Livros • Home• Revista 4/6/2007
"Minha ficção brota da realidade"
Roteirista de Babel, o escritor mexicano, uma das atrações da Flip, lança o romance Um Doce Aroma de Morte e fala a Gente sobre temas que o inspiram

Suzana Uchôa Itiberê

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Em trama sobre mentiras, amor e morte, Arriaga mantém o rigor e a agilidade que o tornaram famoso como roteirista

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Ele é famoso como o roteirista de Babel, Amores Brutos e 21 Gramas, dirigidos por Alejandro González Iñárritu, mas o mexicano Guillermo Arriaga é também um escritor talentoso. Em julho, participa da Festa Literária Internacional de Paraty com o romance Um Doce Aroma de Morte, o terceiro de seus quatro livros, que acaba de ser lançado. Arriaga falou a Gente.

Por que destacar um sentido que você perdeu?
Perdi o olfato na juventude, como seqüela de uma briga de rua. Minha obra é intrínseca à minha vida e ressaltar esse sentido foi nostálgico. Conheço muito a região onde ambiento a narrativa e realmente ocorreu a morte de uma jovem nas proximidades. Minha ficção brota da realidade.

É curioso ter inserido Melquiades Estrada, mais tarde figura central do roteiro de Os Três Enterros de Melquiades Estrada, como um figurante.
Ele existe. Sou íntimo de toda a família Estrada, a ponto de ser padrinho do filho de um deles. Acho natural que façam parte de meu trabalho, mesmo que os coloque em situações inverídicas.

O amor e a morte são seus temas fundamentais?
Sim, pois são as forças que conduzem o ser humano, e meu objetivo é observar seu comportamento em situações-limite que envolvam esses dois elementos.

Por que se define como escritor de cinema e não como roteirista?
Em mexicano, roteiro é guión, que significa guia. É humilhante. Por que uma peça de teatro é considerada literatura e um roteiro não? Sou um autor e eu me expresso através da literatura, seja um romance ou um roteiro.

É verdade que não gostou da versão cinematográfica de Um Doce Aroma de Morte?
Vendi os direitos e não reconheci meu livro na adaptação. Os camponeses parecem suíços no filme. Para não ter erro, escrevi o roteiro e sou o produtor da versão de O Búfalo da Noite, que estréia neste ano.

Um Doce Aroma de Morte

O corpo nu de uma jovem é encontrado no vilarejo de Loma Grande. Ramón, dono da vendinha local, cobre-a com sua camisa. Basta para que os habitantes anunciem que ela era sua namorada e que ele irá vingá-la. Detalhe: Ramón não conhecia a vítima, mas fica sem coragem de desfazer o mal-entendido. O assassino, todos logo concluem, só pode ser o temido Cigano, forasteiro mulherengo que anda por aquelas bandas e (isso ninguém sabe) tem um caso com a esposa de outro.

A tênue linha entre a verdade e a mentira é a veia central de Um Doce Aroma de Morte (Gryphus, 172 págs., R$ 39,90).

A partir dessa trama simples, Guillermo Arriaga esquadrinha a alma humana em busca de sentimentos primordiais, como o amor e o medo. O rigor estético e a linguagem ágil, marcantes nos roteiros de Babel, Amores Brutos e 21 Gramas, que o tornaram premiado e famoso, também são ferramentas preciosas. O que Arriaga tem de melhor, porém, é a ternura com que banha a cruel realidade que costuma retratar.

Sem perder a ternura jamais