Sucesso • Home• Revista 8/1/2008
Thiago Mendonça em cena
Dois anos depois de viver o cantor Luciano, em Dois filhos de Francisco, o ator brilha na novela Duas Caras na pele do homossexual Bernardinho

TEXTO FÁBIO TORRES/ FOTOS PAULO JARES/AG. ISTOÉ

O personagem vivido por Thiago é apontado como o favorito de Duas Caras. "Ele não quis trilhar o caminho óbvio: fazer uma caricatura", elogia Aguinaldo Silva
Thiago Mendonça caminhava pela Lapa, bairro boêmio do centro do Rio, quando foi abordado por uma jovem. Queria falar sobre a cena em que Bernardinho, personagem interpretado por ele em Duas Caras, saía de casa depois de a família descobrir sua homossexualidade. "É a minha história, sabia? Enquanto a sua lágrima corria lá, eu também estava chorando aqui", contou a moça, com os olhos vidrados no ator. Os dois se abraçaram e ela revelou que assistira àquele capítulo na cadeia, onde cumprira pena até poucos dias atrás. A polêmica sobre a sexualidade do cozinheiro se transformou num dos pontos altos da história de Aguinaldo Silva. Recentemente, em uma pesquisa encomendada pela direção da Rede Globo, Bernardinho foi eleito um dos mais queridos da trama. "Por ele ser maltratado e ter carência de afeto no núcleo familiar, as pessoas vêm me oferecer carinho", conta.

Aos 27 anos, Thiago está feliz com o bom momento. O ator diz que sua principal preocupação é a de não cair no estereótipo, fato elogiado por Aguinaldo Silva. "Ele não quis trilhar o caminho óbvio: fazer uma caricatura. O personagem é muito humano", define o escritor. O ator completa: "Bernardinho tem de deixar crível que é capaz de comer mulher e homem e dar para quem qui-ser." Ainda novato em televisão - ele fez pequena participação em Malhação, em 2001 -, Thiago também se diz surpreso com a repercussão do personagem. "Ele provoca o pai de família que vê o jeito diferente do filho de 11 anos, mas finge ignorar. A ousadia do Aguinaldo em escrever termos como 'passivo' e 'ativo' em uma obra que a família vai assistir é ótima para driblar a hipocrisia e o preconceito. Sou subversivo e adoro estar no olho do furacão", defende.

Sertanejo na telona
Apesar da pouca experiência na televisão, este não é o primeiro papel de destaque de Thiago. Há dois anos, viveu o cantor Luciano, irmão de Zezé Di Camargo, no filme Dois Filhos de Francisco, de Breno Silveira. "Tendo um outro trabalho de relevância, as pessoas vêem que posso ser vários", argumenta. A experiência de morar três meses na cidade de Pirenópolis, em Goiás, e a amizade que fez com os atores com os quais contracenou são as melhores lembranças. "A gente não precisava de luxo, pelo contrário, queríamos desafio." Apesar do sucesso de Bernardinho e de ter feito uma participação no filme Tropa de Elite, Thiago considera Dois Filhos de Francisco seu trabalho mais importante. Pela dimensão do filme e como experiência pessoal também. "Imagina ter seu nome impresso junto com os de Lima Duarte, Paloma Duarte, Dira Paes, Ângelo Antônio? Ângelo Antônio é tudo o que eu quero ser quando crescer", exagera.

O ator se diz apaixonado por várias pessoas, independentemente da sexualidade. Xuxa e Cazuza estão entre elas

Relação delicada
Nascido em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, em uma família de classe média, Thiago conta que a falta de opções na cidade não atrapalhou o sonho de ser ator. "Minha mãe é o bicho. Foi ela quem me educou e me apontou horizontes muito distantes. Sabe aquela coisa de leoa, uma lambida e uma patada? Assim fui criado. E na patada tinha afeto e força para que eu fosse grande", compara. Thiago conta que descobriu a vocação artística quando cursava o segundo grau. Formouse técnico em química, mas jamais exerceu a profissão. "A partir do segundo ano, quando saiu um professor que eu adorava, me rebelei. Passei a me sentar no fundo da sala, vi que queria ir além daquela estrutura provinciana da cidade, e entrei para o teatro."

"Tento me bancar. É difícil. Contas de luz e de gás chegam todo mês. Salário,nem sempre"
THIAGO MENDONÇA, SOBRE A INSTABILIDADE DA PROFISSÃO

Contrariando o pai, Francisco - que se separou de sua mãe quando ele tinha quatro anos -, decidiu que estudaria para ser ator. Fez cursos e começou a trabalhar em algumas montagens. A relação com o pai, muito antes de selada a escolha da carreira, já era delicada. "Careta toda vida, ele fez valer a força: bater para educar. Me traumatizava, me tolhia. E eu queria um amigo. Só o via no final de semana e ele vinha me bater porque eu não queria tomar banho frio. Eu gostava de banho quente", relembra. Anos mais tarde, os dois fizeram as pazes e, hoje, são amigos. "Ele quis me colocar na linha, mas a minha linha é torta", define.

Há um ano e sete meses morando na Urca, bairro nobre carioca, o ator é um dos responsáveis pela Companhia de Teatro Íntimo, criada em parceria com amigos, e vive a instabilidade da profissão. "Tento me bancar. É óbvio que, de vez em quando, tenho de recorrer aos meus pais, porque é difícil pra cacete. Contas de luz e de gás chegam todo mês. Salário, nem sempre." Quando o tema é vida afetiva, Thiago é direto: seu coração está voltado apenas para o trabalho. Questionado se, a exemplo de Bernardinho, já se apaixonou por um homem, não pestaneja: "Eu sou apaixonado! Bicho, o humano me encanta. E humano independe de sexualidade. Não sei se teria relações sexuais, mas amar, apaixonar... Óbvio! Sou apaixonado por Cazuza, Raul Seixas, Xuxa, Natalie Portman (atriz israelense) e muitos outros." Haja amor.