Cinema • Home• Revista 12/2/2008
Sangue Negro
Saga sobre ganância, família e hipocrisia está entre o melhor do cinema da década

Envie esta matéria para um amigo
DIVULGAÇÃO
Daniel Day- Lewis entrega uma das melhores atuações de sua carreira em filme indicado a oito Oscar

DRAMA
A PRIMEIRA METADE de Sangue Negro, o novo trabalho do diretor e roteirista Paul Thomas Anderson, que aqui adapta o romance Oil!, de Upton Sinclair, está entre o que de melhor o cinema revelou nesta década. São imagens plácidas e grandiosas, que lentamente destrincham trama, tempo e espaço.

A primeira frase demora muito a ser dita, depois de uma introdução impecável. É imediato o impacto positivo provocado pela complexa trilha sonora de Jonny Greenwood, integrante do grupo Radiohead, que aqui assina seu primeiro trabalho solo. Apoiado num quarteto de cordas e em instrumentos de percussão, Greenwood cria estranheza e poesia. É o fundo perfeito para o ator Daniel Day-Lewis brilhar como centro nervoso da obra.

Leia também

Cinema
Exposição
Música
Livros
Teatro
Internet
Televisão
Gastronomia

O cineasta Anderson, que se consagrou com dois ambiciosos mosaicos dramáticos no estilo do diretor Robert Altman, Boogie Nights – Noites de Prazer (97) e Magnólia (99), dedica este filme ao seu grande mestre, mas realiza dessa vez um drama de textura épica. Como o mote principal da obra de Sinclair é o enriquecimento pela exploração do petróleo (o “sangue negro”) no Estado do Texas na virada do século 19 para o 20, Anderson elabora sua saga sobre família e ganância em torno de um dos pilares da sociedade norte-americana: a dependência desse ouro negro. Para conduzir essa visão da gênese dos pecados morais dos EUA, surge a figura do prospector Daniel Plainview (Day-Lewis, animalesco), que constrói seu império alimentando ódio pelo mundo.

outro grande tema que costura esse admirável drama é a hipocrisia e o fanatismo religiosos, personificados na imagem do autodenominado pastor Paul Sunday (surpreendente atuação de Paul Dano, de Pequena Miss Sunshine), adversário de Plainview. O homem que construiu seu poder sozinho enfrenta o homem que se delegou sozinho um poder que não lhe confere. O conflito entre os dois arquétipos amarra o filme em completa tensão. Indicado a oito Oscar – entre eles filme, direção, ator e roteiro adaptado –, este só não é um clássico imediato pois dispersa parte de sua força na segunda metade, em personagens secundários, subdesenvolvidos diante da presença furiosa de Day-Lewis. Mas é, definitivamente, uma obra maior. Christian Petermann
ESTRELAS: