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“Minha personagem não fazia nada. Quando fazia, era uma coisa vazia, sem importância nenhuma!’’ Laura Cardoso
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Televisão
Ela reclamou e levou

A atriz Laura Cardoso viu seu papel em O Profeta crescer depois que pediu para sair da novela e diz que a carreira a distanciou da criação das filhas
texto Diógenes Campanha - foto Murillo constantino
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A tevê brasileira tinha dois anos quando Laura Cardoso estreou na telinha, em 1952. Desde então, ela é presença constante no vídeo, com grandes interpretações e participações marcantes. Mas, recentemente, a atriz sentiu que Abigail, sua personagem em O Profeta, não estava fazendo jus a essa regra e, no final de janeiro, pediu que a Rede Globo a afastasse da novela. “Minha personagem não fazia nada. Quando fazia, era uma coisa vazia, sem importância nenhuma!”, reclama Laura, ciente de seu lugar entre as grandes damas da dramaturgia nacional: “Para aquele papel, não precisava ser a Laura, nem a Nathália (Timberg), nem a Fernanda (Montenegro) nem a Tônia (Carrero).”

O recado foi entendido pelo diretor Roberto Talma e pelas autoras Thelma Guedes e Duca Rachid, que procuraram a atriz e convenceram-na a voltar. A participação de Abigail cresceu e o ritmo de gravações ficou mais intenso, e Laura está satisfeita por ter protestado contra uma prática que, segundo ela, se tornou recorrente na emissora. “Veja o que aconteceu na novela do Manoel Carlos (Páginas da Vida). Tinha cinco mil pessoas e foi impossível o autor dar uma importância maior a cada um”, diz.

Laura está feliz na Globo. Foi assediada pela Record, mas tem contrato com a emissora carioca até 2010. “Até brinquei que não estou viva em 2010, porque estou ‘véia’!”, diz a atriz, cuja vitalidade desmente seus 78 anos. A idade é revelada porque Laura nunca fez cirurgia plástica – uma das poucas estrelas de sua geração que nunca passou pelo bisturi. “Uma vez, eu disse que não era vaidosa e uma amiga respondeu que eu era a mais vaidosa, porque gosto tanto da minha cara e do meu corpo que não quero mexer”, diz. “E é verdade: gosto das minhas rugas. Esse é meu corpo, que amou, que desamou, então me deixem assim.”

O corpo de Laura chegou a reclamar no ano passado, mas por não conseguir acompanhar as atividades da atriz. Ela sangrou no palco, durante os ensaios da peça Outono e Inverno. Na época, Laura começava a gravar O Profeta e vinha de três projetos no cinema. “Quase enlouqueci de estresse”, diz ela. “De repente, senti que estava sangrando por baixo. Fiquei assustada e pedi um afastamento da peça. Acabei tendo que operar para retirar um ‘polipozinho’ do intestino.”

Mas esse não foi o maior sacrifício que a carreira lhe impôs. Para brilhar na profissão, Laura abriu mão de muitas coisas, até do convívio com as filhas Fátima e Fernanda, do casamento com o ator e jornalista Fernando Ballerone, já falecido. “Muitas vezes, deixei as meninas com meus pais, para poder trabalhar, viajar. Mas chega um tempo em que você se cobra por isso”, conta. “Você não acompanha o dia-a-dia, perde o choro e o riso da criança. Nossa carreira é meio ingrata.”

Laura diz que recuperou o tempo perdido mimando as netas, Adriana e Cláudia, e o bisneto Fernando, de seis anos. Ela lê para o menino e sai com ele para comprar carrinhos de brinquedo. “Ele adora carros e acha que a gente pode comprar uma Ferrari na esquina. Pediu para eu guardar dinheiro num cofrinho, para a gente comprar uma”, conta a bisavó, que adorou ser fotografada no playground do prédio onde mora, em São Paulo. “É para mostrar que eu sou uma velhinha pra cima, né?”