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Entrevista
Carla Camurati
Diretora do filme Irma Vap que foi mãe aos 42, diz que Ney Latorraca tem humor da Dercy Gonçalves, que Marco Nanini é o protótipo do CDF e conta que tem preguiça de ir a festa
 

Ter filho depois dos 40 não foi uma opção. Carla Camurati conta que a vida foi se encaminhando para esse desfecho, talvez sob influência da história de sua mãe – que deu à luz aos 17 anos e teve que abdicar de vários planos. Hoje, aos 45, casada com o cineasta João Jardim e mãe de Antônio, 3, a atriz e diretora considera que fez a coisa certa. “Tive filho num momento legal, já tinha realizado as coisas mais prementes. E o João é um pai maravilhoso”, explica Carla, que já foi casada outras três vezes. Atriz que despontou como um novo rosto bonito na tevê, nos anos 80, ela trocou a carreira consolidada pelo sonho de dirigir cinema. Onze anos após lançar Carlota Joaquina, marco da retomada do cinema nacional, divide a crítica com o quarto longa, Irma Vap – O Retorno, inspirado na peça que ficou onze anos em cartaz e levou três milhões de pessoas ao teatro.

Consegue equilibrar bem a vida de mãe com a carreira?
Consigo. Mas, nessa divisão, minha vida social caiu. O que não me fez falta. Não sou de social, tenho preguiça para festa. Gosto de festa muito boa, onde só tenha gente legal e se possa conversar. Já viu que vou pouco, né? Normalmente festa é um lugar que tem muita gente – poucas legais –, um barulho danado, confusão. Minha vida social já não era lá muito intensa, mas eu tinha mais tempo livre. Hoje, meu tempo fica concentrado para o Antônio. Imagina se vou ficar saindo de casa em vez de ficar com ele.

O que está sendo mais difícil na criação do Antônio?
Ouvia muito que criança é bom mas dá trabalho. Esse trabalho – de acordar de noite, dar atenção, amamentar – não achei difícil. Amamentei um ano e oito meses, trabalhando. Tudo bem harmônico, nada foi problema. O que acho mais difícil é estabelecer limites para educar bem. Qual o limite da liberdade que você dá para não criar uma criança déspota, malcriada? Até que ponto você está ajudando ou atrapalhando profundamente a vida do seu filho?

Antônio nasceu quando você havia ultrapassado os
40 anos. Foi opção?

Foi a vida, foi indo. Não foi uma opção direta, as coisas foram acontecendo. Foi ótimo, é muito bom ser mãe mais velha. O Antônio já fala tudo, faz tudo, está na aula de capoeira e de natação. Minha mãe foi mãe muito nova. Quando nasci ela tinha 17 anos. Provavelmente isso fez com que eu fosse mãe mais velha, porque pude ver como ela, durante um grande período da vida, não conseguiu fazer nada. Minha mãe foi estudar quando eu tinha 11 anos.

Você não gostava de comer quando criança. Antônio
puxou à mãe?
Ele às vezes é chatinho, mas consigo fazer com que coma brócolis, roa uma alface. Se fosse educado pelo meu pai, teria levado uns tapões bem merecidos. É muito ruim lidar com o fato de seu filho não comer. Vejo hoje o que deveria ser o desespero do meu pai e da minha mãe.

Irma Vap é um fenômeno teatral que você adaptou para o cinema. Não é um risco?
É arriscado, perigoso, assustador. Ao mesmo tempo, é muito legal poder ter no cinema a inspiração e o prazer que havia naquela peça. É como repetir um prato que você gostou muito. Claro que você pode errar a receita. Mas quando tem os mesmos elementos para fazer seu prato, como tive o Marco Nanini e o Ney Latorraca (protagonistas da peça), você tem grande chance de acertar. Não espero, porém, que o filme fique onze anos em cartaz.

É o terceiro filme com Nanini. Coincidência ou preferência?
Preferência, identidade, cumplicidade, admiração, prazer em trabalhar. Nanini é um ator muito dedicado, o protótipo do CDF, um cara que estuda, estuda, estuda. Cria milhões de referências, gosta de discutir
as coisas. E como sou assim também, acabo ficando muito feliz. Ele
e o Ney têm uma coisa deliciosa: são complementares. Um é muito tímido, o outro é extrovertido. O Ney tem o humor da Dercy (Gonçalves), é um cara escrachado. Quando você junta a química dos dois,
entende porque ficaram em cartaz tanto tempo e as pessoas se divertiam tanto em ver.

