Reportagens  

Os ganhadores

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Eduardo Fischer

Ciência
Mayana Zatz

Jairo Goldflus/Arquivo pessoal
Com a filha Gabriela e a neta Manuela, de três meses: “Não
me sinto velha de maneira
nenhuma. A minha geração
mudou esse conceito”
“Quero fazer um bom filme
nacional e escrever um livro”, diz Regina. Abaixo, nos anos de “Namoradinha do Brasil”
Em 41 anos de carreira, a paulista Regina Blóis Duarte,
59 anos, deu vida às mais variadas mulheres em
25 novelas, 4 minisséries,
4 especiais de televisão, 8 filmes, 16 peças. Conquistou
15 prêmios ao longo de sua trajetória. Mãe de André, Gabriela e João Ricardo, acaba de se tornar avó de Manuela
e contabiliza 4 casamentos,
o último com Eduardo
Lippincott, 56 anos
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Capa - Personalidade do Ano 2006
Regina Duarte

Às vésperas de comemorar 60 anos, atriz de personagens
inesquecíveis, como a viúva Porcina, interpreta mais uma
protagonista em Páginas da Vida. Personalidade do Ano
em Televisão, ela conta que o título de “Namoradinha do
Brasil” já incomodou e vive seu mais novo papel: o de avó
texto Márcia Montojos
fotos leandro pimentel
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Ela se arrepende de ter recusado o convite para
fazer o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos por vergonha das cenas de nudez. “Foi uma infantilidade caipira, andei misturando a pessoa com a atriz”, diz
O sorriso inconfundível, o grande talento e a incontestável capacidade de emocionar o público ao longo de 41 anos de carreira fizeram de Regina Duarte uma das maiores estrelas da televisão brasileira. Sua trajetória registra interpretações memoráveis como a viúva Porcina, de Roque Santeiro, ou a socióloga Malu, do revolucionário seriado Malu Mulher. Em todos os trabalhos, emprestou um pouco de si e construiu uma história profissional que se confunde com a da teledramaturgia no País. Às vésperas de completar 60 anos, a atriz está em cena em mais um papel idealizado sob medida para ela por Manoel Carlos: a médica Helena, de Páginas da Vida. Na tevê, luta contra o preconceito contra os portadores da síndrome de Down com a mesma coragem e altruísmo com que encara a vida. “A base das personagens da minha mãe é a de mulheres fortes e generosas, ela também é assim. É tão verdadeira que às vezes não sei se está interpretando ou não”, resume a filha e atriz Gabriela Duarte.

Mulher de inúmeras facetas, Regina soube aliar com sucesso sua carreira à vida pessoal. Ao mesmo tempo em que mergulhou no trabalho, dando vida a mais de trinta personagens na televisão, dezesseis no teatro e oito no cinema, acompanhou de perto o crescimento dos três filhos: André, 36 anos, e Gabriela, 32, de seu casamento com do engenheiro paulista Marcos Franco, e João Ricardo, 25, fruto do relacionamento com o publicitário argentino Daniel Gomez. “A impressão que tenho da minha mãe é a de que ela vive equilibrando os pratos. Corre para lá e não deixa cair um, depois corre para cá para segurar outro. É um pouco estressante para quem está perto, mas é admirável porque ela tem essa capacidade de verdade”, elogia Gabriela.

A inquietação é uma marca de Regina Duarte. Para essa paulista de Franca, levar uma vida atada à rotina não faz parte de sua essência. Talvez por isso, esteja sempre em busca de novos rumos seja na profissão ou na vida pessoal. Assim, se dá ao luxo de experimentar novos prazeres. Ao lado do pecuarista Eduardo Lippincott, 56 anos, seu quarto marido, cria gado Brahman na fazenda que mantêm em Barretos, no interior de São Paulo. A paixão pela vida no campo foi descoberta após o casamento, há seis anos. Outro motivo de encantamento se deu há três meses, com o nascimento da neta Manuela, filha de Gabriela e do fotógrafo Jairo Goldflus. Desde então, Regina vive um papel com o qual sonhava há pelo menos cinco anos: o de avó. E, mais uma vez, tenta se desdobrar para saborear esse momento especial ao lado da filha e da neta. Não mediu esforços para acompanhar o nascimento da menina, em meio ao corre-corre das gravações. Pediu quatro dias de folga e se mandou para São Paulo. “Ela quer fazer quatrocentas coisas ao mesmo tempo, é uma loucura”, diz Gabriela.

