Especial • Home• Revista 31/7/2007
Orenascer de Carmen Mayrink
Ícones da sociedade carioca,carmen e antenor mayrink veiga leiloam obras de arte para saldar dívidas que chegam a R$ 17,4 milhões

TEXTO FÁBIO TORRES

Quinta-feira, 26 de julho. O relógio marcava 17h e, apesar de um certo rebuliço na entrada do luxuoso edifício 870 da Avenida Rui Barbosa – nobre endereço da zona sul carioca onde residem Carmen e Antenor Mayrink Veiga –, não havia nenhum evento programado na residência do casal. Tratava- se do retrato da dona da casa, Carmen Mayrink Veiga, pintado por Portinari em 1959, que retornava ao apartamento. A obra, objeto de adoração da retratada, fora levada a leilão dois dias antes, junto a outras peças do acervo da socialite e do marido. O motivo? Saldar boa parte da dívida de R$ 17,4 milhões.

Sinônimo de fidalguia e fortuna desde os tempos da Casa Mayrink Veiga, que fornecia material bélico para as Forças Armadas, a tradicional família carioca afundou-se em dívidas no início da era Collor. No final do leilão, o negócio acabou sendo duplamente interessante para o casal: os R$ 2,5 milhões arrecadados conseguiram cobrir o débito de R$ 1,4 milhão com os liquidantes do extinto Banco Nacional. E tudo isso sem que o estimado Portinari, que tinha lance mínimo de R$ 350 mil, precisasse mudar de endereço. “Pelo menos ele, que é uma peça de muito valor afetivo, não foi arrematado”, disse Carmen.

“Pelo menos ele, que é uma peça de muito valor afetivo, não foi arrematado”, disse Carmen, referindo-se a seu retrato pintado por Portinari (no detalhe), avaliado em R$ 350 mil

Jantar para cem pessoas

Soraia Cals e Evandro Carneiro, que comandaram o leilão, afirmam que o montante conseguido superou a previsão inicial, de R$ 900 mil, sobretudo pela valorização histórica dos quadros do pintor Milton Da- Costa. “A obra Rapto foi vendida por R$ 480 mil, que é um valor dobrado e recorde em se tratando deste artista”, exlicou Soraia. Além deste, obras de Di Cavalcanti, Lasar Segall, dentre outros, também foram postas à venda. Um grandioso aparelho de jantar de porcelana japonesa Imari, para cerca de cem pessoas, vendido em 14 lotes, foi outra preciosidade que obteve considerável ágio. Somados os valores, ele foi arrematado por R$ 420 mil, mais do que o dobro do preço de partida.

O maestro da negociação que movimentou o high society carioca foi o advogado do casal, Ivan Ferreira Nunes. “Conseguimos um grande avanço. Agora é apenas a questão com o Banco do Brasil”. Esta última dívida, afirmou o advogado, gira em torno de R$ 16 milhões, e será quitada de forma parcelada. O dinheiro que sobrou com o leilão de obras de arte será empregado também neste pagamento. Os problemas financeiros da família ficaram evidentes em 1994, quando o Banco Rosa, instituição de pequeno porte, quebrou devido à inadimplência dos Mayrink Veiga, num empréstimo de cerca de R$ 17 milhões. Hoje, mesmo sem a fortuna do passado e com os novos referenciais de glamour que surgiram na sociedade, Carmen permanece como símbolo de uma época. E dona do seu próprio Portinari.

Preciosidades vendidas

Cerca de 400 pessoas participaram do leilão de parte do acervo do clã Mayrink Veiga que aconteceu na terça-feira 24 e durou três horas. O valor total arrecadado foi de R$ 2,5 milhões

O serviço de porcelana japonesa vendido por R$ 420 mil
O quadro Rapto, de Milton DaCosta, teve a maior cotação do dia: R$ 480 mil
A obra Igreja com Campanário, de Lasar Segall, foi arrematada por R$ 45 mil