CAPA
 ÍNDICE
 BASTIDORES
 ENTREVISTA
 URGENTE
 QUEM SOU EU?
 IMAGENS DA  SEMANA
 DIVERSÃO & ARTE
 MODA
 AGITO
 LUA DE MEL
 ACONTECEU
 TRIBUTO
 CELEBRIDADE
 TESTEMUNHAS DO  SÉCULO 
 EXCLUSIVAS

 BUSCA

 ASSINE O BOLETIM
 EDIÇÕES ANTERIORES
 ASSINATURAS
 FALE CONOSCO
 EXPEDIENTE
 PUBLICIDADE

 

  DINHEIRO ISTOÉ
 

 

Lélia Abramo, 89 anos
O exemplo de que vale a pena sonhar

A atriz Lélia Abramo trabalhou como jornalista, viveu na Itália durante a Segunda Guerra, iniciou a carreira aos 47 anos e ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores quando era presidente do Sindicato dos Artistas

Fábio Bittencourt

Edu Lopes
“Acho que o teatro perdeu um pouco a noção do que já foi”, diz Lélia

Lélia Abramo, 89 anos, é brasileira, filha de imigrantes italianos, e traz da origem familiar a aptidão pelas lutas políticas. A atriz, fundadora do Partido dos Trabalhadores, foi criada num casarão no bairro do Ipiranga, em São Paulo, com sete irmãos. O pai Vicenzo Abramo era empresário da área têxtil. Tinha sido sócio do conde Francisco Matarazzo em uma fábrica de tecidos no final da primeira década do século, até naufragar pouco tempo depois. Vicenzo morreu em 1949, sem ver a filha que estava na Itália. A casa sempre foi reduto de encontros entre jornalistas, escritores, artistas e políticos da esquerda brasileira. O caçula Cláudio notabilizou-se como um dos maiores jornalistas da história do Brasil. Já Lélia era fascinada pela ribalta.

Seus sonhos foram adiados pela crise financeira da família, quando ela arrumou emprego num banco. “Meu pai não queria, mas não podia impedir”, recorda. Na época, já usava cabelos curtos e usava saias na altura do joelho. Com conhecimento de mercado financeiro e juros, fazia os cálculos das aplicações de 400 clientes por dia. De lá, transferiu-se para uma fábrica, onde era responsável pelos salários dos funcionários. “Vocês estão sendo explorados”, disse, certo dia, aos colegas do trabalho. Algumas horas depois, estava desempregada. “Fui delatada por uma pessoa que ouviu a conversa”, conta. Era um sinal das causas da esquerda que hoje ainda abraça com fervor.

VIDA NA ITÁLIA
No início de 1941, ela se questionava sobre o que o futuro lhe reservaria. A preocupação tinha sua razão. Lélia Abramo descobriu aos 30 que tinha um problema sério de saúde, pois sentia fortes dores na cabeça e sofria com febres freqüentes. Consultou dezenas de médicos no Brasil, mas nenhum soube diagnosticar a doença. Cinco anos mais tarde, sua irmã Beatriz casou-se com um oficial do exército italiano, que foi chamado para voltar à terra natal. Lélia pegou carona e foi para a Itália cuidar da saúde. Foi atendida por um médico que descobriu as causas de seu problema: cistos no ovário esquerdo. A cirurgia para a retirada do órgão afetado foi marcada, mas um outro cirurgião a operou. Ao acordar, ela descobriu que o médico havia retirado o ovário saudável e que nunca mais poderia ter filhos. “Foi um choque”, diz. “Abdiquei do casamento a partir daí. Eu queria uma porção de filhos”, lembra.

