Carreira • Home• Revista 26/2/2008
Marcelo Faria sem pudores
O ator vive no teatro vadinho, em dona flor e seus dois maridos, aparece nu em cena e quer abandonar a imagem de galã

TEXTO JOÃO BERNARDO CALDEIRA FOTOS ALEXANDRE SANT'ANNA

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Avesso a badalações, o ator gosta de receber amigos em sua ampla casa, em São Conrado, para grandes festas ou partidas animadas de War

Para dar a benção à versão teatral do livro Dona Flor e Seus Dois Maridos, a escritora Zélia Gattai fez apenas uma ressalva: “Se Vadinho não aparecer pelado, quando volta dos mortos a pedido da esposa, não seria Vadinho”, alertou a viúva de Jorge Amado, autor do clássico da literatura adaptado para o cinema e a TV. Naquele mesmo dia, na estréia da peça em Salvador, o ator Marcelo Faria despiu-se de pudores, decretando o início do rebuliço em torno da montagem. “As velhinhas adoram”, diverte-se o galã, cheio de malícia, mas tudo em nome da profissão. “Não posaria nu por dinheiro nenhum”, garante o ator de 36 anos, corpinho sarado, 72 quilos, 1.73 m de altura.

Bom anfitrião
Na espaçosa e despojada sala de sua casa, na avenida Niemeyer, em São Conrado, Marcelo recebe os amigos para grandes festas ou para uma partidinha de War madrugada adentro. Ali, o ator prefere assumir ar de sujeito pacato e trabalhador. Ainda mais em momentos de muito trabalho como o atual, no qual concilia a apresentação da peça, no Teatro das Artes, no shopping da Gávea, em que contracena com Carol Castro e Dudu Azevedo, com as gravações da novela global Beleza Pura. Avesso a badalações, ele prefere a casa de amigos ou um chopinho gelado no Baixo Gávea.

Nas horas vagas, sua bebida é a cerveja, embora champanhe, vodca e afins estejam presentes em diversos cômodos da residência, como se a bela piscina com vista para o mar já não bastasse para amolecer corações. “É para as moças...”, justifica, piscando o olho com confiança, um hábito recorrente.

Na área externa da casa, a piscina dá vista para o mar. “Sou ator por causa do Reginaldo. É DNA, está no sangue”

Galã profissional e amante do samba, Marcelo tem muito do “jeito de ser de Vadinho”, embora rejeite comparações. “É um cara totalmente amoral, que pega o dinheiro da mulher e dá porrada”, diz o ator. Em comum com o personagen, ele tem a fama de namorador. Solteiro desde o final de 2006, quando encerrou o noivado com a empresária goiana Rafaela Moraes, Marcelo não caiu na boa vida, mas também não posa de bom moço: “Se eu tiver que ficar só para transar, eu vou ficar. Não estou preocupado em encontrar a mulher da minha vida. A hora que for vai aparecer”. O problema é a “vontade de ter alguém para dormir junto e ver um filminho”. Na nova fase, viu-se obrigado a voltar a usar camisinha, prática dispensada durante seus namoros mais longos em que sempre fez questão de apresentar à parceira o teste de HIV. “Não sou daquele que diz: ‘Só transo de camisinha’. Seria demagogia. Se estiver rolando um tesão absurdo, e não tiver camisinha, fazer o quê?”, revela, com sinceridade.

“Se eu tiver que ficar só para transar, eu vou ficar. Não estou preocupado em encontrar a mulher da minha vida"

MARCELO FARIA

O velho sonho de interpretar o protagonista de Dona Flor foi motivado pela densa carga dramática do romance. Ao lado do sócio Pedro Vasconcelos, que assina a direção da peça, Marcelo resolveu produzir o espetáculo, como já havia feito em projetos como Zero de Conduta e Romeu e Julieta. Negociaram com Paloma Amado, filha do escritor baiano, e compraram os direitos autorais do livro. “Uma vez, Jorge Amado foi a Goiás, hospedou-se na casa do meu avô e eles então ficaram amigos”, conta ele, que mantém o hábito de pescar na região.

Em todos os seus projetos, ele procura abandonar uma imagem que tem prejudicado sua carreira. “Na televisão, a gente enfrenta o estigma de fazer personagens parecidos. As pessoas me vêem como o garotão da zona sul do Rio que pega as menininhas. Vou ser surfista a vida inteira, porque amo pegar onda. Mas sou ator e preciso ser visto dessa forma”, desabafa. Hoje, depois de interpretar um mâitre em Alma Gêmea e um seringueiro em Amazônia, ele acredita estar evoluindo: “Já consigo fazer trabalhos diferentes, até porque não sou mais um moleque de 20 anos. Quero personagens e não só o galãzinho”, diz.

DNA de artista
No cinema, onde também enfrenta resistências, ele atuou apenas em Diabo a Quatro, de Alice Andrade. “Acho que sou injustiçado”. O sobrenome Faria nem sempre ajuda, afirma. “As pessoas talvez pensem: ‘Ele que vá fazer cinema com a família’”, diz. “Nunca fiz filme com a minha família”, reclama o ator, que pertence a um dos principais clãs cinematográficos do País. Nas telonas, ele se acostumou desde criança a assistir ao pai, o ator Reginaldo Faria, com quem gosta de conversar sobre seus personagens e assistir aos jogos do Flamengo. Como herança, não apenas o time de coração, mas o gosto pela profissão: “Fui revisar as cenas da novela e fiquei impressionado como meu jeito de olhar é igual ao dele. Deve ser porque o vejo desde moleque, né. Sou ator por causa do Reginaldo. É DNA, está no sangue”, conclui, com orgulho.