Entrevista  
‘‘Fumo pra caramba, desde os 15 anos. Sempre que acaba um trabalho engordo, depois tenho que emagrecer para o trabalho seguinte. Tomo chope, vivo a vida’’
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Entre Lula e Serra

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Selton Mello
‘‘Não tenho a manha de ficar gatinho’’
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A Globo aceitou bem sua decisão?
Sim, por eu ter começado criança lá. Eles me viram crescendo, a relação sempre foi tranqüila. Eles entendem a minha viagem e continuam me convidando. Não foi uma coisa “nunca mais”. Fiz Os Maias, Os Normais, Os Aspones, volta e meia pinta convite para novela. O Gilberto Braga me chamou para, em Paraíso Tropical, fazer o personagem do Wagner Moura. Fiquei muito tentado, vilão, ia ser ótimo, o Fábio Assunção é meu amigo. Não aceitei porque estava filmando Meu Nome Não É Johnny, um filmaço.

Sempre fez papéis diferentes. Convidam ou você os persegue?
As duas coisas. Uns caíram na minha mão e outros eu persegui. São os mais legais, os mais interessantes. É só você assistir aos filmes e às novelas para ver que os mocinhos ficam sempre atrás da menina para casar no final, nada de interessante acontece com o cara. Os vilões, os loucos, os assassinos, os traficantes são sempre mais legais. Mas pode ser legal um dia fazer o galã.

Estudou cinema?
Não, aprendi na marra. Fico no set ligado, não fico esperando minha hora de atuar. Colo no fotógrafo, gosto de saber que lente ele está usando, que resultado tem aquela luz. Gosto de ver como os diretores trabalham. Além do curta que fiz, já dirigi clipes do Ira.

É um cara vaidoso?
Vaidoso do meu trabalho, no sentido de ter orgulho das coisas que eu faço. Mas não no sentido estético. Fumo pra caramba, desde os 15 anos. Sempre que acaba um trabalho engordo pra caramba, depois tenho que emagrecer para o trabalho seguinte. Sou desleixado. Não tenho a manha de ficar gatinho o tempo inteiro, de ficar magrinho. Como, tomo chope, vivo a vida. Quando chega na época de um trabalho entro na linha, malho, fecho a boca. Sou disciplinado para o trabalho, mas não sou disciplinado para a vida. Tenho uma vida desregrada, durmo mal, como tudo errado. Em casa, como até direito, arroz integral, porque a empregada faz. Mas adoro comer besteira: pizza, chocolate, junk food, adoro. Às vezes dou uma olhada no espelho e falo: “Putz, preciso segurar a onda”. Mas sem muita paranóia.

O que gosta de fazer quando não está trabalhando?
Fico em casa, basicamente. Não sou descendente do macaco, sou descendente do urso (risos). Sou preguiçoso, gosto de curtir a minha casa. Depois da festa de lançamento da nova temporada do Tarja Preta, a gente veio para cá e continuou a festa aqui. Adoro trazer uma galera de amigos para cá.

Você era considerado um cara da night. Está saindo menos?
É verdade. Acho que sim, estou ficando velho, estou me sentindo meio cansado dessas baladas todas.

Como é a relação com seu irmão Danton Mello?
Seguimos caminhos diferentes. Ele casou, teve filhos. Mas nos damos muito bem. A gente troca idéias, conselhos. Mas meu irmão curte mais a vida, para ele a vida está em primeiro lugar, o trabalho em segundo. Para mim, trabalho vem primeiro. Essa é a diferença básica entre nós. Ele pega um avião para ir a Porto Seguro ver um show e aproveita para curtir o fim de semana lá. Tenho uma inveja boa, devia ser meio como o meu irmão. Trabalho muito e deveria gastar mais do que gasto curtindo a vida. Mas não consigo, me envolvo em mil coisas.

Não pensa em casar?
Não penso nisso, nunca senti falta. Não dá tempo. Pode acontecer mais tarde, talvez. Mas convivo bem com a solidão. Tem gente que não consegue, acaba um namoro e na semana seguinte já está namorando com o primeiro que aparece porque não consegue ficar sozinho. Vivo bem só, não tenho problema com isso. Me sinto bem.

Seu personagem em O Cheiro... idolatra a bunda. Você é como ele?
Idolatro a bunda que nem o Lourenço, como um bom brasileiro. Mulher tem que ter carne, ser gostosa. Essas modelos, para mim, são bonitas em foto. Não acho graça, não tenho tesão, nenhum desejo por modelo. Tem cara que ama, acha as modelos lindas. São magrelas demais. Gosto de carne, gostosura, de ter onde pegar.

Pensa em ter filhos?
Tenho vontade um dia. Mas não estou preocupado com isso, não tenho urgência nenhuma.