Sonha em dirigir alguém com quem nunca trabalhou?
Acho o Dustin Hoffman um Deus, um ator maravilhoso, mas tenho o Nanini. O que posso querer mais? Poderia ter tido a chance de dirigir o Jerry Lewis, mas tenho o Ney, que acho melhor. Tenho vontade de trabalhar é com a Fernanda Montenegro.

Como reage às críticas negativas?
Não faço cinema para a crítica. É muito bom fazer comédia, rir é uma coisa muito boa, é saboroso se divertir. Tive a oportunidade de ter na mão dois grandes atores que fazem um trabalho muito bom. Provavelmente quando você não gosta daquilo que faz se sente mais atingido, porque se sente um pouco impotente.

Então elas não te abalam?
Não é que não me abale. Não contabilizo assim. Essa moeda não tem valor crucial. Pode me entristecer, dependendo do quão bobo é o que a pessoa diz, ou me enraivecer por segundos, dependendo do quão agressiva a crítica é. Logo depois, penso: “Tudo bem, é jornal, vira lixo no dia seguinte, uma notícia come a outra, a vida é assim”.

Guilherme Fontes reclama que está sendo perseguido
pelos grandes produtores no caso Chatô. Concorda que
há panela no cinema?
Atualmente a gente anda com cada desculpa que é uma loucura. As pessoas se desculpam de uma maneira que me deixa boba. Não estou falando especificamente desse caso. Cometem erros, mas sempre os atribuem ao outro lado e não a si próprios – veja o que está acontecendo com a política. Ninguém faz um mea culpa, senso crítico não existe. É de uma cara-de-pau, porque ninguém é culpado, sempre é o outro, é a oposição, é a panela. Segura aí você o que fez na sua vida, arque com as conseqüências dos seus atos e vamos em frente, não vamos ficar perdendo tempo. Não tenho paciência para essas conversas.

E para política?
Política é um assunto detestável atualmente. Não dá. Prefiro outro cardápio. O melhor remédio é rir um pouco. Já passei a fase da decepção, da indignação. Agora não quero mais.

Votou no Lula?
Claro, claro. Mas não dá para falar.

Ainda acredita nele?
Não vou falar. Não quero falar sobre isso. É um assunto que
está proibido.

Mesmo em ano de eleição?
Estou me adequando porque é difícil ver tudo isso. É muito complicado. Eu sofro. Não consigo entender, justificar. Não dá para topar o pensamento: “O que importa não são os meios, são os fins”. É uma loucura tudo isso.

É vaidosa?
Sou, mas não sou doente com a vaidade. Tenho preguiça de ficar pensando se tem uma ruguinha a mais embaixo do olho. Preocupar-se tanto. deve envelhecer. Sou uma pessoa que ri muito, rir é uma delícia. Se todos rissem meia hora por dia, seriam outros. Faz tão bem para a alma. Os maquiadores na tevê falavam: “Você ri muito, vai ficar toda marcada”. Vê se pode! Se é esse o preço da risada, tudo bem.

Mas pensava assim na época em que era estrela de novela?
Nunca fui encanada com isso. Talvez este seja um dos fatores que
me afastaram um pouco (da tevê). Não concordo que, para se sentir seguro com seu eixo, tenha que investir tudo no lado de fora. O que
é diferente de se manter num bom peso, praticar exercícios. Há nove meses faço Iyengar Yoga (ioga mais calma, preocupada em corrigir posturas), três vezes por semana. Me trouxe concentração e melhora
na respiração, na postura.

Voltaria a fazer novelas?
Acabaram de me chamar para uma (como atriz), na Bandeirantes. Mas não tenho esse tempo. É uma questão de prioridade, minha vida está ocupada. Posso fazer um filme, até uma minissérie, mas não podem me convidar para daqui a trinta dias estar gravando uma novela por um ano. É impossível nesse momento.

Como foi chegar aos 40 anos para uma mulher que despontou como um dos rostos mais bonitos da tevê?
Não tive crise. Pode ser que daqui a pouco fique preocupada. Não me sinto com 20, mas também não com 40. Não acho que estou horrorosa, que envelheci muito, que me acabei, que estou tão diferente. Minha vida está linda, me sinto mais plena, segura. Estou onde queria estar, fazendo o que queria fazer, com a vida que queria ter. Então está bom.