Intensa em tudo que faz, a atriz sempre mergulhou de cabeça na profissão. Gabriela tem na lembrança a época em que ela e os irmãos eram pequenos e a mãe se concentrava tanto em suas leituras que sequer ouvia os chamados dos filhos. Era necessário que eles gritassem para que ela saísse “de um outro planeta”. Porém, os momentos que reservava às crianças também eram intensos e verdadeiros. “Ela sempre nos deu qualidade, amor e atenção e também age assim com a neta. Esse lado lunático dela vem melhorando com o tempo”, diz Gabriela. O relacionamento entre mãe e filha sempre foi muito próximo. Tamanha cumplicidade resulta em orgulho recíproco das duas. Regina aponta a minissérie Chiquinha Gonzaga como um dos momentos inesquecíveis de sua carreira. “Foi um trabalho que eu amei fazer ao mesmo tempo em que apreciava de perto, e com orgulho de mãe, as qualidades artísticas da minha filha.”

Uma das poucas atrizes de sua geração a conseguir se manter no topo desde a estréia, em 1965, na novela A Deusa Vencida, Regina nunca se permitiu acomodar. Logo nas primeiras aparições, roubou a cena e em pouco tempo se transformou na grande heroína de nossas telenovelas. Foram catorze trabalhos consecutivos até 1974, quando deu vida a sua última mocinha romântica, a Bárbara, de Fogo sobre Terra. Apesar do sucesso, começou a questionar seus papéis. Já não ficava tão à vontade interpretando personagens ingênuas, sofridas e chorosas. Passou a sentir-se sufocada e limitada como atriz. O título de “Namoradinha do Brasil” começou a pesar. Queria alçar novos vôos. A virada começou em 1975 quando decidiu se afastar da televisão por três anos para dedicar-se exclusivamente ao teatro. Queria mudar a visão que autores e produtores tinham sobre ela. Afinal, a garota que surgira aos 18 anos iluminando com seu sorriso um comercial de sorvete já não era mais a mesma. Sabia ser dona de uma maturidade pessoal e artística que lhe garantia segurança para viver papéis mais ousados. “Sou ligada no meu trabalho. Estou sempre em estado de alerta, bebendo mesmo da vida, atentamente”, diz.

A grande oportunidade de mostrar que era muito mais do que um rosto bonito veio com o teatro. Naquele ano, interpretou uma prostituta na peça Réveillon, de Flávio Marinho, traçando um divisor de águas em sua carreira. De volta à televisão, em 1977, fez Nina e dois anos depois despiu-se de vez das heroínas açucaradas ao encarnar, com garra comovente, a socióloga Malu do seriado Malu Mulher. O programa, que falava de divórcio, sexo e outros temas ousados para a época, possibilitou a Regina mostrar ao grande público seu amadurecimento profissional e pessoal. Naquele momento, os conflitos vividos por ela no vídeo se misturavam à crise conjugal que enfrentava também na vida real com o fim de seu primeiro casamento.

Com a separação, a atriz deixou o Rio de Janeiro e voltou a morar em São Paulo. A mudança era uma tentativa de manter o convívio de André e Gabriela com o pai, que se transferira para lá. “Minha mãe tem esse lado altruísta, preferiu se sacrificar por saber que seria saudável para mim e meu irmão mantermos a convivência familiar”, diz Gabriela. As constantes viagens entre Rio e São Paulo acabaram lhe roubando um tempo precioso para cultivar amizades no trabalho. “Não ter investido mais nos meus amigos é um dos poucos arrependimentos que tenho na minha carreira”, diz. Os amigos podem ser poucos, mas são verdadeiros e fiéis. “Ela é minha amiga e minha atriz preferida. É uma das atrizes mais completas do País, dispõe de uma técnica invejável e não conheceu o fracasso. Regina é, como o nome diz, uma rainha”, elogia Manoel Carlos.

Outro arrependimento, em 41 anos de carreira, é reconhecido hoje com a serenidade que somente a maturidade permite: o fato de ter recusado o convite de Luiz Carlos Barreto para fazer o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1977. Na época, confessa, teve vergonha de fazer cenas de nudez. “Foi uma infantilidade caipira, andei misturando a pessoa com a atriz.”

Oito anos depois de Malu Mulher, em 1985, o talento da atriz foi mais uma vez comprovado quando deu vida a um dos mais populares personagens da televisão: a viúva Porcina, de Roque Santeiro. Extravagante e intempestiva, a personagem arrancava gargalhadas e lágrimas do público com a mesma facilidade. A partir daquele momento, segura de suas qualidades, passou a encarar o título de “Namoradinha do Brasil” com outros olhos. “Houve um momento em que me senti mal por ser chamada para o papel de moça frágil. Já era uma mulher quase trintona, emancipada, com dois filhos, e continuavam me escalando para fazer garotas virgens e dependentes de pais e namorados. Hoje, não abro mão desse título”, conta.

Pois bem, a primeira namoradinha do Brasil completa 60 anos em fevereiro. “Não me sinto velha de maneira nenhuma”, diz. “A minha geração mudou esse conceito.” Regina olha para a frente e revela
seus planos: “Quero fazer um bom filme nacional e escrever um
livro.” Para quem acompanhou a trajetória vitoriosa dessa mulher de sorriso largo e franco, não existem dúvidas de que novos sucessos estão a caminho.