Livros • Home• Revista 17/3/2008
Cartas à Mãe - Direto do Inferno
Um sofrimento sem fim

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Os últimos reféns soltos pelas Farc alertaram para a precária saúde da colega de cativeiro INGRID BETANCOURT, ex-candidata à presidência da Colômbia e há seis anos em poder dos guerrilheiros. A própria Ingrid relata seu drama em Cartas à Mãe – Direto do Inferno (Agir, 88 págs., R$ 19,90), que inclui a resposta dos filhos, Mélanie e Lorenzo.

MATERNIDADE Sinto que meus filhos levam uma vida em suspenso na expectativa da minha libertação, e o seu sofrimento diário, o de todo mundo, faz com que a morte me pareça uma opção amena (...) Essas oportunidades perdidas de ser mãe envenenam meus momentos de infinita solidão, é como se me injetassem cianureto nas veias, gota a gota.

Ingrid Betancourt no cativeiro

MENTE SÃ Faz três anos que peço um dicionário enciclopédico para ler alguma coisa, aprender alguma coisa, manter viva a curiosidade intelectual. Continuo a ter esperanças de que, pelo menos por compaixão, eles me arranjem um, mas é melhor não pensar nisso. Aqui, tudo é milagre.

DESÂNIMO Vou mal fisicamente. Parei de comer, perdi o apetite, meus cabelos caem copiosamente. Não tenho vontade de nada. Acho que a única coisa boa é isto: não ter vontade de nada. Pois aqui, nesta selva, a única resposta para tudo é “Não”. O melhor então é não querer nada, para pelo menos ficar livre de desejos.

CASA A vida aqui não é a vida, é um desperdício lúgubre do tempo. Vivo ou sobrevivo numa rede esticada entre duas estacas, coberta com um mosquiteiro e uma lona que serve de teto e me permite pensar que tenho uma casa. Tenho um armariozinho onde ponho minhas coisas, isto é, a mochila com as roupas e a Bíblia, que é meu único luxo. Tudo está sempre pronto para partirmos às pressas.

FANTASIA Durante anos, não consegui pensar nas crianças porque sofria terrivelmente por não poder estar com elas. (...) A cada aniversário, canto Happy Birthday para elas e peço permissão para fazer um bolo... De três anos para cá... a resposta é não... Se eles chegam com um pão seco ou a rotineira ração de arroz e feijão, imagino que é um bolo e festejo seu aniversário no meu coração. (S.U.I.)