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Os ganhadores

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Eduardo Fischer

Ciência
Mayana Zatz

Yeda se tornou a anfitriã do
PSDB em Brasília e é famosa pelo preparo de javali: “Deixo-o no tempero por três dias e daí é só assar. Não tem erro”, ensina
Paulista de nascimento,
a governadora eleita do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, adotou o Estado há 35 anos. Aos 62 anos, após 3 mandatos como deputada federal pelo PSDB, ela assume o governo
do Rio Grande do Sul, que vive uma crise financeira com déficit anual de R$ 1,7 bilhão nas contas públicas. Yeda é
casada, mãe de Augusto e Tarsila, e avó de 4 netos
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Capa - Personalidade do Ano 2006
Yeda Crusius

Personalidade do Ano em política, a governadora
eleita do Rio Grande do Sul será a primeira mulher
a comandar o Estado, que vive grave crise financeira,
e revela suas armas para enfrentar situações difíceis
texto Cecília Maia
fotos ueslei marcelino
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Yeda com a filha Tarsila e os netos Vinícius
e João Guilherme: “Teremos dois anos muito
duros”, diz ela sobre seu governo
Se tem algo que efetivamente distrai a governadora eleita do Rio Grande do Sul, Yeda Rorato Crusius, é uma boa partida de baralho. Não importa o jogo, o que importa é a diversão. “Na casa de meus pais, varávamos a noite em verdadeiras jogatinas”, revela. Quem passava pela frente da residência dos Rorato em São Paulo, cidade natal de Yeda, logo percebia que se tratava de uma família com ascendência italiana, tamanho o barulho que faziam. “Era sempre uma grande alegria”, conta ela. Foi assim que o casal Rorato harmonizou a convivência dos seis filhos e agregou vizinhos e primos em animadas noites nos anos 50. E foi assim que Yeda se tornou uma jogadora de mão cheia, – e talvez por isso tenha mostrado na política muita habilidade para tirar algumas cartas da manga. “Ela sempre teve presença marcante nos grandes temas nacionais e tem uma capacidade especial de negociação e articulação”, diz o presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP).

A tradição familiar também a transformou numa boa festeira, a ponto de se tornar a anfitriã do PSDB em Brasília durante os três mandatos de deputada federal que cumpriu até agora. “Muitas reuniões do partido acabavam sendo em minha casa, e sempre terminavam harmonicamente com bons jantares”, conta. O segredo da agregadora política está em outra de suas habilidades: a cozinha. Yeda prepara carne como poucos. Sua especialidade vem diretamente do Sul, o javali. “Deixo-o no tempero por três dias e daí é só assar. Não tem erro”, ensina. É por isso que em suas viagens semanais de Porto Alegre para Brasília ela sempre chegava com uma caixa de isopor. Dentro vinha o javali da semana. “Nunca deixo de ter uma peça no freezer e nem um bom vinho gaúcho em casa”, revela.

Com esses ingredientes, Yeda fazia na capital do País propaganda do Estado que adotou desde que conheceu seu marido, o economista Carlos Augusto Crusius. Os dois se encontraram nos Estados Unidos, quando faziam mestrado em Economia, e viveram uma paixão fulminante. Terminado o mestrado, voltaram ao Brasil, casados. “Falamos a mesma linguagem, somos companheiros em tudo”, conta ela, que escolheu seu Estado pelo coração. “Ela sempre representou à altura do povo do Rio Grande do Sul”, avalia o presidente da Câmara dos Deputados Aldo Rebelo (PcdoB-AL), que cultiva uma paixão intensa pela história de lutas do povo gaúcho.

Divulgação
Ela era a única mulher no curso de Economia da
USP: “Eram os anos 60. Havia muita confusão
nas ruas, liberação de costumes”, lembra
Yeda chegou a Porto Alegre com 26 anos. Lá se vão 35 anos respirando os ares dos pampas, onde ela teve seus dois filhos, César Augusto, 35, e Tarsila, 34, e seus quatro netos: João Guilherme, oito anos, Helena, sete, Vinícius, seis, e Victoria, de um ano. Foi lá também que ela quebrou um velho tabu: o de que mulheres não trabalhavam em rádios e tevês – muito menos fazendo comentários econômicos. “Nas emissoras não havia nem banheiro feminino”, lembra. Nenhuma novidade para quem que já tinha cursado uma faculdade considerada masculina. No curso de Economia da Universidade de São Paulo (USP), ela era a única representante do sexo feminino. “Eram os anos 60. Havia muita confusão nas ruas, liberação de costumes, além disso a faculdade ficava em frente ao Bar sem Nome, onde se preparavam as músicas dos festivais. Então havia muito mais novidades do que uma aluna.”

