Entrevista  
Piti Reali
Ana Carolina entre nomes de letras de músicas próprias: “A diabete ajudou a moldar minha personalidade, a ser uma pessoa organizada, disciplinada”
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CONTINUAÇÃO

Em paz com Seu Jorge
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Ana Carolina
‘‘Tenho uma namorada há cinco anos’’
Um dos nomes de maior sucesso da MPB, a cantora
e compositora lança novo disco e, um ano depois de
se assumir bissexual, diz que adora ser mulher
texto: Diógenes Campanha
fotos: piti reali

Ana Carolina divide as músicas do álbum duplo Dois Quartos, lançado este mês, em canções de amor e de “não-amor”. As de “não-amor” abordam temas como política, o sistema carcerário e a loucura. Mas é no repertório sobre o amor que a cantora e compositora de 32 anos decidiu mostrar sua face mais ousada. Um ano depois de ter assumido sua bissexualidade, ela recheou o quarto disco solo de sua carreira com músicas como “Eu comi a Madona” – assim mesmo, com apenas um “n” – e “Cantinho”, na qual um narrador masculino canta versos picantes. A licença para ousar é um privilégio conquistado por uma das cantoras de maior sucesso do Brasil. O disco Perfil – Ana Carolina foi o mais vendido do País em 2005, com mais de 650 mil cópias – no mesmo período, também emplacou 276 mil cópias do CD e 108 mil do DVD Ana e Jorge, em dueto com Seu Jorge. Com o lançamento de Dois Quartos, Ana terá que deixar o Saia Justa, do canal GNT, em janeiro, após seis meses no programa.

Dois Quartos tem músicas como “Eu Comi a Madona” e “Cantinho”, escrita com uma visão masculina. Resolveu escrevê-las após ter assumido sua bissexualidade?
“Cantinho” e “Eu Comi a Madona” foram escritas agora. “Eu Comi a Madona” é uma vontade, como se eu fosse um homem contando uma transa. É uma coisa mais reta, sem poesia, que é como encaro os homens. Meus melhores amigos são homens, gosto dessa retidão deles. Senti que podia usar a minha virilidade para contar uma transa com uma mulher. “Cantinho” também é uma visão masculina. A sexualidade é tão travada no Brasil! Quando você abre uma vírgula para qualquer questão sexual, todo mundo fala. “Madona” e “Cantinho” estarão no show. Vão ter que tapar os ouvidos, se não quiserem ouvir.

Gravá-las nesse disco foi uma forma de auto-afirmação?
Fiz essas canções inconscientemente. Foi uma tentativa de entender o universo masculino sob a ótica de uma mulher. Por mais que eu diga que goste de homens e mulheres, sou mulher. Adoro ser mulher e não trocaria isso. Mas a sensação de ser o cara é instigante.

Madonna é um sonho de consumo?
Eu poderia dar uma comidinha, sim. Mas não é meu sonho
de consumo.

E quem é?
Ninguém, mas eu me comeria muito. Eu me causo muito tesão.
O meu homem me comeria muito.

Está namorando?
Tenho uma namorada há cinco anos. Não quero falar quem é e prefiro não dizer o que ela faz. Mas é ótimo manter um relacionamento por tanto tempo.

Pensa em ter filhos?
Tenho muita vontade de ter, mas não por inseminação artificial. Gostaria de gerar mesmo, transar com um cara. Tenho 32 anos, adoraria ter antes dos 40.

Muitos homossexuais reclamam por você não levantar bandeiras, como apoiar a Parada Gay. O que acha disso?
Uma coisa que acho bacana é institucionalizar o casamento entre iguais. Quando o parceiro morre, tudo o que os dois conseguiram fica com a família e isso eu acho terrível, horripilante. Se precisarem de mim para ajudar a regulamentar o casamento, estou à disposição. Só não acho que, quando o homossexualismo for aceito, a gente tenha que torná-lo obrigatório. Porque os homossexuais falam assim: “Você tem que ser (gay), é bom. Você é incubado, é enrustido”. Não gosto desse preconceito dos gays contra os heterossexuais. Todos têm que ter direitos: os heterossexuais, os homossexuais, os transexuais, pansexuais. O cara que quer transar com uma boneca tem o direito dele, assim como a mulher que casa com um vibrador, com cachorro. A sexualidade precisa ser livre.