ser difícil, mas só o fato de começar e de estar fazendo faz com que me sinta recompensado”, avalia.

Não sei se vou agüentar ser ator para o resto da vida porque tenho agonia de ficar estacionado no mesmo lugar
LÁZARO RAMOS

Como tem acontecido a cada trabalho, Lázaro, mais uma vez, está no olho do furacão na pele do herói romântico Evilásio, de Duas Caras. Confessa que sempre sonhou interpretar a história de Romeu e Julieta, de discutir os caminhos entre o amor e o poder. Com o passar dos anos, achava que estava ficando velho para o papel, mas a história vivida por ele e Débora Falabella no folhetim de Aguinaldo Silva lhe proporcionou esta oportunidade. Sem nenhuma surpresa ele constata que o preconceito racial ainda é forte e que choca, sim. “Tem gente que diz que o preconceito no Brasil é velado. É velado para quem não sofre. Preconceito no Brasil é explícito”, afirma ele, que na trama enfrenta o preconceito do pai da mocinha. “Você é discriminado quando sente que está sendo tratado de maneira diferente, que sua cor de pele está influenciando nisso”, diz. Autor da primeira novela feita por Lázaro, João Emanuel Carneiro analisa as mudanças que começam a deixar para trás antigos paradigmas. “Lázaro é um ator genial, tão completo que está conseguindo tirar esse estigma de que atores negros só podem fazer determinados personagens”, opina.

Limite
Para Lázaro, preconceito nunca foi problema. E se foi, soube se defender. Desde cedo foi orientado pela mãe, a baiana Hilda Jitolu, a sentir orgulho de seu tom de pele e a manter em dia sua autoestima. “Nunca quis ser diferente do que sou. Me considero feliz com o meu padrão”, diz. A verdade é que o ator de 29 anos sempre se fez respeitado e soube impor seus limites. Fez isso recentemente, em carta aberta em um grande jornal, quando viu seu casamento com Taís ser devassado por especulações de que estariam vivendo uma crise. “Tem um limite ali que foi estabelecido. Não tenho obrigação de me violentar e de não me sentir bem”, diz ele, mais decidido do que nunca a manter sua união com a atriz distante dos holofotes.