Entrevista  
Fotos: Divulgação
‘‘Com 18 anos eu parecia 12. Não tinha corpo e minhas amigas já eram peitudas, bundudas, gostosas.
Elas hoje estão mocréias. E eu
tô tipo com 20 anos, adorando’’
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A falta de vaidade
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Roberto Medina
‘‘O trabalho me salvou’’
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Dava dor de cabeça para sua mãe na adolescência?
Muito, coitada da minha mãe. Hoje eu venero ela. Deve ter sido difícil lidar com uma adolescente que sabia muito o que queria, mesmo que parecesse completamente absurdo. O fato de eu não ouvir os conselhos, ou de olhar para ela naquele momento e dizer “o que é isso, coroa, você não sabe p. nenhuma, eu que sei”. Para ela deve ter sido muito decepcionante, muito angustiante lidar com isso. Ela achava que eu devia estudar, fazer faculdade – e, quando eu fui fazer faculdade, fiz música. Aparecia todo dia com uma tattoo diferente e ela “ai, meu Deus, você não vai arrumar emprego em lugar nenhum”. Fui meio camicase, podia ter realmente quebrado a cara do jeito que ela imaginava.

E hoje, é sua fã? Vai aos shows?
Minha mãe é mais bicho do mato do que eu. Odeia badalação, odeia pessoas, odeia o mundo. Ela gosta dela, da casinha dela e dos livros dela – é muito parecida comigo nesses aspectos. Mas ela vai aos shows quando pode, e dá valor. Hoje a gente tem uma relação bem bacana, e isso foi uma grande vitória porque a gente passou a vida inteira como cão e gato. Minha mãe era minha maior inimiga e eu a dela, provavelmente.

Continua sem falar com seu pai?
Não tenho contato com ele. Acho que faz uns 10 anos.

Por quê?
Um dia parou, e parou.

Sente vontade de procurá-lo?
Não, se rolasse uma vontade muito grande já teria acontecido. Acho
que ele não precisa de mim, eu não preciso dele e está tudo certo.

Você fez 29 anos. Está preocupada com as mudanças no corpo?
Que nem toda mulher, que às vezes acorda e fala “essa m. dessa bunda flácida”. Mas também no outro dia já estou “ah, quer saber? Estou aqui, estou bombando”. Não tenho muito problema com isso talvez por causa da genética. Amadureci muito tarde. Na adolescência isso era um problema, eu com 18 anos parecia 12. Magrelinha, não tinha corpo, todas as minhas amigas já eram peitudas, bundudas, gostosas. Hoje isso é uma vantagem porque minhas amigas que estavam gostosas com 18 hoje estão umas mocréias. E eu tô tipo com 20 anos, adorando.

Você já pensa em ter filhos?
Até nisso ainda estou dez anos atrás. Ainda não bateu essa onda, não. Nem penso, não tem como. Quero pegar a mochila, botar nas costas e me picar para algum lugar que acabei de decidir. E com filho isso muda, você tem que ter toda uma programação. Gosto de ser muito livre e não ter nenhum laço.

As cantoras baianas sempre fizeram sucesso, mas com estilos diferentes do seu. O que pensa da música de Daniela Mercury?
Ela teve uma importância muito grande na história da música baiana, dessa música regional, e conseguiu fazer coisas fora também. Com certeza a obra dela é relevante para muita gente. Para mim, não tanto.

E da Ivete Sangalo?
Não consigo assimilar a música dela, mas respeito a Ivete pela pessoa que ela é. Não estou nem aí se ela quer fazer uma música falando de amor, se curte axé, rumba ou salsa. E ela provavelmente não está nem aí se o meu rock tem guitarra demais ou se é barulhento demais. O importante é quando a gente olhou uma para a cara da outra, a gente conseguiu se olhar no olho e dizer “p., negona, beleza, faça o seu aí que eu tô fazendo o meu aqui, boa sorte”. É uma pessoa autêntica.