Modéstia. Aos 62 anos, Yeda ainda guarda a beleza que deve ter encantado os colegas de classe. Olhos verdes, sorriso largo, cabelos claros, 1,74 metro de altura. Nada disso passa despercebido por mais que ela evite tocar no assunto. “A beleza física nunca foi o mais importante na minha vida”, desconversa. O porte, sim. Yeda se valeu da altura para entrar no esporte. Jogou vôlei desde a adolescência em São Paulo. Começou no time da escola, o Liceu, em seguida foi atleta do Clube Paulistano e mais tarde do Palmeiras. “Meu pai não gostava muito porque as pernas ficavam à mostra”, lembra. Mesmo assim ela nunca largou o vôlei. No Sul jogou na Associação Cristã de Moços e na Associação Atlética do Banco do Brasil. Depois montou times com um grupo de amigos, com quem jogou semanalmente até se tornar deputada federal. “Agora que volto a morar no Sul quero retomar os amigos e os jogos, que são muito relaxantes para mim”, planeja.

Yeda também promete fazer um governo compartilhado, não
só mantendo um gabinete itinerante, como abrindo as portas do Palácio do Piratini para atividades culturais. “Quero transformar o Palácio numa sala de cinema uma vez por semana. O Rio Grande
tem tradição nessa área, tanto que temos um dos melhores festivais do País, o de Gramado”, diz. Ela também faz planos para se tornar uma embaixadora da moda de seu Estado. Para isso, contratou o estilista gaúcho Rui Spor, que vai cuidar de seu visual. “Pedi que ele me fizesse roupas a partir da vestimenta tradicionalista gaúcha”,
conta a governadora eleita. “Acho que posso explorar os cintos, que são da cultura indígena, as calças estilizadas, como as bombachas, as blusas com lenços e as saias envelopes que fazem parte do vestuário histórico.”

Todas as vezes que chega a um cargo novo é assim. Yeda passa por uma transformação. Quando assumiu o Ministério do Planejamento, no governo Itamar Franco, ela optou por um vestuário sóbrio e clássico. “Achei que naquele momento em que a auto-estima do brasileiro estava baixa por conta da hiperinflação, eu deveria aparecer com poucas cores, para dar um tom sério, como exigia o momento”, conta. Ao ser eleita deputada federal, ela deu preferência para modelos mais fashions, com muitas cores, além de estampas florais e geométricas. Agora ela inova de novo. “Quero vestir as roupas novas especialmente quando estiver fora do Rio Grande do Sul.”

Ao mesmo tempo em que programa o lado festivo de seu governo, Yeda tem se preparado para enfrentar uma das piores crises financeiras do Rio Grande do Sul. O déficit anual nas contas do Estado atualmente gira em torno de R$ 1,7 bilhão, e segundo a equipe de transição, a projeção para 2007 é de que ele suba para R$ 2,4 bilhões, o equivalente a quatro folhas de salário dos funcionários públicos. “Se ela não consertar o Estado, ninguém vai conseguir porque a Yeda é a pessoa com a maior capacidade e o maior embasamento técnico para encarar essa dívida”, defende o amigo e senador Arthur Virgílio (PSDB-AM).

Diante de um quadro tão devastador, Yeda não se intimida. “Teremos dois anos muito duros”, admite, mantendo a serenidade de sempre. Mas ela tem lá os seus segredos, além dos conhecimentos econômicos, para manter o foco. E este está em mais uma de suas habilidades: “Em momentos difíceis, eu reservo um tempo ao longo do dia para fazer tapeçaria ou tricô. Isso me ajuda a manter o equilíbrio.” Pelo tamanho do rombo nas contas, ela terá que desenrolar muitos novelos de lã.