Entrevista  
"Mulher tem que ter carne, ser gostosa. Não acho graça, não tenho tesão, nenhum desejo por modelo”, diz ele
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A separação
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Selton Mello
‘‘Não tenho a manha de ficar gatinho’’
Afastado da tevê há oito anos, o ator conta por que o filme Lavoura Arcaica mudou sua carreira, se diz desleixado e,
aos 34 anos, não pensa em casar
texto: Carla Felicia - fotos: alexandre sant’anna

Selton Mello interrompeu o trabalho de edição de seu programa no Canal Brasil, o Tarja Preta – feito na ilha que tem em sua confortável casa, no Rio – para conversar com Gente. Não chega a ser surpresa. Aos 34 anos, 25 de carreira, o ator está sempre envolvido em muitos projetos, quase todos no cinema. Acaba de rodar seu 16º filme, Meu Nome Não É Johnny, de Mauro Lima, finaliza um clipe da banda Ira! que dirigiu e trabalha em seu primeiro longa como diretor, no qual atuará também como produtor e roteirista. Nos próximos dias, viaja ao México para divulgar O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, baseado no livro homônimo de Lourenço Mutarelli, que já lhe deu dois prêmios de melhor ator (Festival do Rio e Festival de Punta del Este) e que estréia em circuito nacional na sexta-feira 23. Ainda tem dois filmes a caminho: Federal, de Erik de Castro, e Os Desafinados, de Walter Lima Jr. Como ele encontra tempo? “Não sei. Estou morto, preciso descansar”, diz ele.

Por que diz que O Cheiro do Ralo foi o filme mais bacana que já fez?
Quando soube que o Heitor (Dhalia) ia filmar um romance do (Lourenço) Mutarelli, que é um quadrinista, isso me chamou a atenção e fui ler o livro. Pensei: “É o personagem da minha vida, quero fazer de qualquer maneira”. Não fui convidado para fazer. Mas azucrinei o Heitor durante meses até ele se convencer de que era eu mesmo. Ele devia ter outros atores na cabeça, mas meu amor e meu tesão estavam tão latentes que ele acabou percebendo que era melhor ter um ator apaixonado do que um ator que fosse apenas fazer mais um trabalho. Eu estava com fome, querendo mandar ver. A isso tudo, junta-se o fato de o filme ter sido feito com R$ 330 mil. Todo mundo trabalhou de graça.

Você também?
Eu também. Ficamos dois meses em São Paulo trabalhando sem ganhar nada. Mais que isso, pagando hotel e táxi, para trabalhar, num esquema de cooperativa, todo mundo é sócio. Isso deu pegada ao filme, foi para a tela o meu amor, o amor da diretora de arte, da figurinista. Ninguém estava fazendo mais um trabalho, todo mundo estava porque queria. Esse tesão, essa onda toda, sem dinheiro, fazendo aquela história que a gente queria, resultou num filme que tem potência, sangue. Dos meus trabalhos em cinema, é o mais importante desde Lavoura Arcaica e O Auto da Compadecida. O Auto, na minha vida e na vida do Matheus (Nachtergaele), é uma dádiva. Lavoura Arcaica é um filme importantíssimo porque mudou o rumo da minha história.

Por que Lavoura mudou sua vida?
Lavoura foi um trabalho intenso com Luiz Fernando Carvalho. Eu tinha 25 anos e ali tive a dimensão real da minha profissão e o que eu queria a partir dali. Se você pegar o que fiz de 1998 para cá, verá que mudei a direção da minha carreira pós-Lavoura. Tinha contrato na tevê e preferi ficar sem, fazer mais cinema e teatro. Comecei a produzir minhas coisas, a dirigir, ampliei meu horizonte.

Estava insatisfeito na tevê?
Não queria me sentir um funcionário, e estava começando a me sentir um funcionário, começando a trabalhar mal. Não estava me sentindo criativo. Acho que não fiz bem minha última novela, A Força de um Desejo, em 1999. Para não virar um cara que fica lá batendo cartão, saí fora e fui fazer as coisas com os olhos brilhando. Agora, é isso. Não sei, amanhã pode ser que o grande tesão seja fazer uma novela. Pode ter certeza que quando eu voltar a fazer novela é porque estou querendo muito.

Não temeu deixar a estabilidade que a tevê oferece?
Nunca quis ter o carro não sei das quantas, uma casa não sei onde, não tenho sonho de consumo. Tenho uma casa maneira, meus pais estão bem, vi que dava para segurar a onda. Até porque publicidade volta e meia pinta e é uma grana maneiríssima. Faço teatro, dá para me manter legal. Antes de Lavoura, é claro que me sentia confortável. Mas talvez esse seja o problema. Chega uma hora em que você fica tão confortável que não tem mais tesão. Sei que para algumas pessoas não deve ser fácil abrir mão de uma grana no final do mês, de estar na capa de todas as revistas. Talvez isso vicie e seja difícil de cortar. Mas para mim não foi, porque eu estava querendo muito.