Revelação • Home• Revista 8/1/2008
Sem pose de astro
O escocês James Mcavoy, indicado ao globo de ouro por Desejo e Reparação, aposta no bom humor para falar de si mesmo e prefere se tornar o personagem em vez de adaptá-lo à sua personalidade

TEXTO ELAINE GUERINI, DE VENEZA

Antes de ser ator, James McAvoy pensou em ser padre para poder viajar pelo mundo

James McAvoy mal entra no salão do hotel Excelsior, em Veneza, e já abre um sorriso encantador. Caloroso, mesmo com aqueles que acaba de conhecer, o ator de 28 anos e forte sotaque escocês adora fazer piadinhas. Principalmente de si mesmo. “Fiquei conhecido como ‘aquele garoto metade humano, metade bode de Nárnia’. Mas o que um cara como eu, que não é nenhum Brad Pitt, podia esperar?”, diz, soltando uma gargalhada. Talvez McAvoy, que foi notado primeiro em O Último Rei da Escócia, não tenha mesmo os atributos físicos necessários para se tornar um superastro de Hollywood. Mas isso não o impede de ter o talento reconhecido, como aconteceu recentemente com a sua indicação ao Globo de Ouro de ator dramático por Desejo e Reparação. Nessa adaptação do romance de Ian McEwan, ele prova mais uma vez que, em vez de representar, prefere se tornar o personagem – diferentemente dos astros que acabam ajustando o papel à sua personalidade. “Deixo o ego em casa quando saio para trabalhar”, brincou o ator, escalado para o papel de Robbie, um empregado que vai parar na prisão após ser injustamente acusado de estupro pela filha da patroa.

Você perdoaria Briony, a menina que supõe tê-lo visto cometendo o crime?
De jeito nenhum! O fato de a garota não entender a sexualidade dos adultos e ter se chocado com a cena de sexo da biblioteca (quando Robbie transa com a irmã de Briony, Cecília, vivida por Keira Knightley) não a exime de sua falsa acusação. Eu a mataria com minhas próprias mãos (risos).

Ficou nervoso ao rodar a erótica cena de sexo com Keira?
Muito. Não dá para fazer qualquer cena de sexo sem aquele friozinho na barriga. Ainda mais se for com uma beldade como a Keira. Passei a tarde toda em pânico (risos).

O que fez para relaxar?
Felizmente, o diretor Joe Wright nos guiou dudurante toda a cena, explicando em detalhes o que queria. Ele falava: “Põe a mão aqui, põe a mão ali”. Não nego que a narração soou um pouco sórdida, mas pelo menos me libertou como ator. Eu continuei pensando: “Devo sentir os seios de Keira de verdade? Ai, meu Deus, o que será que ela está pensando?”. Mas nenhum de nós teve outra alternativa, a não ser confiar em Joe.

Por ter conhecido a sua mulher quando estava trabalhando, como sabe quando a química não vai ultrapassar os limites do set de filmagem (McAvoy é casado com a atriz Anne- Marie Duff, que conheceu durante as gravações da série de tevê inglesa Shameless)?
Sei porque não me caso com toda atriz com quem contraceno (risos). Com Anne, foi diferente. Eu me apaixonei por ela imediatamente, e meus sentimentos foram reais desde o início. Não foi a arte que nos aproximou.

O filme sugere uma ligação entre sexo e clima quente...
Não sei se funciona para mim. Perco totalmente o desejo quando faz muito calor. Nem meu cérebro consegue funcionar direito. Por ser escocês, prefiro transar num clima frio e, de preferência, chuvoso.

Também exagera na bebida, como os escoceses?
Adoro uísque. Antes eu bebia muito mais. Mas parei porque começo a ficar bêbado rapidamente, o que é uma vergonha para um escocês (risos).

É verdade que você queria ser padre, antes de se tornar ator?
Sim. Por ter sido um jovem bastante católico, considerei o sacerdócio por uns dois anos. A idéia de ser um missionário em algum ponto exótico da América do Sul, África, China ou Índia me entusiasmava. Mas depois percebi que seria desonesto da minha parte usar isso apenas como desculpa para viajar. Nem Deus me perdoaria...