Logo
 
Cinema
V de Vingança
A ótima Natalie Portman está no libelo contra a intolerância e o abuso de poder escrito pelos irmãos Wachowski, da trilogia Matrix
 
Divulgação
Natalie Portman e Hugo Weaving em V de Vingança, baseado em graphic novel de Alan Moore e David Lloyd
Muitos detalhes de V de Vingança tornam-se compreensíveis com a última informação dos créditos finais: trata-se de uma co-produção entre a Inglaterra e a Alemanha. A simples exclusão norte-americana da equação permitiu que os roteiristas e co-produtores Andy & Larry Wachowski, da trilogia Matrix, pudessem ser o mais possível fiéis ao espírito sombrio e às fortes nuances políticas da graphic novel homônima criada por Alan Moore e David Lloyd (o nome de Moore não é creditado). Este suspense de ação é um libelo contra a intolerância e o poder desmedido. Foi imaginado pela dupla, no começo dos anos 80, como reação à linha conservadora da então primeira-ministra Margareth Thatcher. Hoje, funciona como um grito em formato de superprodução contra a era Bush.

Nesta fantasia política em futuro próximo, a órfã Evey (Natalie Portman, ganhadora do Globo de Ouro por Closer – Perto Demais, em convincente atuação) conhece o misterioso V (Hugo Weaving, o vilão de Matrix), que se esconde por baixo de uma máscara sorridente, capa e chapéu. Ela toma contato com seu plano de vingança e revolução contra o tirano Sutler (John Hurt), que impôs ao povo a submissão comportamental. Esta versão para as telas marca a estréia na direção de Lewis McTeigue, assistente dos Wachowski nos Matrix. O diretor afirma ter-se inspirado nas adaptações para cinema dos romances 1984, Fahrenheit 451 e Laranja Mecânica, além do clássico político A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo. Isso explica a consistência e a seriedade com que o entrecho político é tratado neste filme com aspirações a blockbuster.

O que mais impressiona na obra é sua clareza ideológica. Embalado em perfeito esquema hollywoodiano, o roteiro dos Wachowski se permite, por exemplo, um longo e importante flashback que elogia a felicidade e a liberdade de um casal de lésbicas, destruído pela ignorância esmagadora de Sutler. V ergue um altar a uma delas, como ícone de resistência ao abuso fascista. E ao final deste filme bem realizado, fica ainda uma mensagem para os brasileiros: as pessoas têm responsabilidade pelo poder que confiam ao governo. Grito contra a era Bush