Carreira • Home• Revista 17/3/2008
Finalmente estrella
Transformado em celebridade após o sucesso do filme Meu nome não é Johnny, que teve quase 2 milhões de espectadores, o ex-traficante João Estrella lança seu primeiro cd

TEXTO AINA PINTO FOTO ROGÉRIO ALBUQUERQUE/ AG. ISTOÉ

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João Estrella: a música foi sua válvula de escape no manicômio

A última vez que The Cure se apresentou no Brasil foi em 1996, no Hollywood Rock, na praça da Apoteose, no Rio. Fã da banda, João Estrella não pôde ir ao show, mas conseguiu ouvir as músicas ao longe, do Manicômio Judiciário, onde estava preso havia um ano e onde ficaria até 1997, condenado por tráfico de drogas. Garoto de classe média que queria ser cantor, ele começou a traficar aos 28 anos, e sua história deu origem ao livro Meu Nome Não É Johnny e ao filme homônimo.

Transformado em celebridade graças ao sucesso do longa, que já teve quase 2 milhões de espectadores, Estrella, hoje com 46 anos, realiza o sonho antigo e lança o CD Meu Nome É João Estrella. Em seus shows, inclui uma música do Cure, "Love Song", umas das que ele pôde ouvir em 1996.

Quando surgiu a idéia de gravar um CD?
No manicômio. Quando consegui que a juíza liberasse a entrada de um violão, escrevi e compus muito.

Há canções no disco que foram feitas no manicômio?
Duas, "O Alvo" e "Nada Vai Ficar para Contar". A primeira delas é um delírio proposital, uma fantasia. Foi uma estratégia de sobrevivência para me manter ativo mentalmente.

O que fez quando saiu do manicômio?
Fiquei dois meses sem pensar em nada, indo à praia, tentando relaxar. Depois, comecei a trabalhar como produtor de shows em um shopping center. Não tinha dinheiro e precisava pegar trem para trabalhar. Isso foi importante para eu ver o que é correr atrás da vida.

Alguém já se recusou a trabalhar com você devido ao seu passado? Algum amigo lhe virou a cara?
Nunca tive problemas. E meus amigos sempre me apoiaram. Um deles, que é chef, levou uma paella no manicômio para mim.

Fez algum amigo dentro do manicômio?
Fiz amizade com alguns loucos. Uma vez, um deles teve uma crise e quebrou tudo lá dentro. Os guardas iam levá-lo para tomar choque, mas eu pedi para que o deixassem comigo. Fiquei responsável por ele. Soube que ele se enforcou quando saiu de lá.

Como é estar em meio a situações como essas e se manter são?
O tipo de atitude que tive garante respeito e facilita a sobrevivência. Compunha como válvula de escape, mas o meu foco estava na sobrevivência. Lá era um lugar perigoso.

Passou por alguma situação perigosa?
Uma pessoa cismou comigo e queria me matar. Tive de andar armado com uma barra durante um mês. Depois, ele foi transferido.

Como sua esposa lida com o seu passado?
Eu a conheci depois daquela fase. Ela é o meu maior ponto de equilíbrio, porque nunca usou drogas, não bebe. Mas o filme e as minhas histórias mexeram bastante com ela.