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Paulo Niemeyer, 86 anos

O médico dos presidentes
O neurocirurgião, que é irmão de Oscar Niemeyer e tratou dos presidentes Costa e Silva e Figueiredo, trabalha de graça há 69 anos na Santa Casa de Misericórdia e, como católico, critica a Igreja por condenar o uso da camisinha

Leneide Duarte

Leandro Pimentel
Paulo Niemeyer trocou o sítio de 130 mil metros quadrados, em Itanhangá, para morar no Leblon, no Rio de Janeiro

Paulo Niemeyer tinha 17 anos quando foi trabalhar na Santa Casa de Misericórdia do Rio, em 1931, levado pelo médico Fernando Paulino, o cirurgião de maior projeção naquela época. Lá, o neurocirurgião ocupou vários postos. Hoje é o provedor, a autoridade máxima da instituição. Nesses 69 anos, jamais recebeu um centavo por seus serviços no hospital. “Fui para lá quando era estudante, sem ganhar nada, e estou lá há 69 anos trabalhando de graça”, diz o irmão do arquiteto Oscar Niemeyer. “Costumamos dizer que é o espírito de misericórdia que nos move, de fazer algo pelo doente, além do interesse de aprender e de ensinar.”

A disposição com que manuseia até hoje o bisturi não é a mesma para os exercícios físicos. Para justificar seu sedentarismo, Niemeyer cita o irmão Oscar, que costuma dizer: “Vivi mais de 90 anos sem nunca ter caminhado e feito exercícios e agora querem que eu comece a andar”. O médico concorda com o irmão, mas conta que caminha uma quadra no calçadão do Leblon “de vez em quando”. Depois de morar por 36 anos num sítio de 130 mil metros quadrados no Itanhangá, no Rio, Niemeyer e a terceira mulher, Marisa, mudaram-se para o Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde estão há dois anos. Foi na casa do Itanhangá, vendida para um colégio de padres, que Paulo Niemeyer criou seus seis filhos e os três enteados. “Na época em que eu comprei a casa, a região era muito pouco habitada. Os meninos iam do sítio até a praia da Barra da Tijuca a cavalo.”

EPILEPSIA A longevidade é uma característica dos Niemeyer. Seu irmão Oscar está com 93 anos. A irmã Lília morreu com 92 anos. A outra irmã, Leonor, morreu aos 90 e o irmão Carlos Augusto, aos 84. A única exceção foi Judith, a Juju, que morreu com pouco mais de 50 anos e cuja doença, a epilepsia, foi a responsável pelo seu interesse pela Medicina. “Quando eu tinha uns 8 anos, chegou para Juju uma correspondência de um estúdio de Hollywood”, conta Niemeyer, lembrando que era comum na época as moças escreverem cartas pedindo fotos dos artistas. “Quando a carta chegou, corri com a empregada para acordá-la. Ela sentou-se à cama e, pela emoção, começou a ter uma crise convulsiva. Era epilepsia. Daí meu interesse pela Medicina”, conta Niemeyer, que criou a Liga Brasileira Contra a Epilepsia, além de uma cirurgia, cuja técnica foi batizada com seu nome.

Foi a competência do melhor neurocirurgião brasileiro que levou três presidentes do Brasil a procurá-lo. Niemeyer tratou de Costa e Silva, operou a filha de Ernesto Geisel, Amália Lucy, e João Baptista Figueiredo. O médico é dono de excelente memória, e é de 1918, quando tinha 4 anos, a sua lembrança mais remota. Ele se recorda do dia da morte do avô, ministro do Supremo Tribunal Federal. “Fui até a janela ver o coche com cavalos brancos e penachos sair de nossa casa, na rua que hoje tem o nome dele, Ribeiro de Almeida, em Laranjeiras”, conta. Niemeyer lembra que, uma vez por semana, o jantar na casa do avô reunia toda a família, em assentos marcados. “Ninguém começava a comer enquanto todos não estivessem servidos.”

Arquivo Pessoal
Paulo e os irmãos Carlos Augusto e Oscar Niemeyer, em 1970

CATÓLICO Niemeyer foi educado em casa até os 11 anos. Só com essa idade, ele foi matriculado numa escola, o Lycée Français, no Largo do Machado. Pela vontade de uma tia solteirona que morava com a família, ele seria engenheiro. “Morávamos com nossos avós maternos e, naquela época, era muito comum essa tia ajudar a criar os sobrinhos”, diz. “Ela me estimulava para eu ser engenheiro, mas a matemática não era o meu forte.” Em 1930, ingressou na Faculdade de Medicina, na Praia Vermelha. Niemeyer é testemunha e agente da evolução da medicina no século. “Antigamente, fazíamos radiografia de estômago. Hoje, temos a tomografia computadorizada, a ressonância magnética, a angiografia, com precisão absoluta”, compara. Em 1939, passou em primeiro lugar no concurso para a Assistência Pública, onde criou o serviço de neurocirurgia. Em 1945, Niemeyer introduziu no Brasil a angiografia cerebral e a radiografia das artérias cerebrais.

Católico, o neurocirurgião se sente à vontade para criticar a Igreja. É contra a proibição do uso da camisinha. “No momento em que todo mundo está lutando para combater a aids, a Igreja vem aconselhar a não usar o preservativo?”, critica. “O governo gasta uma fortuna, distribuindo gratuitamente a camisinha e vem o bispo dizer que não se deve usar porque é crime. Quem é que vai aceitar uma bobagem dessa?” A fé católica nunca foi empecilho para a boa relação com o irmão comunista. “Depois que passei a ter maior contato com a vida, vi que o Oscar tinha razão em muita coisa, apesar de ser muito radical.”

 



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