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Livro
Memória de Elefante
Expressões portuguesas dificultam leitura de obra densa de Lobo Antunes
 
António Lobo Antunes é um dos maiores expoentes da atual literatura portuguesa, logo abaixo de José Saramago. Memória de Elefante (Objetiva, 200 págs., R$ 34,90), que chega agora ao Brasil, é o primeiro dos 23 livros que publicou e foi lançado originalmente em 1979. Médico psiquiatra, durante o serviço militar lutou na guerra de Angola, mas o sucesso de primeiro trabalho permitiu que ele largasse a medicina e pudesse viver da literatura.

O livro mostra um dia na vida de um psiquiatra que regressa de Angola, enquanto relembra aleatoriamente seu passado. Infância, juventude e vida militar se misturam em um turbilhão atemporal. Antunes usa essas memórias como ponto de partida para uma profunda reflexão sobre a vida, ao mesmo tempo em que recorre à sua formação de psicanalista para tentar entender a origem de seus traumas pessoais.

A exemplo de Saramago, que exige que suas obras sejam publicadas exatamente como em Portugal, a editora Objetiva publicou o texto de Lobo Antunes na íntegra. Em Saramago isso não é um grande problema, pois ele escreve de modo mais formal. Já Lobo Antunes é um autor que explora a sonoridade das palavras, recorrendo a um tom coloquial repleto de expressões desconhecidas para o leitor brasileiro. Isso faz com que frases como “...os freqüentadores da tasca torciam as cabeças na direcção do écran que dimanava uma luz...” exijam uma pausa para bom entendimento, o que compromete a fluência da leitura. Notas de rodapé facilitariam o trabalho. Ao se ater à prisão das expressões originais, o livro reforça a velha tese de que Brasil e Portugal são países separados pela mesma língua, o que empana parte do brilho de uma obra densa e reflexiva. Baú de memórias