Entrevista  
“Uma novela custa cerca de US$ 20 milhões, quando ela vai ao ar já gastou uns US$ 10 milhões. Se não der certo, afunda a emissora”, diz ele
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A separação
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Marcílio Moraes
‘‘Bater a Globo é um marco’’
Com dois enfartes e uma angioplastia, o autor de Vidas Opostas, que incomoda a Globo no Ibope, diz que adora escalar o Corcovado e o Pão-de-Açúcar e saltar de pára-quedas
texto: Márcia Montojos - fotos: alexandre sant’anna

É no terceiro andar de sua aconchegante casa na Gávea, no Rio, que o autor Marcílio Moraes se refugia para escrever os capítulos de Vidas Opostas, da Record. Lá, mergulhado no universo da guerra urbana que a trama retrata, ele é constantemente interrompido pelo barulho de tiros na favela da Rocinha, ali perto. “Assim como na novela, favela e asfalto são mundos muito próximos”, constata. Foi apostando na identificação do público com a realidade das grandes cidades, que Marcílio superou a audiência da Globo no horário nobre. Por três vezes este ano, sua história bateu os jogos dos campeonatos regionais exibidos pela concorrente. Aos 62 anos, casado com a professora Violeta Quental, pai de três filhos, o escritor amargou dois anos de desemprego ao ser dispensado pela Globo, em 2002. Nesse mesmo ano sofreu o segundo enfarte. Para manter a saúde abandonou o cigarro, diminuiu a bebida e passou a nadar diariamente. Mas, por causa de Vidas Opostas, está longe das piscinas. “Quando se escreve novela, a vida pessoal vai para o espaço. A compensação é o sucesso”, diz.

Como explica o sucesso de Vidas Opostas?
Acredito que seja uma boa história, uma história de amor, de Cinderela. E está bem armada. O que chamou a atenção do público foi incorporar a favela ao universo ficcional, uma coisa que não faziam. É a questão da estética da exclusão. A economia exclui, a teledramaturgia também. Ao invés de fazermos aquele pobre folclórico, mostramos o pobre que vive realmente nas favelas.

Foi uma estratégia usar a favela para alavancar a audiência?
Não foi pensado. Eu propus várias histórias e uma das hipóteses era tratar da guerra urbana, do tráfico, luta de facções, corrupção policial. A emissora apostou nisso, embora com certo medo. Comercialmente falando, lidar com o universo pobre não é uma boa estratégia. Mas a novela é estruturada com todos os elementos da novela clássica. Então, também tem o lado glamouroso, de ricos.

Sofreu algum tipo de censura pelo fato de a Record pertencer ao bispo Edir Macedo?
Não. Eles sabem separar muito bem o profissional do pessoal. A Record é completamente independente da Igreja. Isso é um grande acerto. Na Globo também. O grande segredo da Globo foi que o Roberto Marinho nunca teve idéias para novelas.

Essa novela teria espaço na Globo?
Seria difícil. Pode ser que eu esteja enganado, mas pelo que conheço da Globo depois de 18 anos lá, não seria um projeto aprovado por vários critérios. Critérios escritos e não escritos que existem lá. Se bem que agora, depois do sucesso, poderia até ser.

Esperava todo esse sucesso?
Esperar a gente sempre espera. Mas não imaginava essa repercussão toda. Só achava que iria bem, escrevendo eu sentia que tinha muita força.

Você tinha uma receita?
Se falar isso, vou parecer presunçoso. Mas a receita é a competência de saber fazer e armar uma história. Sabia fazer novela, criar uma história com a qual o público se identificasse. Você tem que saber o que está escrevendo porque uma novela custa cerca de US$ 20 milhões, quando ela vai ao ar já gastou uns US$ 10 milhões. Se não der certo, afunda a emissora. É um investimento alto, não se pode errar.

Dá medo?
Sempre dá. Quando a sinopse é aprovada, já começa a movimentação. Contratação de gente, produção, e você lá escrevendo. No terceiro ou quarto capítulo, você se pergunta: será que eu sei? No capítulo sessenta você se pergunta a mesma coisa: será que vai dar certo? Dá um tremendo vazio. Só depois do centésimo que começa a relaxar. Se for sucesso, é lógico.

Já passou por algum fracasso?
O momento mais difícil foi em Mandala, uma novela muito complicada. O Dias (Gomes) fez os primeiros 20 capítulos, depois passou para mim. Se eu tivesse mais experiência, não teria aceitado. Tinha aquela história de incesto, censura em cima, crítica, foi infernal. Ficou marcada como a novela da separação da Vera Fischer. A censura não deixava contar a história e a novela ficou sem história.

Comemorou quando bateu a Globo?
Imagina, se tomo um porre, como vou escrever a novela no dia seguinte? Não tenho tempo para isso, mas teve uma comemoraçãozinha familiar. Tinha que ter, né? Foi um grande dia, bater a Globo é um marco.

Essa vitória no Ibope tem gosto de revanche?
Não. É uma gratificação profissional de acreditar e dar certo. Meus desentendimentos com a Globo eram profissionais. O que eles queriam que eu fizesse eu não queria fazer. E vice-versa. Aí foi-se criando um clima ruim que acabou com a não renovação do meu contrato. Eles não topavam minhas propostas e sugeriam remake, para não apostar em coisas novas. A Globo vem se repetindo muito. Não vamos falar de Globo, deixa a Globo. A Globo hoje é só um numerozinho no Ibope que eu quero bater.