Mesmo depois do tratamento, Lélia não voltou ao Brasil. A Segunda Guerra Mundial estava em pleno fervor na Europa e ela teve que ficar. Sem dinheiro e com a saúde debilitada, perambulava pelas ruas de Roma, na Itália, atrás de alimentos. Testemunhou o racionamento imposto pelo governo em função dos conflitos. Cada cidadão tinha direito mensalmente a quatro ovos, 300 gramas de arroz e carne, um quilo de açúcar e 15 litros de leite. Muito menos do que uma cesta básica de alimentos. “As pessoas andavam pelas ruas desesperadas e famintas”, recorda-se a atriz, que viveu dois anos nessa situação. Num desses dias de horror, ela se deparou com um homem com botas de couro e uma sacola nas costas. Era o jornalista Rubem Braga, amigo da família e correspondente de guerra. “Ele despejou latas de leite, sopas, carnes, chocolates e cigarros”, recorda. “E nos tirou da fome.”

ESTRÉIA NO PALCO
Em 1950, com o fim da Grande Guerra, Lélia pôde enfim voltar ao Brasil, após 12 anos. São Paulo já dava os primeiros sinais de potência industrial. A sua população havia dobrado e as ruas mais pareciam canteiros de obras. Foi época da eleição de Getúlio Vargas à presidência da República. “Eu me sentia uma estranha dentro de meu próprio país”, recorda a atriz. Durante um tempo, trabalhou como jornalista da agência de notícias Ansa, sob o comando do jornalista Giannino Carta. Ao mesmo tempo, atuava em grupos de teatro amador voltados à colônia italiana. Em 1958, com 47 anos, foi convidada para participar da primeira montagem de Eles não Usam Black-tie, uma peça de Gianfrancesco Guarnieri. Ganhou o papel de Romana, personagem que morava num morro do Rio de Janeiro. “Todos achavam que eu seria um fracasso por causa de meu forte sotaque italiano”, recorda a atriz. No dia da estréia, foi aplaudida de pé pelo público do Teatro de Arena, no centro da cidade. E, no mesmo ano, abocanhou o prêmio da Associação dos Críticos Teatrais de São Paulo e o Prêmio Saci, como melhor atriz coadjuvante. “Foi aí que surgiu meu primeiro convite para a tevê”, diz Lélia.

No final da década de 60, a tevê brasileira entrava na sua adolescência com transmissões de programas ao vivo. Os atores ensaiavam os textos por até oito horas para evitar gafes no ar. Sua primeira novela foi A Muralha, transmitida dos estúdios da TV Cultura, em São Paulo, às terças e sextas-feiras. Em sua última participação na tevê, ela interpretou Bibiana Cambará, na minissérie global O Tempo e o Vento, de 1985. “Foi uma grande atuação”, orgulha-se. No cinema, estreou em Vereda da Salvação, de Anselmo Duarte, em 1964. No mesmo ano, foi convidada para participar da inauguração de uma nova emissora carioca: a TV Globo. “Todos os artistas correram para lá”, lembra. Treze anos mais tarde, a emissora seria a responsável por sua maior decepção. Eleita presidente do Sindicato dos Artistas de São Paulo, Lélia queria melhores condições de trabalho para a categoria. De uma hora para outra, sua personagem na novela Pai Herói morreu. “Daí em diante, fiquei esquecida”, diz. “Acabaram com meu direito de trabalhar.”

No ostracismo profissional, abraçou a luta sindical. Pegava ônibus para ir à região do ABC se encontrar com um metalúrgico barbudo que incomodava o governo. Com Luiz Inácio Lula da Silva, Lélia mantém até hoje uma relação de grande respeito. É reconhecida por ele como uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores. “Estávamos em um fusca quando ele me disse que tinha a intenção de fundar um partido”, lembra Lélia. Sozinha, ela vive num apartamento no centro velho de São Paulo. Quando está com insônia, busca um dos 1,2 mil livros que tem nas estantes – 300 títulos foram apreendidos durante a ditadura militar. Não sai para passear e nem para ir ao teatro. “Tive quatro enfartes. E acho que o teatro perdeu um pouco a noção do que já foi”, conclui.

 

Copyright 1996/2000 Editora Três